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	<title>Arquivos agua - ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza</title>
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	<title>Arquivos agua - ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza</title>
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		<title>Indígenas conservam floresta que protege rio de 600 km no Maranhão</title>
		<link>https://ispn.org.br/noticia/indigenas-conservam-floresta-que-protege-rio-de-600-km-no-maranhao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cassio Bezerra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Apr 2024 15:50:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícia]]></category>
		<category><![CDATA[agua]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[floresta amazônica]]></category>
		<category><![CDATA[Maranhão]]></category>
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					<description><![CDATA[Estudo mostra que restam menos de 20% de Floresta Amazônica na Bacia do Rio Pindaré e que essa pequena porção conservada se encontra completamente dentro de Terras Indígenas O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pindaré (CBH &#8211; Pindaré) reuniu-se às vésperas do Dia Mundial da Água, 22 de março passado, sem motivos para comemorar. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Estudo mostra que restam menos de 20% de Floresta Amazônica na Bacia do Rio Pindaré e que essa pequena porção conservada se encontra completamente dentro de Terras Indígenas</em></p>
<p><span style="font-weight: 300;">O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pindaré (CBH &#8211; Pindaré) reuniu-se às vésperas do Dia Mundial da Água, 22 de março passado, sem motivos para comemorar. O encontro foi realizado em Viana, cidade da Baixada Maranhense, a 217 quilômetros da capital, São Luís, em meio à notícia de contaminação das águas do Rio Pindaré por níveis de fósforo acima do recomendado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que é de 0,1 mg por litro. Além disso, durante a reunião, o doutor Walter Luis Muedas Yauri, professor do Curso de Oceanografia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e membro do CBH &#8211; Pindaré, deu detalhes de estudo no qual analisa o desmatamento da Floresta Amazônica no Vale do Pindaré ao longo de 30 anos e as consequências desastrosas desse processo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">A notícia de contaminação das águas do Pindaré vem do estudo </span><i><span style="font-weight: 300;">“Aspectos Qualitativos da Água do Rio Pindaré na Amazônia Maranhense”</span></i><span style="font-weight: 300;">, publicado em 2023 por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Saiba mais na reportagem do portal  Infoamazonia: </span><a href="https://infoamazonia.org/2024/03/19/indigenas-lutam-para-salvar-rio-pindare-enquanto-obras-e-agro-contaminam-agua-com-fosforo-no-maranhao/"><i><span style="font-weight: 300;">Indígenas lutam para salvar Rio Pindaré enquanto obras e agro contaminam água com fósforo no Maranhão</span></i><span style="font-weight: 300;"> &#8211; Saiba mais AQUI </span></a></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Para além da contaminação da água, e da pressão fundiária sobre territórios indígenas, outros danos ao Rio Pindaré e às cidades e populações ribeirinhas estão destacados no estudo ainda inédito do doutor Walter Luis Muedas Yauri, resultado da sua pesquisa de pós-doutorado na Wageningen University, da Holanda. O trabalho, intitulado “O Desmatamento da Floresta Amazônica no Vale do Pindaré”, está em processo de revisão para publicação em uma revista científica. O professor Muedas, que também é representante da UFMA no Comitê, apresentou detalhes da pesquisa durante a reunião, no dia 21 de março.</span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">A partir da análise de imagens do satélite LandSat-5, da Nasa, o professor Muedas observou toda a evolução do desmatamento da floresta na região da Bacia do Rio Pindaré. As primeiras fotografias analisadas datam de 1984. Uma das conclusões do estudo é que restam menos 20% da floresta inicialmente observada, que está dividida em blocos isolados e localizados dentro das Terras Indígenas Alto Turiaçu, Awá, Caru, Rio Pindaré, Araribóia, Governador e Krikati. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 300;">“Temos menos de 20% de floresta nativa e as áreas que mais têm floresta são as áreas indígenas, porque vocês sabem que os indígenas protegem essas áreas com suas vidas. São as áreas que estão mais preservadas, digamos assim, graças aos territórios indígenas que existem dentro da Bacia do Rio Pindaré. Esse fato poderia se generalizar também às demais áreas indígenas da Amazônia, que são as áreas preservadas. Então, quando você pega os restos de floresta nas últimas fotografias tiradas pelo satélite e faz uma sobreposição de imagens, você vai ver que as manchas de floresta coincidem com as áreas de Terras Indígenas”, </span></i><span style="font-weight: 300;">explicou Muedas</span><i><span style="font-weight: 300;">.</span></i></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
