Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Compartilhe

Profetas do tempo: sabedoria, sinais e futuro no sertão da abundância

Saberes ancestrais e inovações sociais constroem um futuro sustentável no interior do Piauí. Primeiro episódio: A cultura cria raízes
O guia Antonio José Rodrigues e seu neto Davi, que quer se tornar arqueólogo, na entrada da gruta no topo da Serra das Andorinhas, ponto final da recém-criada Trilha Ecológica da Comunidade Lagoa do Mato, em Milton Brandão. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
O guia Antonio José Rodrigues e seu neto Davi, que quer se tornar arqueólogo, na entrada da gruta no topo da Serra das Andorinhas, ponto final da recém-criada Trilha Ecológica da Comunidade Lagoa do Mato, em Milton Brandão. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Na beirada da Caatinga, no extremo norte do Nordeste brasileiro, o passado se faz presente em pinturas rupestres milenares e na sabedoria passada de pai para filho, de observar os ciclos da natureza para anunciar a chegada das chuvas. Desde os sinais deixados nas pedras pelos primeiros habitantes da América Latina, às previsões certeiras dos Profetas da Chuva, as comunidades do interior do Piauí escrevem seu próprio tempo, e hoje mesclam conhecimento ancestral e tecnologias sociais para prosperar no semiárido. Esta é a história de um Brasil profundo que, em vez de somente esperar pela chuva, aprendeu a plantar o seu amanhã.

Pintura pré-histórica com figuras zoomórficas e antropomórficas. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
Pintura pré-histórica com figuras zoomórficas e antropomórficas. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

A paisagem do Alto Rio Poti faz parte de uma região única, onde o tempo é ditado pelas águas. As chuvas iniciam em meados de janeiro e duram de três a quatro meses, e este ano se estenderam especialmente até maio. A biodiversidade ocorre em meio a grandes formações rochosas, baixadas sazonalmente úmidas e a transição com a Zona dos Cocais, com a rica presença das palmeiras carnaúba e babaçu. O rio Poti rompe a barreira natural da Serra da Ibiapaba para chegar na região, num trecho marcado por litígio territorial entre o Ceará e o Piauí, revelando uma intersecção da Caatinga com o Cerrado e fragmentos de Mata Atlântica, os chamados brejos de altitude.

O Profeta da Chuva José Inácio da Silva vive na Comunidade Cachoeira Grande, na cidade de Poranga, no Ceará, e cruza a divisa para visitar os profetas da Comunidade Tapera dos Vital, em Pedro II, no Piauí. Juntos, eles elaboram previsões climáticas pela observação minuciosa do ecossistema, como o comportamento dos pássaros, sapos, formigas, preás, e outros animais, além  dos mais singelos sinais da natureza presentes na rota dos ventos, nas estrelas e fases da lua, criando uma cosmografia geográfica rica em simbologias.

Nesta terra de ciclos de vida extremos, a série de reportagem Profetas do Tempo nasce de uma imersão documental encomendada pelo Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN) com apoio do Fundo Global para Meio Ambiente (GEF), para criação de um banco de imagens sobre a Caatinga. Mas as histórias fotografadas mostram muito mais do que o bioma exclusivamente brasileiro, mostram uma realidade viva e palpável, percebida na fartura tecida por sua gente e uma relação profunda com a terra, um testemunho de adaptação e da reincidência cultural de práticas que sustentam a própria vida.

Sob a sombra da árvore fava-de-bolota, a vista do mirante Pedra da Mesa, na Comunidade Salobro, mostra a Caatinga ainda verde no início da seca. Na beira do penhasco vê-se a palma forrageira em flor, o mandacaru e o xique-xique. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
Sob a sombra da árvore fava-de-bolota, a vista do mirante Pedra da Mesa, na Comunidade Salobro, mostra a Caatinga ainda verde no início da seca. Na beira do penhasco vê-se a palma forrageira em flor, o mandacaru e o xique-xique. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Entre elas, a cultura da mandioca se destaca como um saber transmitido há gerações. Ao amanhecer, na comunidade Palmeira dos Ferreira, em Pedro II, esse conhecimento se torna concreto pelas mãos de Gonzaga Ferreira e seu sobrinho Lázaro, que colabora em tarefas leves durante a colheita, limpando a terra das raízes arrancadas do solo. É o início do grande dia da farinhada: um ritual coletivo que se desenrola em várias etapas até o anoitecer, transformando a mandioca brava em farinha e goma de tapioca (fécula), e envolvendo diversas famílias da comunidade. 

