Para fortalecer a troca de experiências e impulsionar práticas agroecológicas que geram renda e preservam o meio ambiente, uma série de três intercâmbios ocorreu entre quilombolas, agricultores familiares e indígenas do povo Guajajara, no Maranhão. Mais do que visitas entre territórios, os intercâmbios se consolidaram como espaços de formação coletiva, diálogo intercultural e construção de estratégias comuns.
Os intercâmbios foram realizados no âmbito do Projeto Floresta Amazônia, por meio da Modalidade Comunidades, com a parceria do Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN), Associação dos Agroprodutores Rurais da Vila Cariongo e a União das Associações Quilombolas das Comunidades Remanescentes de Quilombos (Uniquituba).
As atividades fortaleceram capacidades produtivas e a incidência política dos grupos, articulando conhecimentos técnicos e saberes tradicionais. Participaram os moradores do Quilombo Cariongo, em Santa Rita (MA), e de comunidades quilombolas de Anajatuba (MA), que visitaram experiências agroecológicas em Bacabal (MA), São Luís Gonzaga (MA) e na capital São Luís, além da Terra Indígena Rio Pindaré, localizada em Bom Jardim (MA).
Para a coordenadora do Programa Maranhão do ISPN, Ruthiane Pereira, os intercâmbios cumprem um papel estratégico de fortalecer vínculos entre territórios e valorizar os saberes dos povos e comunidades tradicionais. “Esses encontros criam pontes entre realidades que enfrentam desafios semelhantes. Ao trocar experiências, esses grupos fortalecem suas práticas produtivas, sua organização coletiva e sua capacidade de incidência por políticas públicas que respeitem seus modos de vida e seus territórios”, destacou.

Agroecologia como prática
O primeiro intercâmbio teve como foco a agroecologia enquanto caminho concreto de produção e cuidado com a terra. Em assentamentos rurais nos municípios de Bacabal (MA) e São Luís Gonzaga (MA), os quilombolas conheceram sistemas agroflorestais cultivados ao longo de décadas por agricultores familiares, que integram produção de alimentos, recuperação ambiental e geração de renda.
A vivência em áreas produtivas diversificadas possibilitou compreender princípios como o manejo do solo, a importância da biodiversidade e o papel da cobertura vegetal no equilíbrio dos sistemas agrícolas. Mais do que observar técnicas, o intercâmbio estimulou reflexões sobre como esses conhecimentos podem ser adaptados à realidade dos quintais produtivos e das roças quilombolas.
Vinda do Quilombo Cariongo, a agricultora quilombola Erly Teixeira participou do intercâmbio para fortalecer a expansão de sua roça e a criação de pequenos animais no quintal de casa. “Esses dias significaram um ano de aula. Ver essa variedade de plantas e árvores juntas me mostrou que é possível produzir, preservar e viver do quintal. Volto para casa com vontade de colocar tudo em prática”, afirmou.

Incidência política e fortalecimento da comercialização
O segundo intercâmbio focou na incidência política e no acesso a mercados. Em São Luís, lideranças quilombolas participaram de agendas institucionais, ampliando o diálogo direto com espaços de decisão e com representações da agricultura familiar.

Nesses encontros, os participantes apresentaram demandas relacionadas ao acesso à água, a conflitos territoriais e à necessidade de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da produção quilombola. A atividade também evidenciou o potencial econômico dos territórios, com destaque para a apicultura e outras iniciativas de produção sustentável.
O intercâmbio incluiu ainda o contato com experiências agroecológicas voltadas à comercialização, permitindo aos quilombolas visualizar caminhos para ampliar a geração de renda. Para o jovem quilombola Bruno Muniz, estudante de agronomia e morador de Cariongo, a vivência ajudou a conectar teoria e prática. “Conhecer essas experiências ajuda a pensar como fortalecer a produção no nosso quilombo. Me mostrou elementos que eu conhecia na teoria, mas que ganham outro sentido quando a gente vê funcionando na prática”, comentou.

Entre o quilombo e a aldeia
O terceiro intercâmbio conectou os quilombolas ao povo indígena Guajajara, na Terra Indígena Rio Pindaré, em Bom Jardim (MA). Na Aldeia Piçarra Preta, a troca promoveu um encontro de técnicas produtivas, práticas culturais e vivências políticas construídas a partir da relação ancestral com a terra.

Os diálogos abordaram temas como proteção territorial, segurança alimentar, comunicação comunitária e fortalecimento cultural, evidenciando como os processos formativos se constroem no reconhecimento mútuo e na articulação entre povos tradicionais. Os participantes também conheceram uma nascente considerada marco inicial da ocupação da comunidade.
A participação de jovens teve papel central nesse processo. Para o estudante Luís Henrique, de 16 anos, morador do Quilombo Centro do Isidório, em Anajatuba, a experiência aproximou grupos que compartilham desafios semelhantes. “Conhecemos lugares muito importantes do território, fomos na escola bilíngue, conhecemos a nascente e também áreas de plantio. Essa experiência aproximou muito a gente, porque enfrentamos desafios parecidos e estamos na mesma luta pela defesa da natureza e dos nossos modos de vida”, disse.

Floresta+ Amazônia
Para a assessora técnica do Projeto Floresta+ Amazônia, Raquel Marques, os intercâmbios demonstram como a troca entre territórios fortalece a implementação de políticas públicas na prática. “O Floresta+ busca fortalecer capacidades locais e valorizar iniciativas que já existem nos territórios. Esses intercâmbios mostram como o aprendizado entre pares, entre povos e comunidades tradicionais, gera resultados concretos para a produção sustentável, a proteção dos territórios e o fortalecimento da organização comunitária”, ressaltou.
O Floresta+ Amazônia é uma iniciativa de cooperação internacional do Governo do Brasil, liderada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) Brasil, com apoio da Agência Brasileira de Cooperação e financiamento do Green Climate Fund.
