Os Awa Guajá vivem em contato profundo com a floresta e acumulam conhecimentos ancestrais, como a classificação de dezenas de espécies de abelhas e suas características, parte de seu rico repertório historicamente construído nas relações com a floresta, expresso nas suas visões de mundo, histórias e cantos.
Neste Dia Mundial das Abelhas, 20 de maio, divulgamos o lançamento da publicação Hai rawirokaha pape rehe (Livro do Mel) que reúne histórias contadas por pessoas de diferentes gerações do povo Awá, que vivem na região amazônica no noroeste do Maranhão, sobre os conhecimentos que eles acumulam acerca das abelhas e dos méis.
Escritas em Guajá e em português, essas narrativas contribuem para a produção de material didático voltado às escolas indígenas Awá, fortalecendo o uso da língua materna ao mesmo tempo em que apoia o aprendizado do português. A obra também torna acessível ao público geral o conhecimento que esse povo indígena possui sobre um conjunto expressivo de 49 espécies de abelhas e suas características.
A linguista Marina Magalhães, da Universidade de Brasília (UnB), uma das organizadoras da publicação, estuda a língua dos Awá há 25 anos e convive com eles desde 2001. “Não me canso de admirar sua sabedoria e o nível de detalhamento dos seus conhecimentos sobre o ambiente em que vivem: a floresta, com os múltiplos seres naturais e sobrenaturais que lá habitam”, destaca.
Para o antropólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e também organizador do livro, Uirá Garcia, uma das coisas mais interessantes de se ressaltar é o interesse dos Awá em fazer esse livro. “Foi uma coisa que partiu muito deles, parte de um diálogo com a gente, mas é uma coisa que eles queriam deixar registrado, porque eles têm orgulho desse tipo de conhecimento”, relata.
Na avaliação de Marina Magalhães, a experiência de produzir esta publicação foi extremamente realizadora. “Registrar as histórias sobre mel e abelhas por meio de gravação, transcrição e tradução, além de inúmeras sessões de conversas e esclarecimentos, nos permitiu, a mim e ao antropólogo Uirá Garcia, entrar a fundo no intrincado sistema classificatório que relaciona, numa espécie de rede, animais, plantas e espíritos”.
Diversidade de espécies
Enquanto a maioria dos levantamentos feitos com outros povos indígenas sobre o tema lista por volta de 20 espécies de abelhas, os Awa Guajá foram além: identificaram 49 tipos distintos, conforme sua própria classificação, baseada não em critérios biológicos da taxonomia ocidental, mas em sua cosmovisão.
A metodologia partiu do profundo conhecimento dos Awá sobre seu território, aliado a um cuidadoso diálogo com referências da meliponicultura brasileira, como o livro eletrônico Abelhas sem ferrão relevantes para a meliponicultura no Brasil (Menezes et al., 2023) e o portal da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A). Longe de ser um estudo entomológico, o livro registra, sobretudo, o modo Awá de pensar esses insetos.
“A gente acha que talvez esse seja o maior conjunto de méis que um povo indígena já inventariou, aos seus próprios moldes. Não é um trabalho de entomologia, não é um trabalho de etnobiologia, a gente está partindo da classificação dos próprios Awá, das histórias deles”, explica Uirá Garcia.
Maridos, esposas e espíritos Karawara
A classificação Awá é construída a partir de diversos elementos, incluindo espiritualidade, redes de parentesco e formatos de ninho. As abelhas são descritas como “aparentadas” umas às outras por meio dos termos imẽna – hamirikoa (“marido – esposa”). Essas relações se estabelecem pela coabitação em uma mesma árvore, pela semelhança do mel, do comportamento, dos efeitos que causam ou da aparência.
Por exemplo, as abelhas hairaxi’ĩa e hairaxũa produzem méis de sabor similar; tataipinuhũa e tataipinỹ causam queimaduras na pele; uhua e uhupa’ỹ têm entradas de ninho parecidas. Já os ninhos dos “maridos” costumam ter formatos compridos, enquanto os das “esposas” são redondos ou em buracos de árvores.
Além disso, muitos nomes das abelhas remetem a animais da floresta, comportamentos ou características físicas. Ahairuhua (“abelha grande”), por exemplo, é de fato de grande porte e constrói ninhos volumosos; a hairaxũa (‘abelha branca’), tem listras brancas no tórax; e a tihapahaira (‘abelha do olho)’, é chamada dessa forma por ser minúscula e entrar no olho das pessoas quando elas estão andando pela floresta.
As narrativas coletadas também trouxeram à tona os Karawara, seres que, segundo os Awá, habitam os patamares celestes mas descem à terra para se alimentar do mel da floresta. Muitos dos Karawaras se alimentam do mel da floresta mesmo vivendo entre espíritos, como o Haira Jara (gente papa-mel), que abre o ninho das abelhas com o machado, ou o Warajuxa’a, que é uma borboleta-gente e que também se alimenta exclusivamente de mel. Os Awá cantam as músicas para se comunicarem com esses Karawara.
“Quando os Awá falavam das abelhas, automaticamente se falavam dos cantos dos méis, das histórias dos méis, uma parte de mitologia, uma parte de narrativas mesmo sobre histórias de lembranças. A maneira que trabalharam esse tema do mel foi muito diferente, por exemplo, do que um biólogo trabalharia. Eles trouxeram o mel, mas logo com o mel vêm outras referências que são tão ou mais importantes do que a própria espécie, do que a própria classificação, a taxonomia, que são a poética dos cantos, a memória das narrativas”, destaca Uirá Garcia.
Um livro para todos os públicos
Com fotos, narrativas de mulheres, homens e anciãos, e um cuidadoso trabalho de tradução, o Livro do Mel vai muito além de um catálogo: é um mergulho na alma Awa Guajá, na sua relação indissociável com a floresta e na potência do protagonismo indígena na produção de conhecimento.
Ao final da publicação, há uma lista detalhada, organizada pelos próprios Awá, descrevendo quais méis são inofensivos, quais inspiram atenção, e não podem ser consumidos nunca. Consumir o mel errado, na época errada da vida (infância, pós-parto, velhice), pode causar desde alergias até paralisia nas pernas.
“O Livro do Mel é fruto de uma parceria de muitas mãos, começando pelos Awa Guajá e terminando nos futuros leitores indígenas e não indígenas. Nesse percurso, encontram-se, além da linguista e do antropólogo, os narradores, ilustradores, fotógrafos, editores e financiadores. Portanto, articular todos esses atores para contribuir com a realização de parte dos anseios dos Awa Guajá me causou imensa satisfação, mas nada comparável à alegria de continuar aprendendo com eles”, descreve Marina Magalhães.
Esta publicação é um dos produtos resultantes do projeto Literatura Oral e Conhecimentos Ecológicos Tradicionais, financiado pela Fundação Firebird, e contou com apoio do Projeto Paisagens Indígenas, executado pela parceria entre o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), o Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e o Instituto Nupef, com apoio da Norway’s International Climate and Forest Initiative (NICFI).