Ameaças ao Cerrado

Enormes áreas contínuas de Cerrado vão pouco a pouco se tornando áreas fragmentadas e, quando não, dão lugar a cidades, pastos e grandes monoculturas. Aquelas paisagens cheias de biodiversidade, com árvores contorcidas, flores exóticas, frutos cheios de cores e sabores, com grande riqueza cultural e social, vão se transformando em campos monocromáticos, com grandes impactos sociais e ambientais.

Essa imagem traduz o que a riqueza do Cerrado brasileiro vem se transformado. O bioma mais ameaçado do país – a savana mais biodiversa do planeta – vem sendo brutalmente devastada por diversos fatores, como a expansão da agropecuária, a instalação e operação de hidrelétricas, a caça e captura de animais, a expansão urbana, mineração, poluição e o extrativismo predatório de espécies da flora.

Dados da Embrapa de 2007 afirmam que, até aquele período, a porcentagem de cobertura vegetal natural do bioma era de 60,5%, distribuída de maneira bastante heterogênea. Ou seja, quanto mais para a parte sul, principalmente quando chega no estado de São Paulo, há mais áreas degradadas, ao passo que a porção norte está mais conservada, seja pela dificuldade de acesso ou pela distância dos grandes centros urbanos¹.

Cabe mencionar que anualmente há incremento de áreas desmatadas no bioma. De 2001 a 2019, foi registrado o desmatamento em mais de 283 mil km² do Cerrado. Somente em 2019, foram desmatados 6,5 mil km². Os estados com maior taxa de desmatamento nesse período foram Tocantins, Maranhão, Mato Grosso e Bahia, responsáveis por mais de 70% dos incrementos². Os motivos para este quadro preocupante estão relacionados, principalmente, à expansão do agronegócio e ao uso predatório do solo. A produção de grãos, como a soja, e a pecuária são apontadas como as principais atividades responsáveis pelo desmatamento. Para se ter uma dimensão do problema, cerca de metade da área original do Cerrado deu lugar a pastagens plantadas, culturas anuais e outros tipos de usos. Quase 42% do bioma deu lugar a pastagens e aproximadamente 18 milhões de hectares de Cerrado foram convertidos em áreas para a agricultura³.

Coincidência ou não, os estados com maior incremento do desmatamento em 2019 (exceto o Mato Grosso e incluindo o Piauí), fazem parte da denominada região Matopiba⁴. A sigla de cada estado, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, deu o nome Matopiba, cujo plano de desenvolvimento foi oficializado pelo Decreto nº 8.447, de 6 de maio de 2015⁵. Apontada como a grande fronteira agrícola da atualidade, respondendo pela maior parte da produção de grãos e fibras do país. Além do impacto da prática agrícola em si, critica-se essa expansão pela complexidade socioambiental da área, pois abrange 46 unidades de conservação, 35 terras indígenas e 781 assentamentos da reforma agrária⁴.

Além disso, há ainda os desmatamentos realizados com fins de produção de carvão vegetal. Essa prática, ao contrário dos países industrializados, continua sendo largamente praticada no Brasil e não somente com madeira de reflorestamento, pois aproximadamente 50% é proveniente de matas nativas, em especial de áreas de Cerrado. No país, a produção de carvão vegetal em sua maioria se destina ao consumo interno impulsionado pela indústria siderúrgica. Dados de 2005, apontam que de um total de 5,5 milhões de toneladas de carvão produzidas no país, 35,5% foram provenientes de vegetação nativa do bioma⁶.

As monoculturas de eucalipto e de pinus também ameaçam a vida no Cerrado⁷. Resultado de uma política de incentivo ao “reflorestamento” em larga escala iniciada na década de 60, na qual muitos estados inseridos no bioma a usufruíram, especialmente na região norte de Minas. Com usos na siderurgia, na fabricação de papel e celulose, e na indústria moveleira, essas espécies têm alta produtividade, e, para isso, demandam maior aporte de água e nutrientes, podendo interferir no lençol freático, secando nascentes e diminuindo consideravelmente a biodiversidade. Além disso, há o impacto socioambiental dessas monoculturas, uma vez que muitas dessas áreas de “reflorestamento” foram implantadas sem considerar as especificidades ambientais e as comunidades locais, inclusive populações tradicionais e povos indígenas.

Outro fator de risco para o bioma são as queimadas, que fazem parte naturalmente da ecologia do Cerrado há milhares de anos, mas que, com a ocupação humana, passaram a ser usadas como ferramenta para a caça e o manejo do solo⁸, utilizadas para desmatamento, formação de pastagens e plantio de culturas. Porém, frequentemente se descontrolam, alterando sua ocorrência natural no bioma, impactando negativamente a biodiversidade a curto e longo prazos. Segundo dados do Inpe⁹, em 2019 foram detectados quase 1,5 milhão de focos de incêndios no bioma, em sua maioria nos estados de Tocantins (23,1%), Maranhão (19,1%) e Matogrosso (18,4%).

