Povos e Comunidades Tradicionais da Caatinga

O Semiárido brasileiro, com sua paisagem mais aberta, se tornou propício para o estabelecimento de populações humanas, cujos meios de vida as permitiram sobreviver e reproduzir mesmo em meio à aridez¹. Certamente há um conhecimento acumulado por gerações que permitiu o lidar com as condições adversas, como saber otimizar o aproveitamento de água, o manejo de caprinos “pé duro” (raça crioula resultante de seleção natural), a ampla utilização da flora (alimentação, saúde, ração animal etc.) e o uso de sementes crioulas, com espécies mais adaptadas às peculiaridades regionais.

Os povos da Caatinga, conhecidos como catingueiros, são sertanejos, vaqueiros, agricultores, populações indígenas, quilombolas, entre outros. O bioma é o berço de comunidades tradicionais, como os índios Tumbalala, os Xukurus e os Pankararu, e os quilombolas de Conceição das Crioulas. Estes grupamentos humanos desenvolveram suas próprias estratégias de sobrevivência e convivência com as condições da Caatinga. São guardiões do conhecimento sobre o manejo de plantas, de suas propriedades e usos medicinais, sobre a milenar técnica de busca de águas subterrâneas com forquilhas (conhecida como hidroestesia²) e sobre os sinais da natureza que antecedem as secas prolongadas e as chuvas.

A Caatinga e os sertanejos ficaram mais conhecidos pelo Brasil e o mundo a partir de uma história ícone dos sertões, a do temido cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva³, mais conhecido como Lampião ou o “Rei do Cangaço”. Apesar de ser uma história marcada por conflitos e muito sangue, há de se reconhecer que Lampião difundiu a imagem do sertão. Já se passaram mais de 80 anos após sua morte e ele continua presente em cantigas sertanejas, nas vestimentas ornadas, na literatura de cordel, no teatro, no cinema, em escolas e museus.

Semelhante aos sertanejos, estão aqueles conhecidos pelos trajes de couro (que os protegem da vegetação espinhosa e do sol quente) e por percorrer o sertão a cavalo e cuidar de gado: os vaqueiros⁴. O grande desafio deles é a busca por água, o que faz com que percorram grandes distâncias até onde haja uma fonte para os animais. O vaqueiro é tão importante no cenário da Caatinga, que até possui um dia nacional, 20 de julho, bem como celebrações tradicionais como as vaquejadas, uma forte expressão popular da Caatinga.

Segundo a Carta dos povos Indígenas do Cerrado e da Caatinga⁵, habitam hoje na Caatinga, 45 povos indígenas com uma população em torno de 90 mil habitantes, distribuídos em 36 Terras Indígenas, e que ocupam uma área de quase 140 mil hectares. Dentre elas, as de maior tamanho são: a Terras Indígenas Kambiwá e a Xukuru, em Pernambuco, e Pankararé e Brejo do Burgo, na Bahia, que juntas totalizam aproximadamente 107 mil ha.

Kambiwá é a maior terra indígena no bioma e está localizada no estado de Pernambuco, com pouco mais de 31 mil hectares⁶. Esse povo, assim como muitos outros que habitam os sertões, desde o século XVII, foi expropriado de sua terra para a constituição de fazendas⁷. Com isso, buscaram abrigo nos brejos e na região de Serra Negra. Atualmente, contabilizam uma população de aproximadamente 3 mil indígenas e vivenciam um processo de resgate de sua identidade étnica.

Os indígenas da Caatinga, a exemplo do que também ocorre nos demais biomas, vivem em áreas reduzidas e sofrem intensas pressões que ocasionam graves impactos sociais, culturais e ambientais. Uma lástima, pois cada grupo indígena possui suas características peculiares, riquezas culturais e seus modos de vida em harmonia com a natureza. Na Caatinga estão presentes os Atikum, Fulni-ô, Jenipapo-Kanindé, Jiripancó, Kariri-Xokó, Kantaruré, Kiriri, Kaimbé, Kambiwá, Kapinawá, Pankararé, Pankararu, Pitaguary, Potiguara, Pipipan, Tingui Botó, Tremembé, Tucumanduba, Truká, Tumbalalá, Tuxá, Xakriabá, Xukuru Kariri, Xocó, entre outros muitos povos indígenas, raízes do povo brasileiro.

Embora presentes em maiores quantidades no Cerrado, na Caatinga também há as comunidades de Fundos e Fechos de Pasto. Sua origem no bioma remonta o período colonial, quando no Vale do São Francisco, com os antigos currais de Garcia D’Ávila, no oeste da Bahia, desenvolviam criação de pequenos animais e cultivo de subsistência, podiam caçar, pescar e coletar outros alimentos, principalmente frutos⁸. O modo de vida dessas comunidades está baseado na utilização de áreas de pastoreio comuns para a criação de bovinos, caprinos e/ou ovinos e extrativismo de plantas alimentícias e medicinais.

Há ainda os povos cujos ofícios os denominam. É o caso dos pescadores artesanais, presentes tanto em rios quanto nos açudes da Caatinga, os quais o labor da pesca possui um significado muito maior, envolve laços de identidade, pertencimento, respeito e conhecimento dos espaços em que ocupam. Somente na Bahia são ao menos 130 comunidades de pescadores artesanais, localizadas próximos aos rios do estado, principalmente no São Francisco e no Paraguaçu⁹.

Não exatamente um povo, mas um tipo de caatingueiro que vale destaque quando se pensa no sertão, são aqueles que sabem ver os sinais e prever as chuvas, o chamados “Profetas do sertão”, cada qual com seus conhecimentos, alguns passados ao longo das gerações, ou mesmo fruto de visões e sonhos. Há de se admirar que anualmente, desde 1996, existe o Encontro de Profetas Populares¹⁰, cujo desafio é prever se o ano vai ser de fartura ou de seca.