Neste dia o trabalho envolveu cerca de vinte pessoas distribuídas nas atividades de arranquio, transporte, descascamento, trituração, lavagem da massa, prensagem, torragem, peneiração e armazenamento. Em um único dia foram produzidos 350kg de farinha e 200 kg de goma, para consumo do ano todo! Um dia de celebração de um modo de vida organizado em torno do trabalho comunitário e da transmissão de uma identidade sertaneja.

A colheita da mandioca é o primeiro ato do grande dia da farinhada, um ritual coletivo que sustenta comunidades e preserva a cultura do Nordeste brasileiro. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
A colheita da mandioca é o primeiro ato do grande dia da farinhada, um ritual coletivo que sustenta comunidades e preserva a cultura do Nordeste brasileiro. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Dona Ana Lúcia, esposa do Sr. Gonzaga, conta que parte da produção é distribuída aos trabalhadores da farinhada como forma de pagamento pelo serviço, outra parte é enviada para os filhos em São Paulo e o restante é armazenado em sacos bem costurados.

Comecei a trabalhar em farinhada eu tinha 11 anos, em farinhada das outras pessoas. Me casei nova e todo ano meu esposo tinha farinhada duas vezes por ano, no verão e no inverno. Uma farinhada é a coisa mais sagrada que você pode ter numa casa. Em tudo que você vai comer tem farinha, a gente pode fazer uma puba, dar mingau à uma criança, a um velhinho que está acamado, não tem alimento melhor do que a puba. E também tem a ração pros bichos, a casca, a madeira, a capoeira. Uma roça de mandioca é uma riqueza pra nós. Eu não sei nem descrever o tanto que uma farinhada beneficia o ser humano do campo.” 

Dona Raquel (esq.) e Comadre Raimunda junto com outras mulheres e meninas da comunidade descascaram 18 cargas de mandioca (uma carga equivale a dois jacar de carregar no jumento ou cerca de cinco caixas de engradado). Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
Dona Raquel (esq.) e Comadre Raimunda junto com outras mulheres e meninas da comunidade descascaram 18 cargas de mandioca (uma carga equivale a dois jacar de carregar no jumento ou cerca de cinco caixas de engradado). Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

O ISPN, com o intermédio do Centro de Formação Mandacaru (CFM), que atua há 35 anos na região promovendo o acesso à terra e à água, técnicas sustentáveis na agricultura familiar, segurança alimentar, educação contextualizada e espiritualidade popular, apoia diretamente a construção de Casas de Farinha coletivas bem equipadas. O espaço também pode ser utilizado como cozinha comunitária, para fazer bolos e biscoitos para comercialização. A comunidade vai inaugurar a nova Casa de Farinha na próxima temporada de farinhada, entre agosto e setembro deste ano. “Todo morador ou vizinho que plantar mandioca vai poder usar, vai ser o mês todo de farinhada, se Deus quiser!”, frisou Dona Ana.

Nos próximos episódios desta série de reportagem vamos conhecer as tecnologias sociais que estão revolucionando a vida no sertão do Piauí a partir da descentralização das estruturas de abastecimento de água, a permanência dos jovens no campo e sua conexão com a sabedoria dos Profetas da Chuva, além da relação dos ciclos da natureza com este trecho peculiar da Caatinga, onde a espiritualidade fortalece a identidade sertaneja e a convivência com a região.

Em meio a farinhada na comunidade Palmeira dos Ferreira, Dona Ana Lúcia aproveita para mostrar o quintal agroecológico que atende a feira semanal em Pedro II, tema da segunda parte da reportagem sobre o sertão do Piauí. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN
Em meio a farinhada na comunidade Palmeira dos Ferreira, Dona Ana Lúcia aproveita para mostrar o quintal agroecológico que atende a feira semanal em Pedro II, tema da segunda parte da reportagem sobre o sertão do Piauí. Foto: Paula Cinquetti/ Acervo ISPN

Autoria: Paula Cinquetti

Compartilhe
Acesse nossas publicações, vídeos e podcast