Comunidade do Quilombo Capoeira e técnicos do Projeto Restaura reunidos em frente a igreja católica da comunidade. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Comunidade do Quilombo Capoeira e técnicos do Projeto Restaura reunidos em frente a igreja católica da comunidade. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Comunidade do Quilombo Capoeira e técnicos do Projeto Restaura reunidos em frente a igreja católica da comunidade. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Comunidade do Quilombo Capoeira e técnicos do Projeto Restaura reunidos em frente a igreja católica da comunidade. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

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Quilombo Capoeira constrói protocolo de consulta para fortalecer a defesa do território e da identidade quilombola

Oficina realizada com apoio do Projeto Restaura Maranhão reuniu moradores e lideranças para definir como a comunidade quer ser consultada antes de decisões e intervenções que possam afetar seus modos de vida e seu patrimônio natural e cultural

A defesa do território, a preservação da memória ancestral e o direito de decidir sobre o próprio futuro estão no centro da mobilização do Quilombo Capoeira, localizado na zona rural de Viana, na Baixada Maranhense (MA). A comunidade realizou uma oficina para a construção do Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada, instrumento que estabelece as regras e os procedimentos que devem ser respeitados por agentes públicos, empresas e outras organizações antes de tomarem decisões ou promoverem intervenções que possam afetar o território e o modo de vida quilombola.

A atividade foi acompanhada por técnicos do Projeto Restaura Maranhão, executado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), e reuniu moradores e lideranças em torno de um objetivo comum: fortalecer a organização comunitária e garantir que a população seja ouvida e respeitada nas decisões que envolvam seus direitos territoriais, sociais e culturais.

Durante a oficina, os participantes discutiram o significado dos princípios que orientam o protocolo: livre, porque a comunidade deve decidir sem pressões ou imposições; prévia, porque a consulta precisa acontecer antes de qualquer decisão ou ação que possa afetar o território e os modos de vida; informada, porque os moradores devem receber informações claras, completas e acessíveis para compreender a proposta e tomar suas decisões; e de boa-fé, porque o diálogo deve ser conduzido com respeito, transparência e disposição genuína para ouvir e considerar as decisões da comunidade.

A construção do documento também prevê a participação coletiva na validação de seu conteúdo, etapa fundamental para que as regras sejam reconhecidas e assumidas pelos moradores. A expectativa registrada durante a oficina é que a validação ocorra ainda em 2026.

Os protocolos são como vitrines dessas comunidades, pois são a porta de entrada para que  qualquer empreendimento  seja ele público ou  privado leve em consideração –   de como, quando e onde essas comunidades querem ser consultadas e se elas querem intervenção no seu território. 

“Durante a primeira oficina a comunidade conduziu todas as etapas metodológicas  e demonstrou segurança quanto a história da comunidade e o porquê da importância de preservar a memória do território – que é um espaço vivo e vivido. Consideraram substancial a sistematização dos  processos decisórios da comunidade  através de um Protocolo de Consulta para que o instrumento se torne um mecanismo de defesa para reprodução dos seus modos de vida e da garantia de direitos e de como a comunidade quer ser respeitada,” ressalta a advocacy do Projeto Restaura, Dani Straesser.

Lideranças do Quilombo Capoeira, município de Viana-MA, atentas às informações repassadas durante a Oficina do Protocolo de Consulta. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN
Lideranças do Quilombo Capoeira, município de Viana-MA, atentas às informações repassadas durante a Oficina do Protocolo de Consulta. Foto: Cristiane Moraes/Acervo ISPN

Um instrumento de defesa dos direitos territoriais

Lideranças do Quilombo Capoeira deliberam sobre pontos importantes do Protocolo de Consulta.Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
Lideranças do Quilombo Capoeira deliberam sobre pontos importantes do Protocolo de Consulta.Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN

Para Silvaneide dos Santos, presidente da Associação dos Moradores do Quilombo Capoeira, conhecer o direito à consulta é parte essencial da luta para proteger a comunidade e garantir que as próximas gerações possam permanecer no território.