Cabe, ainda, enaltecer o papel da mulher no contexto da Caatinga. É comum noticiarem as secas com imagens de mulheres carregando grandes bacias ou latas na cabeça. Certamente, por estarem em contato próximo com a água, desempenhando suas atividades produtivas nos quintais e no cotidiano familiar, as mulheres possuem papel fundamental na convivência com o Semiárido.

Historicamente as mulheres passaram (e ainda passam) por muitas condições de desigualdade, subordinadas em relação aos homens nos diferentes espaços, seja nas suas famílias, no trabalho e na política. Pouco a pouco vê-se no contexto da Caatinga esse quadro mudando, com as mulheres unindo-se em coletivos e protagonizando suas lutas para garantir seu direitos, como acesso à água e alimentos, em quantidade e qualidade; acesso à terra; trabalho e renda; educação; saúde11 e outros. Esses coletivos têm desempenhado papel fundamental para a autoestima das mulheres e para geração de trabalho e renda com uso sustentável da Caatinga. São diversas cooperativas e associações de mulheres, clube de mães, entre outros, que desempenham com muito profissionalismo atividades como: plantios de quintais produtivos; beneficiamento de frutos nativos; produção de artesanatos, cosméticos, e muitas outras. O fortalecimento dessas instituições têm propiciado um protagonismo ainda maior dessas mulheres guerreiras, que vêm levando sua voz em diferentes espaços de tomada de decisão, garantindo melhores condições de vida para suas famílias e comunidades.

[fazer o link aqui com o PPP-ECOS, que vem contribuindo pro empoderamento e autonomia das mulheres.]

A Caatinga e seus mistérios,
suas secas, suas plantas e seu povo.
Falta chuva, falta água,
mas chove coragem.
Nesse povo que leva a vida
Do jeito que a vida leva.
Assim como as plantas,
No sertão se adaptou.
E deu frutos, filhos, terras, lutas, histórias
e o suor que a terra molhou.
(Elisa Sette)

Referências:
(1) ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino de; MELO, Felipe P. L.. Socioecologia da Caatinga. Cienc. Cult., São Paulo , v. 70, n. 4, p. 40-44, Out. 2018 . Disponível em <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252018000400012>. Acesso em 31 dez. 2019.
(2) GNADLINGER, João. A busca da água no serão com a vara indicadora um introdução à hidroestesia. Juazeiro, BA: IRPAA, 2001. 33p. Disponível em <irpaa.org/fotos/file/a_busca_da_agua_com_a_vara_indicadora.pdf>. Acesso em 31 dez. 2019.
(3) AINSENCHER, Semira Adler. Lampião (Virgulino Ferreira da Silva). Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em <basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar./index.php?option=com_content&id=320>. Acesso em 31 dez. 2019.
(4) MACHADO, Regina Coeli Vieira. Vaqueiro do Nordeste Brasileiro. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em <basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=132&Itemid=1>. Acesso em 31 dez. 2019.
(5) Carta dos Povos Indígenas do Cerrado e da Caatinga – Desafios para a Gestão Ambiental e Territorial das Terras Indígenas. Fundação Nacional do Índio – Funai. 01. Out. 2018. Disponível em <www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/5058-carta-dos-povos-indigenas-do-Cerrado-e-da-Caatinga-desafios-para-a-gestao-ambiental-e-territorial-das-terras-indigenas>. Acesso em 31 dez. 2019.
(6) MMA. Unidades de conservação e Terras Indígenas do bioma Caatinga. The Nature Conservancy, Ministério do meio Ambiente. Brasília: 2008. Disponível em <www.mma.gov.br/estruturas/203/_arquivos/mapa_das_ucs.pdf>. Acesso em 18 jan. 2020.
(7) FIALHO, Vânia; BARBOSA, Wallace de Deus. Kambiwá. Povos Indígenas no Brasil – portal do Instituto Socioambiental (ISA). Disponível em <pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kambiw%C3%A1>. Acesso em 18 jan. 2020.
(8) Articulação Fundo de Pasto apresenta contribuições das comunidades para preservação da Caatinga. IRPAA Convivência com o Semiárido. 30. Nov. 2011. Disponível em <irpaa.org/noticias/374/articulacao-fundo-de-pasto-apresenta-contribuicoes-das-comunidades-para-preservacao-da-Caatinga>. Acesso em 18 jan. 2020.
(9) RIOS, Kássia Aguiar Norberto Rios. Comunidades tradicionais pesqueiras da Bahia: um histórico de contradições e resistência. XXIII Encontro Nacional de Geografia Agrária. Universidade Federal de Sergipe. São Cristóvão/SE: nov. 2006. Disponível em <geografar.ufba.br/sites/geografar.ufba.br/files/rios_comunidades_tradicionais_pesqueiras_da_bahia_contradicoes_e_resistencia_enga2016_0.pdf>. Acesso em 18 jan. 2020.
(10) MARREIRO, Flávia. Sinas da Natureza – Profetas do sertão miram o horizonte para farejar chuva. Folha de S. Paulo. 18. Jan. 2004. Disponível em <www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1801200406.htm>. Acesso em 18 jan. 2020.
(11) CONTI, Irio Luiz; SCHROEDER, Edni Oscar. Convivência com o Semiárido Brasileiro: Autonomia e Protagonismo Social. Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – FAURGS, REDEgenteSAN, Instituto Ambiental Brasil Sustentável – IABS, Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento – AECID, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome – MDS / Editora IABS, Brasília-DF, Brasil – 2013. Disponível em <www.asabrasil.org.br/images/UserFiles/File/convivenciacomosemiaridobrasileiro.pdf>. Acesso em 31 dez. 2019.