Encerramento da mesa “Financiamento para Comunidades a partir de Soluções e Experiências Locais das Savanas e do Pantanal com Impacto Global”, mediada por Isabel Figueiredo/ISPN. Foto: Letícia Verdi/Acervo ISPN

Encerramento da mesa “Financiamento para Comunidades a partir de Soluções e Experiências Locais das Savanas e do Pantanal com Impacto Global”, mediada por Isabel Figueiredo/ISPN. Foto: Letícia Verdi/Acervo ISPN

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Por um financiamento climático justo: chamado da Casa Sul Global iniciado na COP30

Iniciativa reforça o apoio direto às soluções que já existem nos territórios, fortalecendo o financiamento climático baseado na escuta ativa, confiança mútua e solidariedade

Enfrentar a crise climática é uma questão de sobrevivência humana no planeta. Ainda assim, seus impactos não se manifestam da mesma maneira. Comunidades do Sul Global, marcadas por desigualdades históricas e por processos de exclusão econômica, social e política, são as que menos contribuíram para a intensificação da crise climática, mas estão entre as mais afetadas por seus efeitos.

Ao mesmo tempo, são essas comunidades as detentoras das soluções concretas às mudanças aceleradas. O Sul Global abriga biomas essenciais para o equilíbrio ambiental do planeta e muitos territórios tradicionais de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares, que desempenham papel fundamental na conservação da biodiversidade e no enfrentamento de eventos climáticos extremos. 

Nesse contexto, a diretora-superintendente do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Cristiane Azevedo, durante a 30ª Conferência das Partes (COP30), em Belém (PA), na Casa  Sul Global, destacou que o Sul Global carrega desigualdades econômicas e sociais fundamentadas pelo processo histórico de colonização. Essas desigualdades ainda ecoam e a reparação desse cenário precisa orientar o desenho das políticas e dos fundos climáticos. É preciso construir novos fluxos de poder e modelos que superem a burocracia tradicional, e o Sul Global se movimenta e se articula nesse sentido para transformar essa lógica.  

Cristiane Azevedo, diretora-superintendente do ISPN, durante participação em painel na Casa Sul Global na COP30. Foto: Ariel Rocha/Acervo ISPN

“As comunidades já possuem soluções prontas, baseadas na sabedoria ancestral que mantém o céu, mas esbarram em barreiras burocráticas e na ausência de estruturas que permitam que o dinheiro circule de forma justa e acessível nas plataformas e práticas de cooperação ainda hegemonizadas pelo colonialismo. A democratização do acesso aos recursos é urgente, e iniciativas como o Fundo Ecos do ISPN atuam para facilitar esse fluxo e reposicionar as populações no centro das decisões”, diz Cristiane Azevedo. 

Então, como fazer com que o financiamento climático alcance, com segurança e eficácia, as comunidades que enfrentam e respondem à crise climática em seus territórios? Esse foi um dos principais questionamentos que moveram as discussões no espaço físico da Casa Sul Global durante a COP30, entre 10 a 21 de novembro de 2025.

A Casa Sul Global é uma plataforma coletiva criada por e para o Sul Global, visando reestruturar os fluxos de recursos e as dinâmicas de poder na filantropia por clima, natureza e justiça socioambiental, impulsionando contínuas transformações, além da COP30. É fruto da articulação entre a Alianza Socioambiental Fondos del Sur e a Rede Comuá —  das quais o ISPN, com o Fundo Ecos, faz parte, juntamente com dezenas de fundos comunitários e temáticos de diferentes países da América Latina, África e Sudeste Asiático. A Rede de Fundos Comunitários da Amazônia Brasileira e o movimento #ShiftThePower foram parceiros nessa primeira edição, na COP30.

O ISPN esteve presente durante as duas semanas de atividades da Casa Sul Global somando-se aos 109 painelistas e 84 organizações que movimentaram o espaço, com um público de mais de 1,2 mil pessoas e a presença de cerca de 50 países.  

Essa foi uma importante oportunidade para demonstrar que os mecanismos tradicionais de financiamento, ainda marcados por lógicas coloniais, não conseguem responder de forma justa e eficaz às necessidades de quem protege os biomas. Por isso, é preciso seguir com a transformação da arquitetura de financiamento global para o clima, natureza e pessoas. 

Espaço físico da Casa Sul contou com o público de mais de 1,2 mil pessoas e a presença de cerca de 50 países. Foto: Ariel Rocha/Acervo ISPN

A coordenadora do Programa Sociobiodiversidade do ISPN, Silvana Bastos, destacou que os territórios são espaços de vida, cultura e cooperação, dimensões essenciais para que a agroecologia floresça. Por isso, os “eventos climáticos extremos exigem respostas rápidas e os recursos precisam acompanhar esse ritmo, o que implica reduzir burocracias e rever processos que atualmente atrasam implementar ações urgentes”, comentou. 

