Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

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Profetas do Tempo: resiliência, bem viver e futuro no sertão da abundância

Saberes ancestrais e inovações sociais constroem um futuro sustentável no interior do Piauí. Terceiro episódio:  O encantamento do Sertão

Enquanto as tecnologias sociais transformam os quintais e o dia a dia dos sertanejos que vivem no bioma exclusivo do Brasil, uma outra revolução silenciosa acontece do lado de fora de suas casas, repactuando a relação humana com a biodiversidade da região. O recaatingamento chegou para honrar essa terra e seu potencial de resiliência e renovação.

Sob a sombra das árvores, o quintal tem água fresca e uma plantação de palma forrageirautilizada na alimentação dos animais. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
Sob a sombra das árvores, o quintal tem água fresca e uma plantação de palma forrageira utilizada na alimentação dos animais. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Uma nova metodologia de convivência com o Semiárido vem despontando em vários trechos da Caatinga, promovendo a recuperação de áreas degradadas com a participação ativa das comunidades. Projetos de sucesso vem sendo desenvolvidos no sertão da Bahia e Pernambuco, e no Piauí ele brotou sobretudo pelas mãos dos jovens, depois de um grande choque vivenciado na época da pandemia do covid-19. Na Comunidade Tapera dos Vital, localizada numa área remota a 48km da área urbana de Pedro II, ocorreu o maior incêndio já registrado numa mata nativa na região norte do Piauí, e devastou mais de 6 mil hectares, transformando em cinzas árvores centenárias e matando os animais que não conseguiram fugir, como pequenos veados e tatus.

O Profeta da Chuva Francisco Vital costuma prever a direção das chuvas observando, entre outros sinais, a orientação da porta de entrada da casa de Maria do Barro, um saber que combina observação da natureza e memória do território. Ele conta que os dois assentamentos da região são fruto da desapropriação de um grande latifúndio, cuja sede abandonada virou uma tapera no meio do sertão, daí o nome da comunidade. A região foi habitada por povos indígenas e marcada pelo trabalho escravo e perseguições de capitães do mato, um passado que o fogo também queimou, abrindo espaço para a nova história que desde 2001 as associações comunitárias vem escrevendo por meio de parcerias com o Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN), o Centro de Formação Mandacaru (CFM), e outras entidades regionais e internacionais.

Na área do recaatingamento, o Profeta da Chuva Genivaldo Ribeiro transfere seus conhecimentos para Ana Clarisse e outros jovens da comunidade. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
Na área do recaatingamento, o Profeta da Chuva Genivaldo Ribeiro transfere seus conhecimentos para Ana Clarisse e outros jovens da comunidade. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

O grande incêndio de 2020 durou vários dias, as fagulhas foram avistadas de longe e a fumaça afetou várias cidades da região, trazendo o apoio das Brigadas de Incêndio de Poranga e Crateus,  cidades vizinhas da comunidade, no lado do Ceará. Os bombeiros de Crateus também ofereceram um curso que foi muito útil dois anos atrás, quando tiveram um novo foco de incêndio mas conseguiram conter, graças a essa capacitação. Curiosamente, a prefeita atual dessa cidade, Janaína Farias, quando senadora foi a autora do projeto de Lei recém aprovado pelo Congresso Nacional que institui a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga. A nova lei foi promulgada pela presidência da República em junho, com o lançamento do Programa Recaatingar, um edital público no valor de R$ 60 milhões, cuja meta é restaurar 10 milhões de hectares da floresta nos próximos 20 anos.

Os jovens de Tapera dos Vital já estão se organizando para participar, e se depender de mobilização, eles já mostraram que não brincam em serviço. Logo depois do incêndio lançaram o Projeto Renascer e fizeram um grande plantio de três mil mudas, onde conseguiram o apoio de instituições como o Centro Regional de Assessoria e Capacitação (CERAC), o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) e a Escola Família Agrícola Santa Ângela (EFASA), que mobiliza seus alunos em torno de projetos focados em sustentabilidade e educação do campo por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), e doou mudas de plantas nativas produzidas dentro do colégio.

