O misticismo das florestas

Parecemos pequenos diante da floresta Amazônica, a exuberância de suas árvores e rios deixa claro que estamos diante da maior floresta tropical do mundo. De características heterogêneas em termos físicos, ecológicos e político-administrativos, não há consenso sobre a área total ocupada pelo bioma. Segundo o GEO Amazônia¹, num olhar amplo, pode-se considerar que ocupe uma área de mais de 8 milhões de km², constituindo-se, assim, o maior bioma da América do Sul. Está presente no Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa, Peru e Suriname. No território brasileiro ocupa mais de 4 milhões de km2, quase 50% do território nacional², abrigando uma enorme biodiversidade, que fascina pela riqueza de cores, tamanhos, formas, texturas e cheiros.

A Amazônia fica ainda maior quando olhamos as populações que ali vivem. Há cidades, povoados e aldeias ao longo de todo o gigante bioma, muitas vezes isolados ou quase isolados, conferindo à região uma baixíssima densidade demográfica. Isso revela outra riqueza que a floresta abriga: sua diversidade de povos e comunidades tradicionais, como indígenas, seringueiros, ribeirinhos, pescadores, entre outros, que há gerações vivem de forma sustentável na floresta por meio de seus modos de vida. No entanto, a riqueza de povos contrasta com a dura realidade de baixos índices socioeconômicos³ e a dificuldade de acesso a serviços de saúde e educação a que são submetidos.

Porém, a partir da sabedoria de seus ancestrais, esses povos vivem dos recursos da biodiversidade e dali retiram quase tudo que precisam: alimentos, remédios, matéria-prima para fazerem seus utensílios, móveis, vestimentas e artesanatos.

Dentro da floresta coletam e beneficiam diversos frutos e produtos típicos do bioma, como açaí, castanha-do-Brasil, babaçu, pupunha, tucumã, andiroba, maçaranduba, seringueira, etc. Por meio dessa rica biodiversidade também há uma ampla produção de artesanatos, como as cestas de fibra de arumã e os acessórios de sementes de jarina (conhecida como marfim vegetal), dentre muitos outros, expressões nítidas da possibilidade de se usufruir dos recursos naturais, mantendo a floresta em pé.

As terras amazônicas possuem a maior reserva de madeira tropical do mundo e, além da grande variedade de árvores e frutos, a Amazônia abriga importante fauna que dialoga com o modo de vida dos seus povos. Só de peixes, são cerca de duas mil espécies habitando os rios por onde circulam ribeirinhos, indígenas e pescadores artesanais, que têm na pesca importante atividade de sustento e incremento para a economia local onde o bioma está presente: Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, além de parte dos territórios do Maranhão, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins.

Nesse imenso bioma, silenciosamente, acontece um dos mais espetaculares fenômenos: uma quantidade enorme de plantas, que inalam gás carbônico e exalam oxigênio, transpiram água, liberam substâncias aromáticas, removem gases tóxicos do ar, contribuem para a formação de nuvens, e alimentam rios aéreos⁴. Todo esse mecanismo altamente inteligente e dependente da floresta em pé contribui para a regulação do clima, o que confere estabilidade e conforto, além de dar condições para a manutenção de toda biodiversidade.

A floresta interfere no clima por meio de um ciclo virtuoso, iniciado depois que as chuvas caem sobre a vegetação e grande parte da água infiltra no solo, onde fica armazenada. Dali as raízes das árvores, desafiando a força da gravidade, sugam essa água que, percorrendo até 60 metros de altura, por entre troncos, galhos e folhas, são evaporadas e seguem em forma de vapor para a atmosfera. Uma árvore grande pode transpirar mais de mil litros de água em um único dia. Considerando a dimensão da bacia Amazônica, por dia são aproximadamente 20 bilhões de toneladas de água lançadas na atmosfera. Para se ter uma ideia, esse valor é maior do que o volume lançado pelo Rio Amazonas no oceano Atlântico diariamente, que corresponde a pouco mais de 17 bilhões de toneladas de água⁴.
O que acontece com toda essa água na atmosfera? Como um grande coração, a floresta funciona como uma bomba que impulsiona os fluxos de água, como rios aéreos, pelo ciclo hidrológico. Nessa analogia, e considerando sua dimensão, a Amazônia pode ser considerada o coração do mundo⁴. O rio aéreo transporta a umidade de uma região para outra, por isso, a importância da conservação da floresta, uma vez que a Amazônia é a cabeceira dos mananciais aéreos da maior parte das chuvas na América do Sul.

As águas do bioma, além de sua grande importância em termos ambientais e climáticos, têm uma forte simbologia para as populações da floresta. Conta a história que foi a partir de uma expedição pelo rio, que os espanhóis se depararam com um povo indígena composto somente por mulheres⁵ e fizeram alusão às amazonas, guerreiras relatadas na mitologia grega, o que veio a dar nome ao rio, ao estado e ao bioma. A bacia hidrográfica do Amazonas é a maior do Brasil e do planeta, com cerca de 6 milhões de quilômetros quadrados e 1.100 afluentes; e o Rio Amazonas é o segundo maior rio do mundo em extensão, perdendo somente para o Rio Nilo.

Não à toa, há a canção que diz “esse rio é minha rua”, pois, cercados de mata densa, é somente pelo rio que muitos povoados conseguem se locomover pelo bioma. São nessas águas doces que os povos das florestas também vivem suas crenças, culturas e valores, passados ao longo das gerações. A famosa manifestação de Círio de Nazaré, o folclore de Sairé, do boto cor-de-rosa, o rito da Tucandeira entre outras manifestações demarcam que entre os meandros dessa grande floresta ecoa o misticismo de seus povos.

Referências:
(1) PNUMA/OTCA. Perspectivas do Meio Ambiente na Amazônia: Geo Amazônia. 2008. Disponível em < https://www.mma.gov.br/estruturas/PZEE/_arquivos/geoamaznia_28.pdf>. Acesso em 17 dez. 2019.
(2) IBGE/MMA. Mapa de biomas do Brasil – Primeira aproximação, 2004. Disponível em < https://brasilemsintese.ibge.gov.br/territorio.html>. Acesso em 18 jan. 2020.
(3) MMA. Bioma Amazônia. Ministério do Meio Ambiente, 2019. Disponível em: <www.mma.gov.br/biomas/amaz%C3%B4nia>. Acesso em 17 dez. 2019.
(4) NOBRE, Antonio Donato. O futuro Climático da Amazônia. Articulação Regional Amazónica. Disponível em [www.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/futuro-climatico-da-amazonia.pdf], acesso em 17 dez. 2019.
(5) PEREIRA, Patrícia. Amazonas: lenda ou realidade? Super Interessante, 2016. Disponível em <super.abril.com.br/historia/amazonas-lenda-ou-realidade>, acesso em 21 jan. 2020.

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