Cristiane Azevedo, Diretora Superintendente do ISPN, fala ao microfone no Ecos dos Territórios. Encontro foi realizado em Brasília e teve a participação de 98 representantes de 50 projetos aprovados nos editais 38º e 39º do Fundo Ecos. Foto: Amanda Vieira/Acervo ISPN

Cristiane Azevedo, Diretora Superintendente do ISPN, fala ao microfone no Ecos dos Territórios. Encontro foi realizado em Brasília e teve a participação de 98 representantes de 50 projetos aprovados nos editais 38º e 39º do Fundo Ecos. Foto: Amanda Vieira/Acervo ISPN

Cristiane Azevedo, Diretora Superintendente do ISPN, fala ao microfone no Ecos dos Territórios. Encontro foi realizado em Brasília e teve a participação de 98 representantes de 50 projetos aprovados nos editais 38º e 39º do Fundo Ecos. Foto: Amanda Vieira/Acervo ISPN

Cristiane Azevedo, Diretora Superintendente do ISPN, fala ao microfone no Ecos dos Territórios. Encontro foi realizado em Brasília e teve a participação de 98 representantes de 50 projetos aprovados nos editais 38º e 39º do Fundo Ecos. Foto: Amanda Vieira/Acervo ISPN

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Financiamento climático a partir dos territórios: recursos, poder e justiça socioambiental

O desafio não se resume apenas a ampliar o financiamento. É preciso discutir como esses recursos circulam, quem participa das decisões e quais organizações têm condições de acessá-los

A crise climática tem levado governos, organismos multilaterais, empresas e instituições filantrópicas a mobilizarem volumes crescentes de recursos. Em 2024, os fluxos globais de financiamento climático ultrapassaram US$ 2 trilhões. Para 2025 foram estimados em US$ 2,1 trilhões. O valor é expressivo, mas ainda distante dos cerca de US$ 7,8 trilhões anuais que, segundo a Climate Policy Initiative, serão necessários até 2030 e US$ 9 trilhões anuais entre 2031 e 2035 para responder às necessidades globais de financiamento climático. [1]

O desafio, portanto, não se resume apenas a ampliar o financiamento. É preciso discutir como esses recursos circulam, quem participa das decisões e quais organizações têm condições de acessá-los.

Nesse contexto, uma pergunta continua recebendo menos atenção do que deveria: quem já vinha construindo respostas para a crise climática antes mesmo de ela ocupar o centro da agenda internacional?

A resposta está nos territórios.

Povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, movimentos sociais e organizações locais desenvolvem, há gerações, formas de produzir, conservar e viver baseadas no conhecimento tradicional e no conhecimento dos  territórios em que vivem. Protegem florestas, recuperam nascentes, manejam a sociobiodiversidade, mantêm sistemas produtivos adaptados às condições locais e constroem alternativas econômicas que conciliam conservação e geração de renda.

Esse conhecimento não é complementar à ação climática. Ele constitui parte essencial das respostas necessárias para proteger a biodiversidade, reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de adaptação de populações e ecossistemas.

Ao longo de mais de três décadas, o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), por meio do Fundo Ecos, acompanha e apoia iniciativas dessa natureza. Desde sua criação, o Fundo já destinou mais de US$ 31 milhões a mais de mil projetos conduzidos por organizações de base comunitária, especialmente no Cerrado, Amazônia e Caatinga. [2]

Essa trajetória mostra que as transformações mais consistentes raramente começam com modelos concebidos à distância. Elas surgem da combinação entre conhecimento territorial, organização social, capacidade de experimentação e recursos adequados às realidades locais.

Esse é um dos principais aprendizados acumulados pelo Fundo Ecos: estar conectado aos territórios e reconhecer práticas que já existem, fortalecer as organizações que as sustentam e criar condições para que possam aperfeiçoá-las, conectá-las e ampliar seus resultados.

O caminho dos recursos também importa

Durante décadas, prevaleceu no financiamento para o desenvolvimento a lógica de que os recursos deveriam percorrer longas cadeias institucionais antes de alcançar as organizações locais. A cada etapa, foram incorporados novos procedimentos e mecanismos de controle destinados a reduzir riscos e assegurar resultados.

Embora esses instrumentos tenham sua importância, o acúmulo de exigências produz uma contradição: as organizações mais próximas dos problemas e das soluções são frequentemente aquelas que enfrentam maiores dificuldades para acessar o financiamento.

As diretrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, sobre desenvolvimento localmente liderado reconhecem esse problema. A organização afirma que o financiamento de qualidade deve ser flexível, previsível e de longo prazo, além de recorrer, sempre que possível, a sistemas e instituições locais já existentes.[3]

A própria OCDE estima que menos de 10% dos fundos climáticos estejam dedicados ao desenvolvimento localmente liderado. Embora as diferenças de definições e metodologias ainda dificultem a comparação desses fluxos, o dado evidencia a distância entre os compromissos de localização dos recursos e sua aplicação prática. [4]

A experiência do Fundo Ecos demonstra que essa distância não será superada apenas com formulários mais simples. É preciso rever a maneira como riscos, capacidades, responsabilidades são compreendidos e reconhecer o protagonismo das organizações e comunidades na construção das soluções.

Confiança não é o oposto da boa governança. É uma de suas condições.

Relações construídas ao longo do tempo permitem compreender os contextos em que os projetos são executados, fortalecer as organizações e ajustar mecanismos de acompanhamento, transparência e prestação de contas às diferentes realidades.