Aline Rodrigues foi presidenta da associação comunitária e seu primo Lucas Monteiro é o mais jovem profeta da chuva da comunidade. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
Aline Rodrigues foi presidenta da associação comunitária e seu primo Lucas Monteiro é o mais jovem profeta da chuva da comunidade. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Nos últimos anos os jovens também estão começando a ocupar cargos de responsabilidade dentro da comunidade. Aline Rodrigues dos Santos foi presidenta da Associação Nova Terra por quatro anos, o que a levou para encontros importantes como a Marcha das Margaridas, em Brasília. Ela conta que o projeto de reflorestamento se tornou um momento de união, a turma se reúne semanalmente para o monitoramento de uma área de pesquisa de 5 hectares, onde foram plantadas as árvores catingueira, gameleira, pau d’arco, conhecido popularmente como o Ipê branco e o Ipê rosa, e também o Marmeleiro, a Mocó, que tem o mesmo nome de um roedor endêmico da caatinga parecido com a preá, o Jatobá, Angico, Jucá, quando estiver semeando, as favas podem ser usadas em garrafadas de cura, o frondoso Jacarandá, a Catanduva e a Sabiá, cujos galhos são muito utilizados nas cercas dos quintais, entre outras árvores que fazem parte da convivência humana há muito tempo. O trabalho voluntário recebe ajuda de custo da associação italiana Modena Terzo Mondo dentro de um projeto de adoção de árvores onde “cada pezinho de pau”, como se diz no sertão, recebe o nome do doador, para acompanhar de longe o seu progresso de crescimento.

Ao conversar com Aline, percebemos que o projeto Renascer não serve apenas para reflorestar a Caatinga, mas também para florescer nos jovens uma maior relação com a terra, numa espécie de estágio para a formação de novos profetas e profetizas da chuva. Atualmente eles contam com uma estufa para as mudas de palma forrageira, em parceria com o governo do estado, para produzir alimento aos animais no período da seca.

“Com a conexão que a gente tem quando planta uma árvore, a gente foi aprendendo o tempo certo de plantar, o tempo certo de colher as sementes no mato. Então através desse projeto teve um grande resgate das nossas ancestralidades, como meu tio gosta de falar, a gente é a continuidade do que elesforam.”

O tio dela é Genivaldo Ribeiro, líder comunitário e Profeta da Chuva como seu irmão Francisco Vital. Ambos aprenderam a observar a natureza com o pai, que foi homenageado com a criação do Parque de Vaquejada Emanoel Vital, inaugurado no final de julho. Eles agora aproveitam a oportunidade do recaatingamento para repassar os conhecimentos para os jovens, que estão se tornando bons observadores também:

“Muito lindo ver aquela situação de 2020 pra agora, ver que tudo já tá começando a seguir um ciclo. Os animais estão voltando, até as chuvas estão voltando a ficar um pouco mais reguladas.”  

O projeto "Adotta un Albero" (adote uma árvore) possibilitou o mapeamento da área reflorestada, facilitando o seu monitoramento. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
O projeto “Adotta un Albero” (adote uma árvore) possibilitou o mapeamento da área reflorestada, facilitando o seu monitoramento. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Essa transmissão de conhecimento no sertão da abundância também acontece na relação com a palmeira mais famosa do Piauí, a carnaúba, oficialmente declarada árvore símbolo do estado. Conhecida como a “Árvore da Vida”, termo popularizado pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt no século XIX, impressionado com sua capacidade de suprir praticamente todas as necessidades de uma comunidade, mesmo nas secas mais severas. Carnaúba em tupi significa “árvore que arranha”, por conta da camada de espinhos que cobre a parte inferior de seu caule, os seus frutos são usados para alimentar rebanhos, produzir farinha e até substituir o pó de café. As suas folhas são levemente azuladas devido uma camada de cera que evita a perda de água no clima quente, e tornou a carnaúba um produto de valor global, considerada a cera vegetal mais dura do mundo, usada em batons, lápis de cor, cápsulas de remédios, enceramento de carros, vernizes, plásticos, e até na produção de discos de vinil. Para além da indústria, a carnaúba também atravessa a cultura regional e suas fibras servem para cobrir telhados e podem ser tecidas como chapéus, esteiras e bolsas, uma tradição repassada de mãe para filha, como acontece com Dona Maria Isolete dos Santos e sua filha Ana Cristina dos Santos Pereira, na comunidade Coitadas, a 13 km do centro de Pedro II.