“É um projeto que vai trazer quintais agroflorestais e trazer a mensagem de preservar e amar nossa comunidade e defender o que é nosso. Nunca podemos lançar mão de nossos direitos para outros. Para isso, precisamos ter conhecimento. Hoje estou aprendendo o significado da Consulta Prévia e a importância dela para as comunidades. Isso vai ficar para nossas crianças e para as novas gerações”, afirma.

O Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada é um documento elaborado pela própria comunidade, de acordo com suas formas de organização, representação e tomada de decisões. Seu propósito é definir como o quilombo deseja ser consultado antes de medidas administrativas, projetos, empreendimentos ou outras iniciativas que possam impactar seu território e seus modos de vida.

O instrumento está relacionado ao direito à consulta previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece garantias para povos indígenas e tribais, incluindo comunidades quilombolas, em decisões que os afetem diretamente.

Mais do que um documento formal, o protocolo representa uma ferramenta política de afirmação da autonomia comunitária. Ele permite que os moradores estabeleçam suas próprias condições de participação, os tempos necessários para a deliberação coletiva e os procedimentos que devem ser observados por quem pretende dialogar com a comunidade.

Durante a atividade, os participantes ressaltaram que a força do protocolo depende do envolvimento de todos.

“O que a gente está colocando nesse protocolo é como uma doutrina de como vamos cuidar do nosso território. Por isso, é importante que todos participem e estejam presentes na validação do documento para que ele tenha força”, destacou Silvaneide.

Refazendo os desenhos a partir das mudanças provocadas pela construção da MA-217. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
Refazendo os desenhos a partir das mudanças provocadas pela construção da MA-217. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN

Histórico da comunidade

O jeito livre de viver no Quilombo Capoeira, Viana-MA. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
O jeito livre de viver no Quilombo Capoeira, Viana-MA. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN

O Quilombo Capoeira possui um documento construído com base nas informações dos moradores mais antigos e os registros de uma memória oral que foi passando de geração para geração. A comunidade teria surgido com a  chegada de uma família de sobrenome Capoeira a uma área próxima conhecida como Caximbeiro. Os antepassados dos atuais moradores pertenciam à família Rocha. Os antigos registram que os primeiros a povoar o local foram uma mulher filha de um fazendeiro branco e um escravizado. Os dois, como casal, fugiram de São Vicente de Ferrer para formar uma família na localidade. Com a abertura de uma estrada as famílias que habitavam o Caximbeiro se deslocaram para onde hoje é o povoado de Capoeira, também conhecido como Capoeira dos Baías.

Como marcos históricos do quilombo está o registro do antigo Engenho de Retiro desativado há cerca de 50 anos. O engenho concentrava boa parte da mão de obra da comunidade. Hoje a área do Engenho é ocupada por fazendas e sítios.

As terras do Quilombo Capoeira são consideradas devolutas, considerados imóveis rurais ou urbanos que pertencem ao poder público (União ou Estados), mas que não possuem nenhuma destinação pública específica e nunca foram legalmente transferidas para o patrimônio de um particular. Consta em documentos sobre a história do Quilombo que a associação local pediu ao Instituto de Terras do Maranhão (ITERMA) a demarcação e posse por usucapião. Há registros em uma velha escritura que a posse pertencia aos indígenas que viviam na região.

Hoje o território é cercado por grandes fazendas de gado que teriam surgido após a povoação do lugar. Segundo os moradores, as regras de uso dos recursos naturais do entorno são determinadas pelos fazendeiros locais. A coleta do coco babaçu, por exemplo, em muitas fazendas só pode ser feita com a autorização do proprietário.

