A umidade relativa do ar pode ser utilizada como um indicador prático e estratégico para decidir quando realizar queimas controladas ou prescritas. É o que aponta o novo estudo da assessora técnica do ISPN e pesquisadora de Manejo Integrado do Fogo (MIF), Lívia Carvalho Moura, e colaboradores, sob a orientação da professora Profa. Dra. Isabel Schmidt, publicado no International Journal of Wildland Fire.
A pesquisa “A umidade relativa do ar no momento da queima é um fator preditivo fundamental do comportamento do fogo no Cerrado”, analisou como diferentes condições — como época do ano, horário do dia e quantidade de vegetação seca (combustível) — influenciam o comportamento do fogo. Entre todos esses fatores, a umidade do ar se destacou como um dos mais determinantes para orientar decisões operacionais no campo.
“A ideia do estudo partiu de perguntas de manejo feitas pelo gestor do Parque Nacional da Chapada das Mesas na época, Paulo Adriano Dias, coautor do trabalho. Ao observar o manejo tradicional do fogo feito por comunidades locais e povos indígenas da região, ele queria saber como mensurar os indicadores da vegetação e do clima associados a essas práticas tradicionais para utilização em protocolos técnicos”, explica Lívia Moura Carvalho.
“Saber o momento certo para usar o fogo de forma controlada parecia algo muito óbvio para os povos e comunidades da região, mas para muitos gestores e pesquisadores não era muito claro e perceptível, e principalmente existia a preocupação de transmitir e disponibilizar esse conhecimento”, acrescenta Lívia.
Uma variável simples
Os resultados do levantamento mostram que níveis mais baixos de umidade do ar estão associados a fogos mais intensos e rápidos; enquanto níveis mais altos de umidade resultam em fogo mais brando, mais lento e mais fácil de controlar.
Isso significa que a mesma área pode apresentar comportamentos de fogo muito diferentes dependendo apenas das condições do momento da queima — especialmente da umidade do ar ao longo do dia e da quantidade de material combustível.
Ferramenta acessível
Na prática, o estudo demonstra que a umidade relativa do ar pode ser incorporada como um critério objetivo para orientar quando e como realizar queimadas planejadas. Por ser uma variável fácil de medir em campo, ela se torna uma ferramenta acessível para brigadistas e gestores.
Níveis de umidade do ar acima de 50% são mais comuns durante a estação chuvosa e no início da estação seca (entre abril e junho, dependendo da região), mais especificamente no final da tarde ou início da noite, quando as temperaturas são mais baixas e o ar tende a reter mais umidade.
Contexto
No Cerrado, incêndios sobre a vegetação nativa estão aumentando por fenômenos e mudanças climáticas extremas e falta de manejo da biomassa seca acumulada. O problema é maior no fim da estação seca, com fogos mais intensos e severos. Desde 2014, queimas prescritas são aplicadas em algumas áreas protegidas no início da seca para manejo de vegetações adaptadas ou propensas ao fogo, no âmbito da abordagem do Manejo Integrado do Fogo (MIF).
Os resultados da pesquisa também reforçam o papel do MIF, adotado na redução dos incêndios em áreas protegidas do Cerrado. Essa abordagem pode incluir o uso de queimas prescritas em vegetações adaptadas ao fogo, no início da estação seca, para fragmentar o combustível e reduzir a quantidade de vegetação seca na paisagem.
Ao utilizar a umidade do ar como critério para definir o momento dessas queimas, é possível aumentar a segurança das operações e reduzir o risco de incêndios de grande escala no final da estação seca, que são mais intensos e difíceis de controlar.
Dessa forma, o estudo evidencia como o conhecimento científico pode apoiar decisões práticas, tornando o uso do fogo mais eficiente, seguro e alinhado aos objetivos de conservação do Cerrado.