Isso não significa abandonar critérios, controles ou procedimentos de integridade, mas construir mecanismos proporcionais aos riscos e reconhecer capacidades que nem sempre aparecem em documentos formais. Nesse contexto, a responsabilidade deixa de ser apenas uma obrigação administrativa imposta por quem financia e passa a ser um compromisso compartilhado, baseado em objetivos comuns, diálogo e clareza sobre os resultados esperados.

Uma infraestrutura que já existe

Assim como as soluções para muitos dos desafios socioambientais já vêm sendo construídas nos territórios, também existe uma infraestrutura capaz de fazer os recursos chegarem a quem as desenvolve. Fundos independentes e de justiça socioambiental, em diferentes países, ao conectar os recursos a organizações e iniciativas locais.

Esses fundos conhecem os contextos locais, mantêm relações duradouras com organizações de base, identificam iniciativas que dificilmente seriam alcançadas por grandes financiadores e acompanham processos que não podem ser avaliados apenas por resultados de curto prazo.

No Brasil, a Rede Comuá já reúne 20 fundos e organizações doadoras independentes que mobilizam recursos para organizações, movimentos e coletivos atuantes nos campos da justiça socioambiental, dos direitos humanos e do desenvolvimento comunitário. 

Um mapeamento sobre a filantropia comunitária no país reuniu dados de 31 organizações doadoras independentes. Entre as instituições pesquisadas, 74% apoiavam organizações da sociedade civil e 71% destinavam recursos a movimentos e coletivos, inclusive não formalizados. As 14 organizações da Rede Comuá incluídas no estudo haviam doado, diretamente, quase R$ 472 milhões até 2021.[5]

No âmbito internacional, a Alianza Socioambiental Fondos del Sur articula fundos socioambientais do Sul Global. Atualmente, a rede reúne 17 fundos que, ao longo de suas trajetórias, já apoiaram iniciativas em mais de 70 países. De acordo com o levantamento Funding from the Ground Up, somente em 2024, seus membros destinaram cerca de US$ 14 milhões em doações a atores da linha de frente, incluindo organizações de base, povos indígenas, instâncias de governança local e empreendimentos comunitários. Sua atuação parte do reconhecimento de que os grupos mais afetados pelas crises socioambientais são, muitas vezes, também os mais excluídos dos modelos tradicionais de financiamento. [6]

A participação do ISPN e do Fundo Ecos na Rede Comuá e na Alianza Socioambiental Fondos del Sur integra esse movimento mais amplo de fortalecimento dos fundos independentes de justiça socioambiental e de defesa de sistemas de financiamento mais acessíveis, diversos e próximos dos territórios.

Essas articulações não buscam apenas ampliar a colaboração entre seus integrantes. Elas trabalham para transformar as relações entre quem mobiliza os recursos, quem define as prioridades e quem conduz as respostas nos territórios.

Mudar os fluxos para construir futuros possíveis com justiça socioambiental

Fazer mais recursos chegarem aos territórios por meio de fundos independentes e de justiça socioambiental não significa apenas ampliar a capilaridade ou a eficiência do financiamento climático. Significa também transformar a maneira como circulam recursos, decisões e poder.

Quando organizações próximas aos territórios participam da definição de prioridades e dispõem de recursos flexíveis para apoiar soluções construídas localmente, comunidades, povos indígenas e organizações de base deixam de ocupar apenas o lugar de executores de agendas definidas externamente. Ampliam sua capacidade de decidir, propor e sustentar suas próprias respostas aos desafios socioambientais.

Diante da escala da crise climática, mobilizar mais recursos é indispensável. Mas a transformação necessária depende também de quem participa das decisões, de onde essas decisões são tomadas e de quanto conhecimento, capacidade institucional e autonomia permanecem nos territórios.

Democratizar o financiamento climático é, nesse sentido, ampliar quem pode imaginar, propor e participar das decisões. Fazer com que recursos e poder de decisão estejam mais próximos daqueles que vivem, conhecem e cuidam dos territórios contribui para construir respostas mais justas, fortalecer a democracia e transformar em realidade aquilo que, muitas vezes, ainda parece impossível.

Referências 

[1] Climate Policy Initiative. Global Landscape of Climate Finance 2026 e painel de dados sobre os fluxos globais de financiamento climático. https://www.climatepolicyinitiative.org/resources/data-visualizations/global-landscape-of-climate-finance-data-dashboard/

[2] Valor total em US$ corrigido até 2025.

[3] OECD. Practical Guidelines for Supporting Locally Led Development: Quality Financing to Local Actors. https://www.oecd.org/en/publications/practical-guidelines-for-supporting-locally-led-development_eaecf72b-en/full-report/action-area-quality-financing-to-local-actors_70bc9dc7.html

[4] OECD. Practical Guidelines for Supporting Locally Led Development: Clarity of Intentions and Definitions.
https://www.oecd.org/en/publications/practical-guidelines-for-supporting-locally-led-development_eaecf72b-en/full-report/action-area-clarity-of-intentions-and-definitions_306ac241.html

[5] Rede Comuá. Filantropia comunitária no Brasil: princípios, práticas e prioridades.
https://redecomua.org.br/wp-content/uploads/2025/02/Filantropia-comunitaria-no-Brasil-Sumario-PT.pdf

[6] Alianza Socioambiental Fondos del Sur. Funding from the Ground Up: A Global Study of Locally Rooted Socio-Environmental Funds. 2025. https://alianzafondosdelsur.org/wp-content/uploads/2025/10/Alianza_Funding_from_the_ground_up.pdf

Autoria: Cristiane Azevedo - Diretora Superintendente do ISPN

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