Os povos da Floresta

Pelo mundo afora, uma importante referência que se faz à Amazônia é sua enorme floresta e, além disso, aos indígenas que ali habitam. De fato, o bioma reúne a maior parte dessa população no Brasil, são aproximadamente 200 mil pessoas¹, 420 povos diferentes, 86 línguas e 650 dialetos². São mais de 180 povos indígenas, além de vários grupos isolados³ vivendo no bioma. Ocupam uma área de 108 milhões de hectares, o que representa 21,5% da Amazônia Legal². Para se ter uma ideia da grandiosidade, a terra Yanomami, localizada em Roraima e no Amazonas, possui 25,7 mil indígenas, o que equivale a 5% do total de indígenas no país. As terras indígenas possuem um papel fundamental para garantir a proteção dos direitos e da identidade desses povos, cujos meios de vida possibilitam a manutenção da floresta e de seus recursos há tantas gerações.

No entanto, não são somente povos indígenas que vivem no bioma. Isso foi evidenciado pela luta de Chico Mendes⁴ na década de 80, quando trouxe a atenção da mídia mundial para a questão dos seringueiros, que lutavam contra a derrubada da floresta. O ofício poderia ser como qualquer outro, mas, por depender diretamente da extração da seringa, exigiu dos seringueiros agir com “unhas e dentes” para proteger a floresta e o direito deles de viverem do extrativismo. Essa luta deu origem às primeiras reservas extrativistas do Brasil, em 1990, e se tornou símbolo da possibilidade de se tirar proveitos e recursos da floresta, mantendo-a em pé.

Embora não tão conhecidas como os povos indígenas e seringueiros, há também outras populações tradicionais nos meandros do bioma, como quilombolas, ribeirinhos, pescadores e pescadoras artesanais, agricultores familiares, piaçabeiros, peconheiros, e outros.

Os quilombos, comunidades constituídas por homens e mulheres escravizados, que fugiram na época da escravidão, estão também na Amazônia. No bioma, há particularidades na formação dessas comunidades, pois muitas delas reuniram índios, mestiços e brancos junto aos negros escravizados. Segundo o projeto Nova Cartografia Social Brasileira, foram mapeadas mais de 1.000 comunidades quilombolas na Amazônia Legal, assim distribuídas: 750 no Maranhão, mais de 400 no Pará, quase 100 no Tocantins e dezenas no Amapá, Amazonas e Rondônia¹.

As populações tradicionais de seringueiros, piaçabeiros, pescadores, peconheiros etc., foram assim designados devido ao ofício que desempenham e que, reconhecendo a importância de se organizarem para lutar por seus direitos, vêm buscando fortalecer sua identidade. Por exemplo, os piaçabeiros vivem da extração da fibra da palmeira da piaçava (utilizada na fabricação de vassouras), do tupi “planta fibrosa”, é uma das principais atividades econômicas das populações que habitam o médio e alto Rio Negro e seus afluentes, no Amazonas⁵. Os peconheiros⁶, denominam os extrativistas de açaí, que se arriscam no topo das palmeiras e lutam por regulamentações do trabalho, garantindo melhores condições para exercerem suas atividades.

Importante mencionar os ribeirinhos, um conjunto de populações que, apesar das pressões do mundo, ainda mantêm um estilo de vida tradicional baseado na pesca⁷. É comum noticiar a Amazônia com seus rios entremeados de palafitas de madeira (casas construídas sobre troncos ou pilares para evitar que se alaguem). A pesca é a principal fonte de proteína dessas populações locais, mais importante ainda do que a caça.²

Toda essa diversidade étnica e populacional dialoga com o manejo sustentável para a conservação da biodiversidade. Os povos e comunidades tradicionais da Amazônia encontram na caça, pesca e no extrativismo fonte de alimentação e renda. Além disso, alinham a esse modo de vida conhecimentos tradicionais que contribuem para a conservação do bioma e, assim, para a manutenção dos serviços ecossistêmicos. Essas populações domesticaram diversas espécies frutíferas da região o que reforça o potencial dessa atividade para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

A garantia e proteção dos territórios tradicionais é fundamental para a manutenção das funções ecológicas do bioma e toda sua biodiversidade e para o desenvolvimento justo e sustentável. As práticas dos povos e comunidades possuem tradicionalmente uma lógica de manejo para a sustentabilidade, muitas vezes renegada pela sociedade, mas que vem se mostrando a alternativa mais viável para a sobrevivência da Amazônia.

Referências:
(1) CÂMARA DOS DEPUTADOS. Mais Informações sobre a Amazônia Legal. Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia. Disponível em <www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cindra/amazonia-legal/mais-informacoes-sobre-a-amazonia-legal>. Acesso em 15 abr. 2020.
(2) PNUMA/OTCA. Perspectivas do Meio Ambiente na Amazônia: Geo Amazônia. 2008. Disponível em <www.mma.gov.br/estruturas/PZEE/_arquivos/geoamaznia_28.pdf>. Acesso em 17 dez. 2019.
(3) www.cimi.org.br/pub/publicacoes/Semana-dos-povos-indigenas-2017.pdf
(4) Chico Mendes. Memorial Chico Mendes. Disponível em <www.memorialchicomendes.org/chico-mendes/>. Acesso em 17 dez. 2019.
(5) MORIM, Júlia. Piaçabeiros. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/> Acesso em 17 dez. 2019.
(6) INSTITUTO PEABIRU. “O peconheiro” Diagnóstico das condições de trabalho do extrativista de açaí. Relatório final para o Programa Trabalho Seguro. Belém: 2016. Disponível em <institutopeabiru.files.wordpress.com/2017/09/160915-o-peconheiro-diagnostico-acai.pdf>. Acesso em 17 dez. 2019.
(7) DA-GLORIA, Pedro; PIPERATA, Barbara A.. Modos de vida dos ribeirinhos da Amazônia sob uma abordagem biocultural. Cienc. Cult., São Paulo , v. 71, n. 2, p. 45-51, Abr. 2019. Disponível em <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252019000200014&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 17 dez. 2019.