Memória e natureza ameaçadas

Sumaúma (Ceiba pentandra), árvore de grande importância simbólica para os moradores. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
Sumaúma (Ceiba pentandra), árvore de grande importância simbólica para os moradores. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN

No Quilombo Capoeira, a defesa territorial está diretamente ligada à preservação dos recursos naturais, das práticas tradicionais e das memórias que atravessam gerações. Juçarais, lagoas, açudes, árvores centenárias e espaços de convivência comunitária fazem parte da história e da vida cotidiana dos moradores.

A lagoa, por exemplo, tem importância tanto para as atividades tradicionais, como deixar a mandioca de molho, quanto para os encontros comunitários durante a Semana Santa, quando os moradores se reúnem em torno do principal manancial de água de Capoeira. Esses espaços representam conhecimentos, práticas culturais e vínculos construídos ao longo do tempo.

Entretanto, os moradores relatam mudanças na paisagem e ameaças a esse patrimônio. A construção da rodovia MA-217, segundo os relatos da comunidade, cortou o território e trouxe preocupações relacionadas ao tráfego de veículos em alta velocidade, ao aterramento de lagoas e açudes e à derrubada de juçarais. A permanência de uma sumaúma (Ceiba pentandra), árvore de grande importância simbólica para os moradores, também preocupa a população diante das intervenções na região.

A memória dessas transformações aparece no relato de Francisco Xavier, de 70 anos, que recorda a paisagem de sua infância e a relação das famílias com a natureza.

“Eu me lembro de quando a gente era criança, brincava embaixo da sumaúma. Eu andava por aqui tudo. Era cheia de mata. A gente precisa preservar ela em pé. Tirar ela daqui não será bom para nossa comunidade”, conta.

A fala expressa uma preocupação que vai além da conservação de uma árvore: trata-se de proteger os lugares que guardam a história coletiva e que seguem sendo referências para a identidade quilombola. 

Árvores de reservas naturais destruídas pelas máquinas durante construção da MA 217, Quilombo Capoeira-Viana. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
Árvores de reservas naturais destruídas pelas máquinas durante construção da MA 217, Quilombo Capoeira-Viana. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN

Ser quilombola é também cuidar do território

A construção do protocolo também dialoga com a trajetória de resistência das famílias do Quilombo Capoeira. Ao longo de sua história, a comunidade enfrentou conflitos relacionados à disputa pela terra, à grilagem e à pressão de fazendeiros sobre o território. A associação de moradores mantém mobilização em torno da regularização fundiária, buscando o reconhecimento e a garantia da posse da área.

Para Zulmira de Jesus, de 59 anos, agricultora familiar, quebradeira de coco babaçu e liderança sindical, a construção do documento representa mais uma conquista de uma luta histórica pela identidade e pelos direitos da comunidade. Ela relata já ter enfrentado ameaças de morte em razão de sua atuação na defesa do território quilombola.

“Esse protocolo para nós já é um resultado de nossas lutas, para que a gente possa nos reafirmar em todos os pré-requisitos de ser quilombola. Ser quilombola não é só dizer que temos um território, é sentimento de pertença. Nós também devemos trabalhar nosso dever de cuidar, preservar nossos bens naturais e culturais. Reunir nossas diversidades e preservar”, afirma.

Zulmira também destaca que a defesa dos direitos não pode ser dissociada do respeito à identidade e às necessidades da população.

Zulmira de Jesus, moradora do Quilombo Capoeira e militante de movimentos de defesa dos direitos das populações do campo. Foto Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
Zulmira de Jesus, moradora do Quilombo Capoeira e militante de movimentos de defesa dos direitos das populações do campo. Foto Cristiane Moraes/ Acervo ISPN

“Ser livre não é se calar; não é deixar minha identidade de lado só porque preciso de uma escola, uma estrada de qualquer jeito. Ser livre é ver nossa comunidade guardando sua identidade”, completa.

