Berço das Águas

Sim, o Cerrado é o coração do Brasil. Não somente por estar localizado na região central do país, mas principalmente por ser o local de onde brotam veios d’água que alimentam boa parte das bacias hidrográficas brasileiras. Com a geografia marcada por planaltos, o bioma abriga diversas nascentes e importantes áreas de recarga hídrica, desempenhando um papel fundamental para as principais bacias hidrográficas brasileiras e sul-americanas. Por esse motivo, é denominado como “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”.

Das doze principais regiões hidrográficas do país, oito têm nascentes na região¹: a bacia Amazônica (rios Xingu, Madeira e Trombetas); a do Rio Tocantins-Araguaia (rios Araguaia e Tocantins); a Atlântico Nordeste Oriental (Rio Itapecuru); na Bacia do Parnaíba (rios Parnaíba, Poti e Longá); na do São Francisco (rios São Francisco, Pará, Paraopeba, das Velhas, Jequitaí, Paracatu, Urucuia, Carinhanha, Corrente e Grande); na do Atlântico Leste (rios Pardo e Jequitinhonha); na Bacia do Paraná (rios Paranaíba, Grande, Sucuriú, Verde e Pardo); na do Paraguai (rios Cuiabá, São Lourenço, Taquari e Aquidauana).

Em termos espaciais, ressaltando a grande contribuição do bioma para as águas do país, 78% da área da bacia do Araguaia-Tocantins, 47% da área do São Francisco e 48% do Paraná/ Paraguai estão inseridas no Cerrado. A região, ainda, contribui com a maior parte da água que alimenta essas três bacias: 71% da produção hídrica da bacia do Araguaia/Tocantins, 94% do São Francisco e 71% do Paraná/Paraguai. Isso demonstra que há uma forte dependência hidrológica dessas bacias em relação ao bioma. Deve-se destacar a importante contribuição do Cerrado para a bacia do Rio São Francisco e, consequentemente, para o Semiárido brasileiro².

Quando se fala em berço das águas, não só se remete ao Cerrado, mas também a um dos principais ícones do bioma, que tem importante contribuição para bacias hidrográficas do país: a Estação Ecológica de Águas Emendadas³, localizada no extremo nordeste do Distrito Federal, na região administrativa de Planaltina. Com quase 11 mil hectares, a unidade de conservação de proteção integral abriga uma vereda com quase 6 km de extensão, de onde nascem cursos d’água que abastecem tanto a bacia do Tocantins como a do Paraná, dois dos mais importantes rios brasileiros. Criada em 1968, a estação ecológica é destaque dentre as unidades de conservação do país, possuindo espécies representativas da fauna e da flora do Cerrado, muitas delas ameaçadas de extinção.

É no bioma também onde estão as nascentes dos rios que formam o Pantanal⁴, cujo elemento crucial para a função ecossistêmica é o fluxo hidrológico, que possibilita espaços de reprodução e aquisição de alimentos para a biodiversidade local, em sua sazonalidade de enchentes e secas. Em 1988, a porção brasileira do Pantanal foi declarada Patrimônio Nacional pela Constituição Brasileira e abriga locais designados como de relevante importância internacional pela Convenção Ramsar de Áreas Úmidas. Ela também abrange áreas da reserva da biosfera reconhecidas pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, desde 2000.

Além disso, nesse bioma estão localizados três dos principais aquíferos do país: Bambuí, Urucuia e Guarani⁵. Fundamentais para o fluxo dos rios, essas reservas de água subterrâneas abrangem grandes extensões de terra no bioma. O aquífero Bambuí, localizado entre o Cerrado e a Caatinga, no norte de Minas Gerais, ocupa uma área de 180 mil km² e está inserido dentro da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Já o Urucuia, que está totalmente dentro do bioma, se estende, majoritariamente, por toda a região oeste do estado da Bahia, e possui ainda fragmentos em Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e no noroeste de Minas Gerais, abrangendo uma área de 120 mil km². Por fim, o Guarani, o aquífero mais conhecido no Brasil por sua grande extensão (é o segundo maior aquífero conhecido do mundo), ocupa aproximadamente 1,2 milhão de km², e possui metade de sua área contida dentro do bioma.

Em contraponto à grande quantidade de nascentes, rios e aquíferos, atualmente o Cerrado contém 60% da produção agrícola anual brasileira, com as culturas de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar⁶. Por conseguinte é no bioma onde há a maior concentração (78%) de pivôs centrais do Brasil – sistema de irrigação de grandes culturas, que irrigam uma área circular com uso de pivô central⁷. Eles estão localizados, principalmente, no oeste de Minas Gerais, no sudeste de Goiás, no Distrito Federal e no oeste da Bahia, regiões situadas nas bacias dos rios Paraná, São Francisco e Tocantins⁸. Para se ter uma ideia, os três municípios com a maior concentração de pivôs no país estão localizados no Cerrado, são eles: Unaí (MG), Paracatu (MG) e Cristalina (GO), que juntos possuem 2.558 pivôs, ocupando uma área de aproximadamente 191 mil hectares⁹. Importante ressaltar que a agropecuária, principalmente a de larga escala, é responsável pela utilização de quase 70% dos recursos hídricos do país¹⁰, e tecnologias, como a dos pivôs centrais, são as que mais demandam água e as que, por sua vez, mais desperdiçam.

Deve-se considerar ainda a relevância das águas do bioma para a produção energética do país, uma vez que contém nascentes das bacias do Paraná, do São Francisco e do Tocantins, rios onde estão localizadas as grandes hidrelétricas brasileiras. Consideradas importantes matrizes energética do Brasil, responsáveis por grande parte da geração de energia do país, o que reforça a importância do bioma para o desenvolvimento nacional.

