Estudantes indígenas das Terras Indígenas Rio Pindaré, Canabrava, Morro Branco e Bacurizinho participaram do II Fórum Acadêmico Indígena da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e da II Jornada Nacional de Extensão , eventos realizados pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis (PROEXAE), entre os dias 27 a 29 de maio, no campus de São Luís, com os objetivos de promover intercâmbio de conhecimentos, fortalecer a permanência estudantil e ampliar os diálogos entre a universidade e os povos indígenas do Maranhão.
A programação contou com mesas de debates sobre os desafios contemporâneos para a permanência de indígenas nas universidades, a educação indígena em contextos plurais e a dicotomia entre conhecimentos indígenas e não indígenas no espaço universitário. Houve momentos para diálogos com indígenas egressos da Uema e a apresentação de trabalhos de extensão universitária.

O II Fórum Acadêmico Indígena também foi um espaço de reflexões sobre os avanços nas políticas afirmativas da UEMA para estudantes indígenas após a realização do I Fórum, em 2024, que organizou diálogos entre estudantes e a gestão da universidade
Dentre os avanços mencionados, destaca-se a criação do Diretório Acadêmico Indígena, cotas de auxílio transporte e bolsa permanência para estudantes indígenas e o incentivo na apresentação de trabalhos em seminários e congressos. Foi mencionada a aproximação da universidade com os territórios indígenas e suas diversas realidades.
O Programa Indígena de Permanência e Oportunidades na Universidade (PIPOU), iniciativa executada pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), apoiou a realização das duas edições do Fórum Acadêmico Indígena da UEMA. Essa estratégia de atuação do PIPOU, em projetos de parceria com universidades públicas, visa fortalecer políticas de ações afirmativas para estudantes indígenas no ensino superior.
Além dessas parcerias, o programa também apoia estudantes indígenas em suas trajetórias acadêmicas por meio de bolsa de estudo, doação de notebook, e ofertando atividades formativas, como oficinas de escrita acadêmica e rodas de conversa que abordam temas sobre os direitos dos povos indígenas.Durante o Fórum, 57 estudantes e egressos da UEMA, representantes das aldeias Piçarra Preta, Januária, Morro Branco, Bacurizinho e Ywyrahu, apresentaram trabalhos acadêmicos, compartilharam experiências e debateram os desafios enfrentados no acesso e na permanência no ensino superior.
Para Pedro Viana Guajajara Filho, estudante do curso de Letras, a presença indígena nos espaços universitários representa uma conquista coletiva. O estudante apresentou o projeto de extensão do qual participa que está produzindo um material paradidático para a escola de seu território com o objetivo de valorizar o ensino e a língua materna.
“É um avanço que tivemos na educação indígena. Isso ajuda para que tenhamos mais voz e que possamos contribuir com a sociedade. Podemos destruir um estereótipo que as pessoas têm dos indígenas e dos territórios”, afirmou.
A estudante Ana Guajajara, da Aldeia Januária, destacou a importância da ocupação das universidades para o fortalecimento das identidades indígenas.

“Essa ocupação dentro dos espaços acadêmicos nos ajuda a contar nossas histórias com verdade. Amplia nossos conhecimentos, nos ajuda a preservar nossas tradições, lutar pelos nossos direitos e nossa organização dentro das comunidades, preservando nossos costumes e nossa língua materna. A nossa ancestralidade não está no passado, ela está dentro de nós. E devemos passá-la adiante para as novas gerações”, disse.
A participação de estudantes indígenas nas universidades tem contribuído para fortalecer os conhecimentos e as culturas indígenas dentro e fora dos territórios. Formada em Pedagogia pela Uema e ex-bolsista do PIPOU, Brenda Guajajara Viana, da Aldeia Piçarra Preta, ressaltou que a formação acadêmica deve caminhar junto com o compromisso de fortalecimento das comunidades. Ela mediou a mesa de encerramento do evento que discutiu “A dicotomia entre dois conhecimentos: pensando a vida a partir do território”.
“A gente vem falando sobre o protagonismo e sobre reafirmar nossa identidade. Para além da formação, é importante que estejamos nesses espaços para levar a nossa cultura. E poder retornar para os nossos territórios sempre com o objetivo do fortalecimento cultural e dos nossos direitos”, afirmou.

A programação contou ainda com a participação do indígena antropólogo Francisco Apurinã, Pesquisador Sênior da Universidade de Helsinki – Finlândia, que destacou a importância do reconhecimento dos conhecimentos indígenas nas discussões sobre mudanças climáticas e sustentabilidade. Ressaltou ainda a importância do saber acadêmico dialogar com os saberes dos povos indígenas.
“Quem sofre e percebe essas transformações ecológicas é quem mora na floresta. Esse conhecimento ainda é invisibilizado dentro da academia. É importante que ele seja reconhecido e esteja presente nas grandes mesas de discussão e de tomada de decisão”, afirmou.

Durante o Fórum, os estudantes também discutiram desafios relacionados à permanência universitária. Entre os temas levantados estiveram as dificuldades de transporte, as barreiras econômicas e os episódios de racismo enfrentados por jovens indígenas nas instituições de ensino.
“O segundo Fórum de Diálogos Indígenas é muito importante para a troca de experiências e para buscar soluções para problemáticas vividas pelos territórios. Precisamos ocupar nosso lugar de fala. Muitos jovens estão desistindo de seus cursos por falta de transporte e por racismo”, destacou Gerlan de Oliveira Guajajara, estudante da Licenciatura Intercultural em Ciências da Natureza e presidente da Associação de Pais e Mestres da Terra Indígena Rio Pindaré.
O coordenador do Programa Povos Indígenas do ISPN, João Guilherme Nunes Cruz participou da mesa que debateu os desafios contemporâneos da permanência dos estudantes das universidades.

“Reforçamos a discussão sobre a correlação desses desafios com os problemas que os territórios indígenas enfrentam para garantir a permanência dos estudantes no ensino superior. Ouvimos o relato de experiências e como enfrentam as situações do cotidiano. A ideia é encontrar juntos um caminho para aprofundar esse debate com a participação dos estudantes, dos territórios, da universidade e com toda a sociedade,” afirmou.
Para Cristiane Ribeiro Guajajara, da Aldeia Ywyrahu, no Território Canabrava, a universidade também tem um papel fundamental na preservação da memória e dos conhecimentos tradicionais.
“Hoje a nossa luta é deixar nossa história escrita. Estamos perdendo nossos anciãos, que são dicionários vivos em nosso território. A ideia é voltar para casa e registrar a nossa história”, relatou.
PIPOU amplia oportunidades para estudantes indígenas
Criado em 2021, o PIPOU é uma iniciativa do ISPN, com apoio da Vale e aporte financeiro da Double Arrow,CMH e CRM, por meio do Programa Partilhar. Desde o início do programa, o PIPOU apoiou 184 estudantes indígenas, representantes de 54 povos indígenas em universidades de diversas regiões brasileiras.
No Maranhão, foram apoiados 30 estudantes, até o momento: 25 da UEMA, quatro da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e um do Instituto Federal do Maranhão (IFMA). Desse total, 17 estudantes já concluíram a graduação com o apoio do programa, sendo 16 da UEMA e um da UFMA.
Os resultados demonstram a importância de iniciativas voltadas à permanência universitária, contribuindo para que cada vez mais estudantes indígenas ocupem os espaços acadêmicos, fortaleçam suas comunidades e ampliem sua participação nos processos de produção de conhecimento e de formulação de políticas públicas.