A preservação dessa memória também está presente no relato de Teresinha de Aquino Santos, de 72 anos, nascida no quilombo e que criou seus filhos na comunidade. Ao recordar a abundância de árvores, peixes e alimentos encontrados na mata, ela evidencia as mudanças vividas ao longo das décadas.

Teresinha de Aquino Santos, de 72 anos, nascida no quilombo Capoeira. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN
Teresinha de Aquino Santos, 72 anos, nascida no quilombo Capoeira. Foto: Cristiane Moraes/ Acervo ISPN

“Antigamente era tudo mais lento, poucas casas, as mulheres quebrando coco. Aqui criei meus filhos. Todas nós íamos para o mato e voltávamos no final do dia. Fico com saudade de como era a natureza. Era tudo cheio de peixe, pescava de anzol. Tinha muita árvore, comida na mata. Eu guardo essa memória para o resto da minha vida”, relata.

Essas lembranças reforçam a importância de proteger não apenas a área física do território, mas também as condições que permitam a continuidade dos conhecimentos tradicionais, das práticas produtivas e dos modos de vida da comunidade.

Restauração ecológica e fortalecimento comunitário

A oficina integra o contexto de atuação do Projeto Restaura Maranhão. O Projeto Restaura Maranhão, que tem como implementador o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), faz parte da carteira de iniciativas de restauração ecológica em áreas prioritárias da Amazônia, apoiado por recursos do Fundo Amazônia. Essas iniciativas integram o Restaura Amazônia, um programa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do​ governo federal que conta com a Conservação Internacional (CI-Brasil) como parceira ​gestora no Pará e Maranhão. A iniciativa visa investir em projetos de restauração ​ecológica e fortalecer a cadeia produtiva da restauração na Amazônia Legal em áreas ​prioritárias e que sofrem alta pressão por desmatamento.

Com a meta de recuperar 400 hectares em 12 territórios — 11 assentamentos da reforma agrária e o Quilombo Capoeira —, o projeto aposta em estratégias que associam a recuperação de áreas degradadas à produção sustentável, à agroecologia e ao fortalecimento das comunidades.

No quilombo, a proposta inclui a implantação de quintais agroflorestais e a disseminação de práticas que valorizem a produção de alimentos, a conservação ambiental e a floresta em pé. Essas iniciativas se somam à mobilização comunitária para defender o território e fortalecer a autonomia dos moradores.

A restauração ecológica, nesse contexto, não se limita ao plantio de árvores ou à recuperação de áreas degradadas. Ela também se relaciona à valorização dos conhecimentos locais, à permanência das famílias em suas terras e à construção de alternativas produtivas compatíveis com a conservação dos recursos naturais.

A elaboração do Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada amplia essa perspectiva ao colocar a comunidade no centro das decisões sobre seu futuro. Ao definir coletivamente como deseja ser consultado, o Quilombo Capoeira fortalece sua capacidade de diálogo e reivindicação de direitos diante de iniciativas que possam interferir em seu território.

A construção e a validação do documento representam, assim, mais um passo na luta para que a comunidade tenha sua história, sua identidade e suas decisões respeitadas. Um compromisso que atravessa gerações e reafirma que proteger o território é também preservar a memória, a cultura e as condições de vida de quem sempre cuidou dele.

Na avaliação da analista socioambiental do ISPN e coordenadora do Projeto Restaura Maranhão, Ana Tereza Ferreira, a elaboração do Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada do Quilombo Capoeira é um passo fundamental para fortalecer o protagonismo da comunidade nas decisões que afetam seu território e seus modos de vida.

“No Projeto Restaura Maranhão, entendemos que as ações de restauração ambiental e produtiva vão muito além de plantar árvores: é também respeitar a história, os conhecimentos e o modo de vida das comunidades. Construir o Protocolo em parceria com a comunidade é fortalecer sua autonomia e garantir que as ações do projeto sejam desenvolvidas com diálogo, respeito e participação da própria comunidade”.

Autoria: Cristiane Moraes/Assessoria ISPN

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