“Essa convivência com o projeto Floresta+ nos ajudou a mudar nossa visão em relação à natureza, chamando a gente para a responsabilidade de cuidar dela. Se a terra morrer, o homem também morrerá.”
A fala é de dona Maria da Conceição Paiva, presidente da Associação do Quilombo Ponta Bonita, durante visita de técnicos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). A missão teve como objetivo conhecer os resultados do Projeto Floresta+ em comunidades quilombolas do Maranhão.
O projeto foi executado pelo ISPN, com apoio do Projeto Floresta+ Amazônia, por meio da Modalidade Comunidades, no âmbito da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT), do MMA, e do PNUD, com recursos do Fundo Verde para o Clima (GCF). A iniciativa permite que recursos internacionais obtidos a partir da redução do desmatamento retornem para comunidades que demonstram, na prática, compromisso com a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável.
Soberania alimentar e aumento da renda

Na comunidade de Ponta Bonita, houve ampliação da produção na avicultura, criação de porcos, pomares, bananais e outros cultivos. Além de fortalecer a soberania alimentar das 63 famílias, o excedente da produção passou a gerar renda para a comunidade.
No município de Anajatuba, a comunidade da Ilha do Teso recebeu uma agroindústria que vai potencializar a produção de mel. Com o funcionamento do espaço, a estimativa é que, a partir do trabalho coletivo, as famílias consigam produzir até 60 toneladas de mel.
“A minha renda era pouca só com a roça. Com o incentivo da produção de mel e a agroindústria, vamos poder melhorar a produção e deixar de vender para o atravessador. Nosso sonho é ver o nome da Ilha do Teso no rótulo do produto, sendo vendido para todo o Brasil, além dos supermercados e da alimentação escolar”, afirma José Raimundo da Silva Martins.

Na Ilha do Teso, as mulheres também começam a ocupar espaço na produção de mel, defendendo maior participação nas atividades produtivas da comunidade e nas ações de preservação da floresta.
“Sem a conservação da floresta não tem como trabalhar com a apicultura. Como mulher, a gente sempre viu os maridos trabalhando com as abelhas. Se eles podem aprender, a gente também pode. Essa oportunidade está chegando para garantir nossa autonomia também”, diz Maria Antônia Martins.

No povoado Pedrinhas, o Projeto Floresta+ impulsionou uma atividade já tradicional na comunidade: a produção de farinha. A iniciativa reformou e modernizou a casa de farinha, possibilitando aumento da produção e melhoria da qualidade do produto.
No Quilombo São Pedro, José de Ribamar Pinto dos Reis já faz planos para diversificar a produção. Ele destaca a importância dos intercâmbios promovidos durante a execução do projeto.
“O projeto trouxe muita experiência e hoje estamos caminhando com outro pensamento, com a mente mais aberta. Visitamos outras comunidades, conhecemos novas práticas e formas de cuidar da produção. Conseguimos fortalecer a avicultura e a criação de peixes. Agora já sonho em produzir juçara, banana e cupuaçu em dez hectares, trabalhando junto com a comunidade”, relata o agricultor familiar.
O Quilombo São Pedro também possui uma Escola Família Agrícola. A proposta é construir novas perspectivas para os estudantes da comunidade e arredores, incentivando os jovens a permanecerem e trabalharem no próprio território.

“Quando outro projeto chegar, que a gente tenha consciência do que é cuidar, preservar e entender que o projeto é nosso, da comunidade, e não de nenhuma instituição”, afirma Ismael Montelo Rodrigues, que reside na comunidade há muito tempo e é ex-aluno da Escola Família Agrícola. Ismael viu de perto as mudanças no Quilombo como técnico de campo do projeto Floresta + como parte da equipe do ISPN.
A implantação do Projeto Floresta+ contou ainda com a parceria de entidades representativas das comunidades, entre elas a União das Associações Quilombolas das Comunidades Remanescentes de Quilombos de Uniquituba (Uniquituba) e a Associação dos Agroprodutores Rurais do Quilombo Cariongo.
“Ouvindo os depoimentos, percebemos a empolgação dos comunitários ao relatarem o aumento da produção de pequenos animais e dos quintais produtivos. Eles não perderam sua essência, mas estão inovando e garantindo mais alimento saudável e melhoria da renda nas comunidades quilombolas”, destaca Eliane Frazão Rosa, quilombola e presidente da Uniquituba.
Quilombo Cariongo: quintais verdes e fortalecimento da identidade

No Quilombo Cariongo, no município de Santa Rita, as chuvas deixaram os quintais ainda mais verdes. Entre um quintal e outro, a diversidade da produção inclui banana, hortaliças, criação de galinhas, ervas medicinais e criatórios de peixes.
Historicamente, o quilombo enfrenta dificuldades de acesso à água potável, e muitas famílias ainda precisam comprá-la. Com o projeto, parte desse problema começou a ser solucionada com a construção de um reservatório que garantirá água para as plantações durante o período de estiagem.
“Com essa água vai dar para plantar cebola, limão e todo tipo de fruteira. Não vou mais precisar puxar carro de mão porque a água vai sair direto nas torneiras”, diz dona Maria Nazaré Teixeira, de 74 anos, nascida no Quilombo Cariongo.
Além dos quintais produtivos, o Projeto Floresta+ possibilitou a construção coletiva do Plano de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (PGTAQ) do Quilombo Cariongo, ferramenta estratégica para o fortalecimento político da comunidade. O plano amplia o diálogo entre o território, o Estado e outros agentes responsáveis pela implementação de políticas públicas.
O documento é pioneiro no Maranhão por ser o primeiro construído após o Decreto nº 11.786/2023, que institui a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola. O PGTAQ fortalece a autonomia e a capacidade de gestão territorial da comunidade, consolidando-se também como referência política, social e ambiental para outros quilombos na construção de instrumentos de planejamento e conquista de direitos.
