Liderança do Grupo de Mulheres Indígenas, Janaína Caragiu, Aldeia Novo Cento, na Terra Indígena Pindaré. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Liderança do Grupo de Mulheres Indígenas, Janaína Caragiu, Aldeia Novo Cento, na Terra Indígena Pindaré. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Liderança do Grupo de Mulheres Indígenas, Janaína Caragiu, Aldeia Novo Cento, na Terra Indígena Pindaré. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Liderança do Grupo de Mulheres Indígenas, Janaína Caragiu, Aldeia Novo Cento, na Terra Indígena Pindaré. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

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Produção agroecológica fortalece autonomia das famílias na Terra Indígena Pindaré

Iniciativas apoiadas pelo ISPN promovem produção de alimentos, organização comunitária e protagonismo das mulheres Guajajara, valorizando práticas agroecológicas e o cuidado com o território

Na Terra Indígena Pindaré, no Maranhão, produzir alimentos também significa fortalecer a autonomia das famílias e reafirmar a relação dos povos indígenas com o território. Em dez aldeias do povo Guajajara (Tabocal, Januária, Areião, Areinha, Aldeia Nova, Novo Planeta, Novo Cento, Alto Angelim, Piçarra Preta e Guarimã), 270 famílias são atendidas por iniciativas de etnodesenvolvimento que articulam produção, geração de renda, organização comunitária com base nos princípios agroecológicos.

As iniciativas apresentadas integram as medidas de mitigação dos impactos decorrentes da instalação e da operação da Estrada de Ferro Carajás – componente indígena, operada pela Vale/SA na Terra Indígena Rio Pindaré, implementado pelo Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN). A atuação dos técnicos do ISPN vêm apoiando o intercâmbio de conhecimentos e valorizando saberes e práticas já existentes nas comunidades.

Entre os trabalhos desenvolvidos está a criação de aves, que tem contribuído para ampliar as possibilidades de segurança alimentar e geração de renda das famílias. Os produtores recebem materiais para a construção e estruturação dos galinheiros, como telas, comedouros, lâmpadas, arames para cercas e lonas. As estruturas seguem, em geral, um padrão de 22 a 25 metros quadrados, podendo chegar a 30 metros quadrados. O ciclo de criação dura aproximadamente 90 dias, período em que as aves podem alcançar cerca de 2,5 quilos.

Área de plantio diversificado na Aldeia Piçarra Preta, na Terra Indígena Pindaré no município de Bom Jardim (MA). Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN
Área de plantio diversificado na Aldeia Piçarra Preta, na Terra Indígena Pindaré no município de Bom Jardim (MA). Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Para Fernanda Santos, de 34 anos, moradora da aldeia Areinha, a atividade representa uma oportunidade de construir uma nova fonte de renda para a família. Casada com um indígena da comunidade e mãe de três filhos, ela vive há 15 anos na aldeia, onde vem resgatando sua ancestralidade familiar indígena.

Com o recebimento dos materiais para estruturar o galinheiro, Fernanda se prepara para iniciar a criação. “Vou começar com as 25 aves que o projeto prevê, mas estou muito encorajada para fazer essa produção crescer”, avalia.

A expectativa de ampliar a produção e comercializar os alimentos também está presente na fala de seu Domingos Guajajara. Para ele, a criação de aves deve caminhar junto com o cultivo de diferentes espécies e com a busca por novos mercados. “A gente tem o que oferecer. Tem produzido muita ave e peixe de boa qualidade”, destaca.

O acesso aos mercados, no entanto, ainda é um desafio. “A gente trabalha, tem que criar e comercializar. Plantamos mandioca, macaxeira, feijão e tudo de horta. Da abóbora ao inhame. É bom ter um lugar para vender o que a gente produz. Continuar criando as aves e plantando para comer e vender a produção”, afirma.

Visita dos técnicos do ISPN, Celso Barros e Kaline Oliveira, na Aldeia Areinha, na Terra Indígena Pindaré.Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN
Visita dos técnicos do ISPN, Celso Barros e Kaline Oliveira, na Aldeia Areinha, na Terra Indígena Pindaré.Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Mulheres que produzem, organizam e constroem autonomia

Na aldeia Novo Cento, a produção está diretamente ligada à organização das mulheres. Desmembrada da aldeia Novo Planeta em 2024, a comunidade reúne atualmente 14 famílias e tem nas mulheres uma de suas principais forças de mobilização.

No cotidiano da aldeia, elas participam da organização das atividades produtivas, do cuidado com os bens culturais e da produção de alimentos. As hortas comunitárias são um dos espaços em que esse protagonismo se torna mais visível.

