No próximo dia 22 de março, quando se celebra o Dia Mundial da Água, o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) se soma a organizações parceiras para reforçar um alerta urgente: o bioma Cerrado, responsável por abastecer grande parte do território brasileiro, está perdendo suas águas.
Como parte da campanha Cerrado, Coração das Águas, será realizada uma mobilização em Brasília (DF), no Eixão do Lazer (altura da 204 Norte), a partir das 10h30. A programação inclui uma roda de conversa sobre o papel estratégico do bioma na segurança hídrica e uma oficina de lambe-lambe (colagem de cartazes com a marca da campanha) aberta ao público.
O evento reúne diversas organizações socioambientalistas como ISPN, Instituto Cerrados, Rede Cerrado, Funatura, IPAM, IEB e WWF-Brasil, com o objetivo de ampliar o debate público sobre a importância do Cerrado como um verdadeiro “coração das águas”, responsável por alimentar grandes bacias hidrográficas do país.
Cerrado sob pressão
Dados recentes evidenciam a gravidade da situação. Estudo conduzido pelo pesquisador Yuri Salmona (UnB) analisou 81 bacias hidrográficas do Cerrado entre 1985 e 2022 e identificou redução da vazão em 88% delas. Segundo a Ambiental, agência de jornalismo baseado em ciência e dados, seria o equivalente a esvaziar 30 piscinas olímpicas de água por minuto desde a década de 1970. A projeção é de perda de até 35% das reservas hídricas do bioma até 2050.
A principal causa está associada às mudanças no uso da terra, especialmente ao desmatamento e à expansão da fronteira agropecuária. Segundo dados do MapBiomas, mais de 50% da vegetação nativa do Cerrado já foi suprimida.
Entre os casos mais críticos está a bacia do Rio São Francisco, cuja vazão mínima de segurança caiu pela metade nas últimas décadas. A substituição da vegetação nativa por monoculturas e pastagens tem impacto direto na recarga hídrica e na manutenção dos rios.
Além disso, o uso intensivo da água para irrigação – que representa mais da metade do consumo hídrico nacional, segundo a Agência Nacional de Águas – aumenta ainda mais a pressão sobre os recursos disponíveis.
Contaminação e impactos sociais
O cenário de escassez é agravado pela contaminação das águas. O uso intensivo de agrotóxicos no Cerrado afeta diretamente a qualidade da água e a saúde das populações locais. Comunidades tradicionais, que historicamente protegem o bioma, estão entre as mais impactadas. No Cerrado, 2.600 comunidades, distribuídas em 480 municípios, que desempenham papel central na proteção das águas e da biodiversidade.
Relatos de territórios no oeste da Bahia apontam para o desaparecimento de nascentes, redução do nível dos aquíferos e aumento de problemas de saúde associados à exposição a substâncias químicas.

Elizete Barreto, representante da comunidade de Fundo e Fecho de Pasto em Correntina, no oeste da Bahia, manifesta preocupação com a morte de nascentes na região. “Nossa comunidade está aqui há pelo menos 300 anos. Nos últimos 50, a comunidade perdeu 97% de sua extensão para a grilagem e empresas do agronegócio, e 60 nascentes já morreram”, afirma. Além do desaparecimento das nascentes, verifica-se também a redução do nível da água do lençol freático.
“A água é o sangue da terra. Assim como a gente precisa do sangue para viver, a água é o que faz brotar a vida no Cerrado. Cada árvore que é derrubada e cada nascente que morre é um pouco da gente que acaba secando também. Pensamos nas vidas que dependem daquela nascente, em toda fauna e flora que deixam de existir porque perdem sua fonte de água”, completa Elizete.
Para o ISPN, reconhecer e proteger os territórios de povos e comunidades tradicionais é uma estratégia fundamental para conservar o Cerrado. Esses grupos estão presentes em milhares de comunidades e desempenham papel central na proteção das águas e da biodiversidade.
“Sob uma perspectiva que valoriza a soberania nacional, reconhecer os territórios dos povos e das comunidades tradicionais do Cerrado é um passo estratégico para conservar a biodiversidade do bioma para a segurança hídrica e climática do país”, destaca a coordenadora do Programa Cerrado, Isabel Figueiredo.
Serrinha do Paranoá em alerta
A campanha também chama atenção para a situação da Serrinha do Paranoá, área localizada no Distrito Federal que abriga 119 nascentes e importantes remanescentes de Cerrado. A comunidade está recolhendo assinaturas aqui pela proteção permanente da Serrinha.
A possibilidade de destinação da área para fins de capitalização do Banco de Brasília, envolvido no caso de corrupção no Banco Master, levanta preocupações entre organizações socioambientais. A região integra a Área de Proteção Ambiental do Planalto Central e desempenha papel relevante na segurança hídrica do Lago Paranoá.
Cerrado, Coração das Águas
A campanha Cerrado, Coração das Águas reúne ISPN, Instituto Cerrados, Rede Cerrado, Funatura, IPAM, IIEB e WWF-Brasil. A proposta é comunicar, de forma acessível e mobilizadora, a centralidade do bioma para o equilíbrio hídrico do país.
Ao destacar o Cerrado como um “coração” que pulsa e distribui água para diferentes regiões, a campanha busca sensibilizar a sociedade sobre a urgência de proteger suas nascentes, rios e territórios.

Serviço
Roda de conversa: Do Cerrado à sua torneira – proteção integral da Serrinha do Paranoá
Data: 22 de março (domingo)
Horário: 10h30 às 12h
Local: Eixão do Lazer, Choro no Eixo, altura da 204 Norte – Brasília (DF)
Oficina de lambe-lambe – Cerrado, Coração das Águas
Horário: 12h30 às 13h30
Mesmo local
A atividade é aberta ao público e convida todas e todos a refletirem sobre o papel do Cerrado na garantia da água, hoje e no futuro.