O impacto de todas essas ameaçadas ocasiona diretamente a fragmentação e degradação de ecossistemas, diminuição da biodiversidade de fauna e flora, invasão de espécies exóticas, diminuição da qualidade e da quantidade de suas águas, degradação de nascentes, erosão dos solos, interferências nos meios de vida de comunidades locais, povos indígenas e populações tradicionais que ali habitam, além, de contribuir para a emissão de gases de efeito estufa e, por consequência, para as mudanças climáticas.

Em 2003, o Governo brasileiro publicou uma lista com espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, das quais 132 possuem ocorrência no Cerrado. Conforme mencionado na seção sobre a flora, devido às peculiaridades do bioma, há um alto grau de endemismo (espécies que só existem naquela região), o que confere um risco maior à sua biodiversidade. Por outro lado, no lugar das nativas, se espalham descontroladamente plantas exóticas, como algumas gramíneas africanas (capim gordura, andropogon e braquiária).

Segundo o Livro Vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção¹⁰, o Cerrado é o segundo bioma com maior quantidade de espécies da fauna ameaçadas de extinção, perdendo somente para a Mata Atlântica. Foram apontadas 288 espécies ameaçadas de extinção no bioma, dentre elas, a arara azul, o lobo-guará e o tamanduá-bandeira.

Os que acabam por sentir mais de perto esses impactos são certamente os povos do Cerrado. As comunidade locais e os povos indígenas, embora desempenhem importante papel na proteção da biodiversidade e na manutenção dos serviços ecossistêmicos, passam muitos desafios para seguirem seus meios de vida e perpetuarem sua cultura. Imagine o cenário do que já vem acontecendo, populações tradicionais e povos indígenas, cujos meios de vida e formas de produção e sobrevivência dependem diretamente dos recursos do bioma, muitas delas ainda sem a garantia de posse de suas terras, acabam pressionadas pela expansão do agronegócio, pela especulação imobiliária e grilagem de terras, gerando muitos conflitos, expropriação de terras, escassez de recursos naturais e, por consequência, pobreza, doenças e problemas sociais.

Certamente, o coração, de onde pulsa biodiversidade e água para todo o Brasil, encontra-se gravemente ameaçado. Mais do que conservar, é urgente recuperar o que já foi devastado, agir contra todas essas ameaças, garantir meios de fortalecer os povos do Cerrado, seus verdadeiros guardiões, agindo de forma a garantir o desenvolvimento sustentável do bioma. Caso contrário, possivelmente veremos grandes consequências em todo o país e por muitas gerações.

Referências:

(1) SANO, Edson Eyji; ROSA, Roberto; BRITO, Jorge Luís Silva; FERREIRA, Laerte Guimarães. Mapeamento de cobertura vegetal do Bioma Cerrado: estratégias e resultados. Planaltina, DF: Embrapa Cerrados, 2007. 33 p. Disponível em <https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/570887/1/doc190.pdf>. Acesso em 21 jan. 2020.
(2) Incrementos de desmatamento – Cerrado. Terra Brasilis/ Prodes (Desmatamento). Disponível em <terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/Cerrado/increments>. Acesso em 21 jan. 2020.
(3) KLINK, Carlos A.; MACHADO, Ricardo B. A conservação do Cerrado brasileiro. Megadiversidade Vol. 1, no 1, jul. 2005. Disponível em <https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/recursos/Texto_Adicional_ConservacaoID-xNOKMLsupY.pdf>. Acesso em 17 dez. 2019.
(4) Sobre o Matotpiba. Embrapa. Disponível em <https://www.embrapa.br/tema-matopiba/sobre-o-tema>. Acesso em 21 jan. 2020.
(5) BBRASIL. Decreto nº 8.447, de 6 de maio de 2015. Dispõe sobre o Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba e a criação de seu Comitê Gestor. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/decreto/d8447.htm>. Acesso em 21 jan. 2020.
(6) DUBOC, E.; COSTA, C. J.; VELOSO, R. F.; OLIVEIRA, L. S.; PALUDO, A. Panorama atual da produção de carvão vegetal no Brasil e no Cerrado. Planaltina, DF: Embrapa Cerrados, 2007. 37 p. Disponível em <ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CPAC-2009/28620/1/doc_197.pdf>. Acesso em 21 jan. 2020.
(7) VIANA, Maurício Boratto. O eucalipto e os efeitos ambientais do seu plantio em escala. Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados: 2004. Disponível em <http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/1162/eucalipto_efeitos_boratto.pdf>. Acesso em 21 jan. 2020.
(8) PEREIRA, Allan Arantes. Mapeamento automático de queimadas no bioma Cerrado utilizando sensores orbitais. Tese (doutorado em Ciências Florestais). Universidade Federal de Lavras. Lavras/MG: 2017. Disponível em <http://repositorio.ufla.br/bitstream/1/15258/1/TESE_Mapeamento%20autom%C3%A1tico%20de%20queimadas%20no%20bioma%20Cerrado%20utilizando%20sensores%20orbitais.pdf>. Acesso em 21 jan. 2020.
(9) INPE – Programa Queimadas. Banco de dados de queimadas. Disponível em <http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/bdqueimadas>. Acesso em 21 jan. 2020.
(10) ICMBio. Livro Vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção. Brasília, DF: ICMBio/MMA, 2018. Disponível em <www.icmbio.gov.br/portal/component/content/article/10187>. Acesso em 21 jan. 2020.

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