A experiência da aldeia também revela como a produção pode ser um instrumento de fortalecimento da autonomia das mulheres. Janaína Caragiu, uma das lideranças da comunidade, atua na organização das mulheres e na articulação de diferentes pautas, como o enfrentamento à violência de gênero, o combate à discriminação, o reflorestamento, o artesanato e a produção agrícola.

“Hoje nós somos mulheres de luta, porque antes era impossível participar de uma reunião como liderança e hoje isso é possível. Hoje nos sentimos muito fortalecidas quando somos chamadas de guerreiras”, relata.

Segundo Janaína Caragiu, a organização das mulheres também se fortalece por meio da troca entre diferentes comunidades da Terra Indígena Pindaré. Ela integra o grupo de mulheres da TI e destaca a importância do acompanhamento da equipe no processo.

“É muito válido e importante esse contato. Nós agarramos com muita dedicação. Está sendo muito satisfatório porque somos nós, mulheres, a maior força da nossa horta”, afirma.

Dona Raimunda Protásio, produtora de aves na Aldeia Tabocal. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN
Dona Raimunda Protásio, produtora de aves na Aldeia Tabocal. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Na comunidade, a organização também se traduz em práticas coletivas. As mulheres definem os dias de trabalho e se revezam nos cuidados com a horta, fortalecendo a responsabilidade compartilhada pela produção.

Na Aldeia Tabocal, dona Raimunda Protásio, de 58 anos, vai aumentando sua produção de aves. Antes, segundo ela, o trabalho era realizado de forma mais individual e a produção era somente para o consumo das próprias famílias.

“Antes desse apoio, cada um fazia por si. Só dava para fazer a comida para comer mesmo. Agora a gente já tem o sonho de vender para fora e fazer nossa renda. Eu vendi boa parte da nossa produção”, conta.

Produção de aves de dona Raimunda Protásio, Aldeia Tabocal. Foto: Cristiane Moraes.Acervo/ISPN
Produção de aves de dona Raimunda Protásio, Aldeia Tabocal. Foto: Cristiane Moraes.Acervo/ISPN

Agroecologia: saberes ancestrais que cuidam da terra

Troca de saberes entre indígenas e técnicos do ISPN na Aldeia Piçarra Preta. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN
Troca de saberes entre indígenas e técnicos do ISPN na Aldeia Piçarra Preta. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Mais do que um conjunto de técnicas de produção, a agroecologia valoriza conhecimentos tradicionais e formas de relação com a terra construídas ao longo de gerações por povos indígenas e comunidades tradicionais. Nessa perspectiva, o solo é compreendido como um organismo vivo, que precisa ser cuidado e protegido para continuar produzindo.

Práticas como o uso de adubos naturais, a cobertura do solo, o cultivo diversificado e o consórcio entre diferentes espécies contribuem para recuperar a fertilidade da terra, conservar a biodiversidade e reduzir a dependência de insumos químicos. O não uso de agrotóxicos também representa uma escolha pelo cuidado com a saúde das pessoas e com o território.

Na Terra Indígena Pindaré, esses princípios se traduzem em experiências concretas. O cultivo de diferentes espécies em uma mesma área, o uso da mucuna-preta para proteger e enriquecer o solo e a valorização das áreas de pousio são exemplos de práticas que dialogam com os conhecimentos ancestrais e com os princípios da agroecologia.

Assim, resgatar a ancestralidade não significa apenas olhar para o passado, mas reconhecer conhecimentos que permanecem atuais e podem contribuir para construir formas de produção mais saudáveis, diversificadas e em equilíbrio com a natureza.

Agroecologia como cuidado com a terra

A produção de milho plantado com adubo natural na Aldeia Piçarra Preta ganha maior tamanho e qualidade. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
A produção de milho plantado com adubo natural na Aldeia Piçarra Preta ganha maior tamanho e qualidade. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

O trabalho desenvolvido nas aldeias também busca fortalecer conhecimentos e práticas agroecológicas, valorizando formas de produção que preservam o solo, a biodiversidade e as áreas de vegetação nativa.

Na aldeia Piçarra Preta, uma das experiências envolve o cultivo da mucuna-preta, uma espécie de leguminosa utilizada para melhorar as condições do solo. A planta contribui para a fixação de nitrogênio e, ao mesmo tempo, forma uma cobertura de matéria orgânica que protege a terra e favorece a manutenção de sua vida e fertilidade.

Nas áreas de pousio, a mucuna é deixada sobre o solo, onde continua contribuindo para sua recuperação e preparação para o próximo plantio. 

“A prática integra uma perspectiva de manejo que busca cuidar da terra em vez de apenas retirar dela os nutrientes necessários para a produção. Ela produz uma camada de matéria orgânica contribuindo para manutenção da umidade do solo, aumentando a dinâmica biológica e disponibilidade de nutrientes essenciais para os cultivos”, explica o analista socioambiental do ISPN, Tainan Pereira.

