Área de desmatamento em Correntina, na Bahia.

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Observatório Socioambiental lança ferramenta inédita que cruza dados de desmatamento e violência no campo, ao longo de quatro décadas

Nova ferramenta vai permitir que sociedade civil, pesquisadores e imprensa acessem e cruzem dados de forma independente

No próximo dia 27 de abril de 2026, será lançado oficialmente o Observatório Socioambiental, iniciativa da sociedade civil que reúne, de forma inédita, dados sistematizados entre 1980 e 2023 sobre violações de direitos humanos, desmatamento e expansão da agricultura industrial no Brasil. O lançamento será junto com o Caderno de Conflitos da CPT, cujos dados vão constar na plataforma.

A ação é resultado de uma parceria entre o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Comissão Pastoral da Terra (CPT), WWF-Brasil, Fern, IMAFLORA, ICV, Aid Environment, Global Canopy, Trase e Observatório do MATOPIBA, entidades ligadas à luta pela terra,  produção de conhecimento e na defesa dos territórios, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

O lançamento marca a apresentação pública da Plataforma Socioambiental, principal ferramenta do Observatório. O sistema reúne, cruza e disponibiliza dados de diferentes fontes em um ambiente digital interativo e permite visualizar, de forma segmentada, por estados e municípios, a relação direta entre o avanço da produção de commodities e os conflitos socioambientais.

Mais do que organizar informações, a plataforma joga luz sobre uma realidade frequentemente invisibilizada: a de que a expansão da fronteira agrícola no Brasil tem sido acompanhada por violência, pressão sobre territórios e degradação ambiental. 

O resultado não é apenas um banco de dados — é um mapa detalhado de como a expansão das commodities está diretamente associada a conflitos, violência e destruição ambiental. Ao organizar essa informação em escala inédita, o Observatório Socioambiental fortalece o controle social de forma a permitir que sociedade civil, pesquisadores e imprensa acessem e cruzem dados de forma independente. Os dados e análises podem também ser utilizados por gestores de políticas públicas e atores do sistema de Justiça para auxiliar na compreensão e tomada de decisões sobre dinâmicas territoriais, uso dos recursos naturais e defesa dos direitos humanos.

Também pressiona por mais transparência e responsabilidade nas cadeias produtivas, em um cenário de crescente cobrança internacional por rastreabilidade ambiental. E, principalmente, reposiciona o papel dos povos indígenas e comunidades locais como protagonistas na conservação dos territórios e no enfrentamento ao desmatamento.

A iniciativa chega em um momento em que o Brasil se consolida como potência agrícola global, mas bate recordes históricos de violência no campo. Só em 2023, foram registrados mais de 2,2 mil casos, o maior número desde o início da série histórica da Comissão Pastoral da Terra, com quase um milhão de pessoas afetadas. Mais de 78% dos casos registrados estão ligados à luta por território, frequentemente acompanhados por ataques contra povos indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais.

Violência e desmatamento

Entre 2002 e 2023, a CPT documentou 89.583 conflitos sociais no campo brasileiro. Dentre eles, 30,9% foram de conflito pela terra, além de 12,9% dos casos estarem ligados a violência contra trabalhadores rurais, num quadro de assassinatos, tentativas de homicídio e ameaças de morte.  No mesmo período, o Pará registrou o maior número de ocorrências (15.383), seguido por Minas Gerais (8.479) e Maranhão (7.219).  

Vale registrar que os estados com maior registro de conflitos sociais são, frequentemente, os com maior área de desmatamento. Também entre 2002 e 2023, o Pará teve 12,4 milhões de hectares desmatados, seguido por Mato Grosso (11,4 milhões de ha), Bahia (5,8 milhões de ha) e Maranhão (5,7 milhões de ha). 

Na prática, o que a plataforma revela é um padrão histórico: onde avança a fronteira agrícola, avançam também as violações. Assim, a Plataforma Socioambiental surge como ferramenta essencial para o fortalecimento do controle social  e o aprimoramento de políticas públicas.

Sobre o Observatório Socioambiental

O Observatório Socioambiental é um fórum da sociedade civil voltado a informar, qualificar e pautar o debate público sobre os impactos sociais e ambientais associados à produção de commodities agropecuárias no Brasil. Sua principal ferramenta, a Plataforma Socioambiental, consolida dados históricos e atuais para ampliar a transparência, fortalecer direitos e contribuir para a proteção dos territórios.

O lançamento da Plataforma Socioambiental será realizado no próxima segunda-feira (27), em conjunto com o Relatório de Conflitos da Comissão Pastoral da Terra, a partir das 9h na sede da CNBB – Quadra SES 801 Conjunto B – Asa Sul, Brasília – DF. Acesse o link da transmissão no canal da CPT no Youtube.

Autoria: Leandro Fortes

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