As águas do Cerrado também são importantes fontes de lazer, recreação e turismo, trazendo qualidade de vida às pessoas e gerando recursos nas localidades turísticas. São inúmeras as atrações disponíveis nos diversos rios, riachos, lagos, corredeiras e cachoeiras, desde passeios, banhos, prática de esportes aquáticos, pescas e até a simples função cênica e paisagística proporcionada pela beleza desses lugares. As chapadas dos Veadeiros, Guimarães e Diamantina são exemplos de lugares que concentram uma grande quantidade de cachoeiras belíssimas. O Rio Araguaia é um dos principais pontos de pesca esportiva do país, no São Francisco há diversas possibilidades de lazer e turismo. São inúmeras as atrações com as frescas e limpas águas do Cerrado.

Uma imensa caixa d’água, de onde vertem águas cristalinas, que seguem para diferentes cantos do nosso país, abastecem cidades, geram energia, alimentam indústrias, irrigam cultivos agrícolas e, ainda, são fontes de lazer e recreação. Com tudo isso, percebe-se claramente a relevância do bioma para a sustentabilidade hídrica do nosso país.

Referências:

(1) LIMA, J.E.F.W.; SILVA, E.M. “Estimativa da contribuição hídrica superficial do Cerrado para as grandes regiões hidrográficas brasileiras”. In: Anais do XVII Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, 2007, São Paulo: ABRH, 2007. Disponível em <www.abrhidro.org.br/SGCv3/publicacao.php?PUB=3&ID=19&SUMARIO=4580>. Acesso em 21 jan. 2020.
(2) BRASIL, Ministério do Meio Ambiente. CERRADO: Ecologia, Biodiversidade e Conservação. Aldicir Scariot, José Carlos Sousa-Silva, Jeanine M. Felfili (Organizadores). Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2005. 439 p. Disponível em <www.mma.gov.br/publicacoes/biomas/category/62-Cerrado.html?download=302:Cerrado-ecologia-biodiversidade-e-conservacao>. Acesso em 21 jan. 2020.
(3) DISTRITO FEDERAL (Brasil). Águas Emendadas – O paraíso do Cerrado. Secretaria de Estado de Infra-estrutura e Obras, Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Brasília, 2004. 24p. Disponível em <www.ibram.df.gov.br/wp-content/uploads/2018/03/aguas-emendadas-o-paraiso-do-Cerrado.pdf>. Acesso em 21 jan. 2020.
(4) ANA/GEF/PNUMA/OEA. Implementação de Práticas de Gerenciamento Integrado de Bacia Hidrográfica para o Pantanal e Bacia do Alto Paraguai: Programa de Ações Estratégicas para o Gerenciamento Integrado do Pantanal e Bacia do Alto Paraguai: Relatório Final/Agência Nacional de Águas. Brasília: TDA Desenho & Arte Ltda., 2004. 316p. Disponível em <arquivos.ana.gov.br/projetos/gefpantanal/PAE_Pantanal_PT.pdf>. Acesso em 21 jan. 2020.
(5) SOUSA, Ferdinando de. Bambuí, Urucuia e Guarani: Os grandes aquíferos do Cerrado brasileiro. Água Vida e Cia. Mai. 2017. Disponível em <ferdinandodesousa.com/2017/05/24/bambui-urucuia-e-guarani-os-grandes-aquiferos-do-Cerrado-brasileiro/>. Acesso em 21 jan. 2020.
(6) ICV, IEB, Ipam, ISA, WWF-Brasil, ISPN, Rede Cerrado. Estratégias Políticas para o Cerrado. ICV et. Al: Brasília, 2018. Disponível em <ispn.org.br/recomendacoes-politicas-para-a-conservacao-do-Cerrado/>. Acesso em 21 jan. 2020.
(7) BRASIL, Agência Nacional de Águas. Levantamento da agricultura irrigada por pivôs centrais no Brasil. 2. ed. Brasília: ANA, 2019. 47 p. Disponível em <www.ana.gov.br/noticias/ana-e-embrapa-identificam-forte-tendencia-de-crescimento-da-agricultura-irrigada-por-pivos-centrais-no-brasil/ana_levantamento-da-agricultura-irrigada-por-pivos-centrais_2019.pdf>. Acesso em 21 jan. 2020.
(8) LANDAU, E. C.; MOURA, L.; GUIMARAES, D. P.; HIRSCH, A.; PIMENTA, F. M. Concentração geográfica de pivôs centrais no Brasil. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2013. 37 p. Disponível em <https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/977535/concentracao-geografica-de-pivos-centrais-no-brasil>. Acesso em 21 jan. 2020.
(9) ALVES, Raylton. ANA e EMBRAPA identificam forte tendência de crescimento da agricultura irrigada por pivôs centrais no Brasil. Agência Nacional de Águas. 04 jul. 2019. Disponível em <www.ana.gov.br/noticias/ana-e-embrapa-identificam-forte-tendencia-de-crescimento-da-agricultura-irrigada-por-pivos-centrais-no-brasil>. Acesso em 21 jan. 2020.
(10) Quase metade da água usada na agricultura é desperdiçada. Agência nacional de Águas. 22 mar. 2012. Disponível em <www.ana.gov.br/noticias-antigas/quase-metade-da-a-gua-usada-na-agricultura-a-c.2019-03-15.2354987174>. Acesso em 21 jan. 2020.