O chapéu de palha é produzido pelas mulheres da Comunidade Coitadas, em Pedro II, há muitas gerações. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
O chapéu de palha é produzido pelas mulheres da Comunidade Coitadas, em Pedro II, há muitas gerações. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Pelas estradas de terra da comunidade Tapera dos Vital, entre carnaúbas esparsas, uma carreata segue em homenagem a Nossa Senhora das Dores, uma expressão contemporânea de uma tradição que celebra o “fim d’água” e agradece pela colheita, como descreve a antropóloga Adeodata Dos Anjos, assessora de cursos populares no Centro Mandacaru e autora da tese de mestrado “O Mito da Chuva como Elemento de Identidade”. Sua pesquisa revela que, apesar de a seca ser um fenômeno natural, ela passou a ser tratada como catástrofe no decorrer da colonização da região e da posse da terra pelos colonizadores. “Os profetas-poetas, diante das incertezas da vida e do descaso político, buscaram respostas nos mistérios naturais”, escreve a pesquisadora, concluindo que a leitura dos sinais do céu e da terra é fundamental para a resistência e bravura sertaneja, cuja capacidade de “ruminar” suas experiências os torna os únicos detentores das razões de seus saberes míticos.

No céu do sertão, próximo à constelação do Cruzeiro do Sul aparecem duas manchas, uma à direita e a outra à esquerda. Quando essas duas manchas aparecem, pode-se esperar que o inverno (a temporada das chuvas) vai ser bom. Quando tem só uma é porque a outra foi buscar o inverno. Agora, quando não tem nenhuma das manchas é porque é um ano de seca. A profetiza da chuva Dona Joaninha Clemente, que viveu na Tapera dos Vital até seus últimos dias nessa terra, era presença marcante na novena de Nossa Senhora. Ela gostava de contar que no tempo de seca, seu pai arrancava Macambira, uma bromélia cheia de espinhos, típica da Caatinga, com uma raiz muito nutritiva, para fazer um cuscuz chamado de “comida brava”. Alguns tinham vergonha de comer, mas fazia muito bem para a saúde, hoje podemos considerá-la uma PANC – Planta Alimentícia Não Convencional. Dona Joaninha sempre ajudava a organizar os festejos e comemorações da comunidade e trazia o seu conhecimento para os encontros dos Profetas da Chuva:

As duas manchas no pé do Cruzeiro do Sul representam o sangue que Cristo derramou na cruz. É por isso que elas estão relacionadas com a chuva: o sangue é água e sendo água se transforma em nuvem, depois em chuva que cai para alegrar a gente, os bichinhos e todos os seres vivos.

 

O festejo de Nossa Senhora das Dores dura uma novena, com procissão no primeiro e último dia até a igreja, missa, leilão, bingo, muita comida e esse ano terá pega de boi para inaugurar o novo Parque de Vaquejada Emanoel Vital. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
O festejo de Nossa Senhora das Dores dura uma novena, com procissão no primeiro e último dia até a igreja, missa, leilão, bingo, muita comida e esse ano teve pega de boi para a inauguração do novo Parque de Vaquejada Emanoel Vital. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Do alto do mirante da Serra das Andorinhas, acessado pelas trilhas ecológicas da Comunidade Lagoa do Mato, visitada nos outros episódios dessa série de reportagem, a paisagem se revela em sua imensidão. As formações rochosas erodidas, chamadas de “tuncas” pelos guias locais, parecem gigantes petrificados, guardiões silenciosos de um tempo passageiro. Lá embaixo, o sertão se estende quase infinito, com suas veredas, suas comunidades, e seus Profetas. É o mesmo horizonte que os ancestrais contemplaram há milhares de anos, antes de marcar na pedra os sinais que ainda hoje se lêem. O cacto mandacaru nos lembra que a vida persiste até mesmo nos lugares mais expostos ao sol latente. Diante do sertão da abundância, os ciclos da natureza se materializam não com um ponto final, mas como um convite para quem quiser chegar e aprender a ler os sinais do tempo.

Os Profetas do Tempo avistam a borda da Caatinga do mirante no alto da barreira geológica da Serra Grande. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Os Profetas do Tempo avistam a borda da Caatinga do mirante no alto da barreira geológica da Serra Grande. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

>> Clique aqui para ver o primeiro episódio da série: “A cultura cria raízes”

>> E aqui para ver o segundo: “A revolução agroecológica”

Autoria: Paula Cinquetti

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