O coração do Brasil

Sim… o coração do Brasil bate forte. Lugar de terra vermelha, onde a vida pulsa, no Cerrado está localizada a savana mais rica em biodiversidade do mundo. Situado majoritariamente na área central do Brasil, é o segundo maior bioma do país e da América Latina, ocupando mais de dois milhões de km², quase 1/4 do território nacional¹. Devido a sua localização central, compartilha espécies com três biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga e Mata Atlântica), o que contribui para sua alta biodiversidade. Sua localização, no coração brasileiro, metaforiza bem a importância do bioma para o território nacional e países vizinhos.

Além de ocupar grande parte dos estados de Minas Gerais, Tocantins, Goiás, Distrito Federal, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia, o Cerrado abrange ainda áreas disjuntas no extremo norte do Pará, uma pequena porção do Amapá, Roraima e Rondônia, uma faixa central do estado de São Paulo e uma porção do Paraná.

No bioma predomina o clima tropical úmido, com um inverno seco, com estiagem que se prolonga por cerca de cinco meses, e um verão chuvoso. A umidade relativa do ar sofre um decréscimo no período seco e chega, inclusive, a níveis semelhantes a de regiões desérticas, com valores entre 9 e 11%. A quantidade de chuvas não é homogênea em toda o bioma e, mesmo na época das chuvas, é comum a ocorrência de períodos de estiagens, chamados de “veranicos”². As temperaturas médias são elevadas durante todo o ano, exceto no inverno quando pode esfriar bastante. Quem mora no bioma convive com toda essa variabilidade, marcada por secas e chuvas, que interferem na biodiversidade, na agropecuária e na qualidade de vida das pessoas.

No imaginário da sociedade brasileira predomina a imagem de uma vegetação rala, de árvores tortas, sem beleza, utilidade ou valor – seja social, econômico ou ecológico³. Porém, nesse bioma encontra-se uma variedade de paisagens, fauna e flora, o que faz dele um dos maiores patrimônios da biodiversidade mundial. Suas espécies vegetais e animais são conhecidas por gerações devido ao seu enorme potencial alimentar, medicinal e utilitário. Entre os cerca de 20 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem na região, estão os povos e as comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, extrativistas etc.), com séculos de experiência no convívio sustentável com o bioma.

O Cerrado é ainda dito como coração do Brasil não somente por sua localização, mas também devido às águas que dali brotam e seguem para os principais rios do país – por isso também é denominado de “berço das águas”. O bioma abriga diversas nascentes e importantes áreas de recarga hídrica, desempenhando um papel fundamental para as principais bacias hidrográficas brasileiras e sul-americanas.

Apesar de seu enorme valor, o Cerrado está ameaçado. O acelerado desmatamento nas últimas décadas para a produção agropecuária, aliado à expansão urbana, reduziram a cobertura vegetal do bioma a pouco mais da metade do seu original. Quando se afirma que o Cerrado abrange dois milhões de km², não significa que ele esteja conservado em toda a sua extensão, muito pelo contrário – depois da Mata Atlântica, a savana brasileira é o bioma nacional mais ameaçado.

O Cerrado tem sido percebido por anos apenas como um espaço a ser ocupado e uma fronteira agrícola a ser conquistada. O desenvolvimento sem planejamento ambiental, contudo, leva a padrões de produtividade insustentáveis, degradação e esgotamento de recursos naturais, além de diversos impactos sociais negativos. O modelo de desenvolvimento que não leva em conta as riquezas naturais, gera abandono do campo e ameaça a continuidade dos povos e comunidades tradicionais. Considerando toda a importância do bioma para a biodiversidade brasileira, para o povo que ali reside e as águas que dali partem para o restante do país, o coração do Brasil precisa cada vez mais de cuidado e atenção para continuar pulsando.

Referências:
(1) IBGE/MMA. Mapa de biomas do Brasil – Primeira aproximação, 2004. Disponível em < https://brasilemsintese.ibge.gov.br/territorio.html>. Acesso em 18 jan. 2020.
(2) MACENA, F. A. M. da; ASSAD, E. D.; STEINKE, E. T.; MÜLLER, A. G. Clima do Bioma Cerrado. In: Albuquerque, A. C. S.; Silva, A. G. da. Agricultura Tropical: Quatro décadas de inovações tecnológicas, institucionais e políticas. Embrapa Informações: 2008 56p. Disponível em <https://www.researchgate.net/publication/301567134_Clima_do_Bioma_Cerrado>. Acesso em 18 jan. 2020.
(3) SILVA, 2009, apud SAUTCHUK, 2014. Sautchuk, J. Cruls, Histórias e andanças do cientista que inspirou JK a fazer Brasília. São Paulo: Geração Editorial: 2014.


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