Pesquisadores e ativistas debatem sobre a importância do Cerrado no Dia Mundial da Água, no Eixão do Lazer, em Brasília. . Foto: Ariel Rocha/Acervo ISPN

Pesquisadores e ativistas debatem sobre a importância do Cerrado no Dia Mundial da Água, no Eixão do Lazer, em Brasília. . Foto: Ariel Rocha/Acervo ISPN

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Serrinha do Paranoá e a luta pela água do Cerrado são temas de roda de conversa em Brasília

O encontro teve objetivo de ampliar o debate público sobre a importância de proteger o bioma, que já perdeu 50% da vegetação nativa

A Serrinha do Paranoá, no Distrito Federal, virou alvo de interesses que expõem a pressão sobre a região. Há algumas semanas, o local entrou na mira do Governo do Distrito Federal, que cogitou seu uso para capitalizar o Banco de Brasília (BRB), envolvido no caso de corrupção com o Banco Master. A área está listada entre nove imóveis públicos que podem ser destinados para cobrir os prejuízos causados pelos negócios com o banco privado.

O local, que fica situado entre o Varjão e o Paranoá, e abriga 119 nascentes e importantes remanescentes de Cerrado nativo, é considerado um manancial hídrico estratégico para o DF. Foi justamente esse cenário que reuniu pesquisadores e ativistas no Eixão do Lazer, em Brasília, no último domingo (22), Dia Mundial da Água. O evento integrou a campanha Cerrado, Coração das Águas e chamou a atenção para a importância do bioma na segurança hídrica do país.

Para a Presidente da Associação Preserva Serrinha, Lucia Mendes, a resposta começa pelo reconhecimento. “A maioria da população de Brasília nunca tinha ouvido falar da Serrinha do Paranoá. Para nós que somos moradores, ativistas que fazemos parte de uma comunidade organizada e que vêm há anos buscando conhecimento sobre aquele território, entendemos quando o território está ameaçado. Mas como você vai defender o que você não conhece?”, questionou.

A urgência de proteger a Serrinha do Paranoá, no Distrito Federal, esteve no centro do debate. Foto: Ariel Rocha/Acervo ISPN

Cerrado: o protagonista esquecido

A ameaça à Serrinha não é um caso isolado, o Cerrado como um todo segue sob intensa pressão, impulsionada pela expansão agropecuária e fragilidade da legislação ambiental. O pesquisador e diretor do Instituto Cerrados, Yuri Salmona, destacou na conversa que o papel do bioma é central e ainda assim é subestimado.

“O protagonista no provimento de água do Brasil é o bioma Cerrado. Isso é um fato científico, não é uma opinião. Oito das 12 bacias hidrográficas do Brasil são abastecidas com água que vem do Cerrado”, afirma.

Mesmo assim, o bioma segue sendo o mais desmatado do país pelo segundo ano consecutivo, superando a Amazônia. “Daqui a alguns anos todo mundo vai falar de boca cheia da importância de proteger o Cerrado. A questão é se vai dar tempo. Essa é uma pergunta que nos preocupa muito. Por quê essa pergunta é muito pertinente? Porque 50% do Cerrado, já foi desmatado”, explica.

A professora Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da UnB, explicou o mecanismo que torna o Cerrado vital. Segundo ela, as raízes profundas da vegetação permitem acessar água mesmo durante a estação seca.

“Durante o auge da estação seca, o primeiro metro de solo do Cerrado está completamente seco. A vegetação do Cerrado, ela é tão resiliente, que começa a colocar as folhas novas antes do período chuvoso”, explica. “E o que isso significa? Que o Cerrado começa a retornar umidade para a atmosfera antes da chuva começar. Isso faz com que as massas úmidas que venham do norte do Brasil, consigam se transformar em chuva aqui”.

A mobilização contou com oficina de lambe-lambe (colagem de cartazes com a marca da campanha) aberta ao público. Foto: Ariel Rocha/Acervo ISPN

Quem protege

A coordenadora do Programa Cerrado do ISPN, Isabel Figueiredo, destacou a importância dos povos e comunidades tradicionais para a proteção do bioma. E citou grupos que mantêm uma conexão com o Cerrado, como as quebradeiras de coco babaçu , fecheiros de pasto, apanhadoras de sempre-vivas, raizeiros e os retireiros do Araguaia.

“Eles estão lá há muitas e muitas gerações, algumas até anteriores ao próprio estabelecimento do estado, e têm um papel muito importante na conservação do Cerrado, porque elas conseguem ter um modo de vida que permite que o Cerrado esteja lá”, explica. “É uma interação com a paisagem que permite que as águas fluam, que o carbono esteja láarmazenado, que a fauna possa permear e caminhar pelas áreas”, finaliza.

Cerrado, Coração das Águas

A roda de conversa no Dia Mundial da Água foi uma iniciativa da campanha Cerrado, Coração das Águas, que reúne ISPN, Instituto Cerrados, Rede Cerrado, Funatura, IPAM, IEB e WWF-Brasil. A proposta é comunicar, de forma acessível e mobilizadora, a centralidade do bioma para o equilíbrio hídrico do país.

Ao destacar o Cerrado como um “coração” que pulsa e distribui água para diferentes regiões, a campanha busca sensibilizar a sociedade sobre a urgência de proteger suas nascentes, rios e territórios.

Autoria: Luana Piotto / Assessoria de Comunicação do ISPN

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