O trabalho também incentiva o policultivo e os sistemas de produção diversificados. Quiabo, melancia, mandioca, feijão, fava, maxixe e batata-doce podem ser cultivados de forma consorciada, ampliando a diversidade dos alimentos produzidos e fortalecendo uma agricultura baseada nos princípios da agroecologia.

“A gente incentiva o policultivo. O consórcio com maior diversidade produtiva será melhor para eles, favorecendo um processo mais diverso e pautado na agroecologia”, detalha Tainan.

Para o analista socioambiental do ISPN, Celso Barros, a proposta também está relacionada ao resgate de conhecimentos tradicionais que, ao longo do tempo, foram sendo deixados de lado diante da influência de outros modelos agrícolas.

“Nosso trabalho busca fortalecer, junto às comunidades, as práticas ancestrais de cultivo e os conhecimentos transmitidos entre gerações. Ao articular esses saberes aos princípios da agroecologia, contribuímos para uma produção que respeita os modos de vida indígenas, favorece a conservação do solo e apoia a recuperação da vegetação e da biodiversidade nas áreas em processo de restauração do território”, enfatiza.

Produzir sem agrotóxicos e fortalecer a autonomia

João de Jesus no cuidado com o milharal da Aldeia Piçarra Preta, Terra Indígena Pindaré, município de Bom Jardim. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN
João de Jesus no cuidado com o milharal da Aldeia Piçarra Preta, Terra Indígena Pindaré, município de Bom Jardim. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Na aldeia Piçarra Preta, o agricultor José de Jesus destaca a escolha por formas naturais de manejo e os impactos dessa mudança para as famílias e para o território.

“Trabalhar com o veneno prejudica até a saúde da pessoa que está trabalhando com ele. Assim, naturalmente, a gente vai aprendendo a técnica mais natural”, afirma.

O manejo sem o uso de agrotóxicos vem acompanhado de outras práticas de cuidado com o solo. “A gente não desmata mais e deixa ela só adubada”, declara José, referindo-se à terra e às práticas utilizadas para manter sua fertilidade.

A produção também começa a abrir caminhos para a comercialização. Parte dos alimentos produzidos na comunidade já chega à merenda escolar e às compras realizadas por prefeituras, através dos mercados institucionais como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Macaxeira, milho, pepino, farinha e mamão estão entre os produtos comercializados .

“A gente tanto consome como comercializa. A produção é bem maior nos últimos três anos com as práticas naturais de cuidar da terra”, conta José de Jesus.

Mais do que ampliar a quantidade de alimentos produzidos, as experiências desenvolvidas nas aldeias apontam para uma mudança na relação entre produção, território e autonomia. Ao fortalecer práticas agroecológicas, diversificar os cultivos e ampliar as possibilidades de comercialização, as famílias indígenas encontram caminhos para produzir alimentos saudáveis, gerar renda e cuidar da terra.

O trabalho de assistência técnica do ISPN, via Etnodesenvolvimento, no âmbito do PBA CI, registra resultados significativos, que vão desde as formas de produção às estratégias de comercialização, como o acesso aos mercados institucionais.

“A atuação do Etnodesenvolvimento une capacitação, fomento e acompanhamento técnico regular das famílias. Além disso, respeita as especificidades de cada povo e fortalece a produção com base nos princípios da agroecologia, buscando gerar mais autonomia e segurança alimentar”, reforça a coordenadora do Programa Maranhão, Ruthiane Pereira.

Nesse processo, o protagonismo das mulheres ocupa um lugar central. Nas hortas, nas reuniões, na organização comunitária e na construção de novas formas de geração de renda, elas ampliam sua participação nas decisões e fortalecem sua autonomia.

“Mesmo com todos os desafios, a gente precisa ver o que nossos antepassados deixaram para a gente. O jeito deles de lidar com a terra deve ser hoje nossa maior riqueza”, conclui Janaína Caragiu.

A atuação do ISPN contribui para esse processo ao apoiar as comunidades na estruturação da produção e no fortalecimento de conhecimentos e práticas que valorizam a agroecologia, o uso de adubos naturais, a diversidade dos cultivos e a preservação das áreas verdes da Terra Indígena Pindaré. Assim, produzir torna-se também uma forma de cuidar do território, fortalecer a cultura e construir autonomia para as famílias Guajajara.

Diálogo entre Tainan Pereira, analista socioambiental do ISPN e as indígenas da Aldeia Novo Cento, Terra Indígena Pindaré. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN
Diálogo entre Tainan Pereira, analista socioambiental do ISPN e as indígenas da Aldeia Novo Cento, Terra Indígena Pindaré. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Autoria: Cristiane Moraes/ Assessoria de Comunicação do ISPN

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