No chamado da COP30, momento histórico no Brasil, ficou evidente que o Sul já possui arquiteturas próprias de financiamento, baseadas na transparência, na proximidade com os territórios e na valorização das soluções locais. 

E ouvir as comunidades é uma etapa central na construção desse financiamento justo, como colocou a educadora do Fundo DEMA — fundo brasileiro de justiça socioambiental criado em 2003 —, Alline Souza Nascimento. Ela chama a atenção para como o processo de escuta nos territórios é uma ferramenta essencial para definir os focos das chamadas e as orientações de trabalho dos fundos. Para ela, as comunidades não devem ser tratadas como beneficiárias, mas sim como protagonistas e agentes de transformação, pressupondo relações mais humanizadas.

“Trabalhar com comunidades é diferente de trabalhar para comunidades. Isso implica processos decisórios horizontais, rodas de conversa nos territórios e a garantia de que sonhos, demandas e perspectivas locais se traduzam nas chamadas dos fundos. As comunidades são agentes de transformação e não apenas beneficiárias de recursos”, declarou Alline Souza Nascimento. 

As comunidades no centro das discussões, com uma arquitetura de financiamento que priorize a voz daquelas mais afetadas pelas crises climáticas, ambientais e sociais em suas instâncias de governança, é um dos pontos centrais do Manifesto da Casa Sul Global. Esse documento foi construído de maneira colaborativa entre as organizações dos fundos de diferentes países que integram essa articulação. 

É necessário que a filantropia reconheça os diferentes contextos, ritmos e realidades das comunidades. De acordo com a especialista em biodiversidade do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), Andreia de Mello Martins, o desafio consiste em reduzir os rigores sem desrespeitar as dinâmicas locais. 

“Devemos aprender a dialogar com organizações que ainda estão em processo de estruturação e evitar que exigências externas desorganizem práticas culturais e comunidades que já produzem soluções efetivas”, explica Andreia de Mello Martins. 

Para complementar a ideia, a representante do Fundo de Adaptação,  Naysa Ahuja, afirmou que “a responsabilidade das instituições financeiras é garantir que os recursos cheguem corretamente às pessoas que realmente enfrentam os efeitos da crise climática”.

Liderança indígena e agricultora familiar, Vanussa Guajajara durante a colheita em roça agroecológica na Terra Indígena Rio Pindaré, no Maranhão. Foto: Ariel Rocha/Acervo ISPN

Povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares colocam o  Sul no Centro

Embora a COP30 no Brasil tenha registrado avanços políticos importantes, como a adoção de mecanismos para implementar a Meta Global de Adaptação e o reconhecimento dos direitos indígenas como estratégias climáticas, os compromissos financeiros não tiveram uma definição clara de valores, fontes e responsabilidades. Isso significa, para o Sul Global, continuar lidando com os impactos mais severos da crise climática sem os recursos globais necessários para adaptação. 

Diante da lentidão, da burocracia e das lacunas deixadas pelas negociações multilaterais, é evidente que a reorganização dos fluxos de financiamento deve considerar modelos mais justos, eficazes e alinhados às realidades territoriais, conforme demonstrado na Casa Sul Global. 

Ao lado da fundadora do Fundo Casa, Rodrigo Noleto, coordenador do Programa Iniciativas Comunitárias do ISPN, ressaltou o Fundo Ecos como mecanismo para além do apoio financeiro. Foto: Juliana Simões/Acervo ISPN

O coordenador do Programa Iniciativas Comunitárias do ISPN, Rodrigo Noleto, ressalta o Fundo Ecos como um mecanismo para além do apoio financeiro às organizações comunitárias. “A estratégia que chega junto com o recurso financeiro contempla o fortalecimento institucional, o protagonismo comunitário, a promoção dos diálogos interinstitucionais e a geração e disseminação de conhecimentos. Isso é a expressão da nossa estratégia, que busca fortalecer um território ou uma paisagem produtiva ecossocial”, explica. 

Fundo Ecos é um desses modelos que busca fortalecer organizações e soluções comunitárias, com a valorização do protagonismo e da capacidade local de decidir e liderar suas próprias ações, a partir do financiamento de projetos socioambientais. Ao longo de mais de 30 anos de atuação, são mais de 1.000 projetos executados, com cerca de 2,6 mil organizações apoiadas e mais de 128 mil famílias envolvidas. 

Para acompanhar mais sobre o Fundo Ecos, acesse aqui e para conhecer mais sobre A Casa Sul Global, acesse aqui.

Autoria: Ariel Rocha / Assessoria de Comunicação do ISPN

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