<figure id="attachment_22566" aria-describedby="caption-attachment-22566" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-22566" src="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_170317-scaled-e1713366718150.jpg" alt="Rio Pindaré" width="2048" height="860" srcset="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_170317-scaled-e1713366718150.jpg 2048w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_170317-scaled-e1713366718150-300x126.jpg 300w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_170317-scaled-e1713366718150-1024x430.jpg 1024w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_170317-scaled-e1713366718150-768x323.jpg 768w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_170317-scaled-e1713366718150-1536x645.jpg 1536w" sizes="(max-width: 2048px) 100vw, 2048px" /><figcaption id="caption-attachment-22566" class="wp-caption-text">Cidade de Monção na margem ao fundo. A margem em primeiro plano fica no município de Pindaré-Mirim. Águas do Rio Pindaré durante a estiagem, em setembro de 2023 &#8211; Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN <span class="creditos-imagem">(Foto: Cássio Bezerra)</span></figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_22568" aria-describedby="caption-attachment-22568" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-22568" src="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240404_141315-1-scaled-e1713366608624.jpg" alt="Rio Pindaré em Pindaré-Mirim" width="2048" height="863" srcset="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240404_141315-1-scaled-e1713366608624.jpg 2048w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240404_141315-1-scaled-e1713366608624-300x126.jpg 300w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240404_141315-1-scaled-e1713366608624-1024x432.jpg 1024w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240404_141315-1-scaled-e1713366608624-768x324.jpg 768w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240404_141315-1-scaled-e1713366608624-1536x647.jpg 1536w" sizes="(max-width: 2048px) 100vw, 2048px" /><figcaption id="caption-attachment-22568" class="wp-caption-text">Cidade de Pindaré-Mirim na margem ao fundo. Águas do Rio Pindaré durante a cheia, em abril de 2024 &#8211; Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN <span class="creditos-imagem">(Foto: Cássio Bezerra)</span></figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 300;">A reunião do CBH  Pindaré foi realizada no Fórum de Justiça de Viana, que é um dos mais de 30 municípios que a Bacia do Rio Pindaré abrange. Com seu curso de aproximadamente 600 km, o Rio Pindaré é fundamental para uma população de centenas de milhares de pessoas no Maranhão. E, apesar disso, como reforça o estudo do professor Moedas, apenas os povos indígenas, efetivamente, conservam a floresta que mantém o Rio Pindaré vivo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Na verdade, os indígenas fazem a proteção ativa e sistemática da floresta. Na Terra Indígena Caru, em Bom Jardim, um grupo de 40 homens Guajajara faz o monitoramento do território para combater desde o desmatamento feito por madeireiros e invasores e também a caça, a pesca predatória e até mesmo o cultivo de maconha por traficantes. O Guardiões da Floresta existe desde 2013. </span><i><span style="font-weight: 300;">“Nós estamos há 11 anos nessa organização, dos Guardiões, mas a luta já vem há muito tempo. Nós sempre fizemos esse trabalho de proteger, de lutar contra o desmatamento”</span></i><span style="font-weight: 300;">, afirma Cláudio José da Silva, um dos fundadores e coordenador geral dos Guardiões da Floresta da Terra Caru. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Os Guardiões realizam expedições para verificar a presença de invasores ou de atividades ilícitas dentro do território indígena e, se necessário, acionam os órgãos competentes. “O nosso trabalho é de monitoramento e vigilância. Um trabalho de ver os ilícitos que estão acontecendo dentro do território e colocar num levantamento as regiões onde isso mais acontece . Dependendo da gravidade, a gente faz um relatório e envia para Polícia Federal, para a Funai, Ibama”, explica Cláudio da Silva. Ele avalia que alguns problemas ainda persistem, principalmente, a ação de caçadores e pescadores, mas que o desmatamento da floresta diminuiu, drasticamente, e as invasões, praticamente, cessaram, depois do trabalho dos Guardiões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Na Terra Rio Pindaré, também em Bom Jardim, onde há outro grupo de Guardiões da Floresta, com 24 homens Guajajara, os resultados são ainda mais evidentes com a recuperação da fauna e da flora. Márcio Brito Silva Guajajara, da Aldeia Novo Planeta, coordenador de equipe dos Guardiões, enumera vários pontos positivos do trabalho de monitoramento do território e inibição de invasores, caçadores e pescadores. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 300;"><em>“A gente vê o aumento populacional das aves. O aumento também das caças que têm se multiplicado. Os lagos também não têm secado, como antigamente. Até uns três anos atrás, eles secavam devido ao desmatamento em volta, ao fogo, às queimadas. Isso a gente tá vendo na Rio Pindaré. Recentemente, acho que em 2018, a gente fez um diagnóstico florestal e viu também que a mata tá voltando. Isso é resultado da vigilância, do monitoramento do nosso território”,</em> avalia Márcio Guajajara. </span></p></blockquote>
<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-22563" src="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240311_074545-scaled-e1713367526411.jpg" alt="Rio Pindaré - aldeia Januária" width="2048" height="863" srcset="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240311_074545-scaled-e1713367526411.jpg 2048w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240311_074545-scaled-e1713367526411-300x126.jpg 300w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240311_074545-scaled-e1713367526411-1024x432.jpg 1024w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240311_074545-scaled-e1713367526411-768x324.jpg 768w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240311_074545-scaled-e1713367526411-1536x647.jpg 1536w" sizes="(max-width: 2048px) 100vw, 2048px" /><div class="creditos-imagem">(Foto: Cássio Bezerra)</div></p>
<p>Ação dos Guardiões da Floresta na Aldeia Januária, Terra Indígena Rio Pindaré, em Bom Jardim, para retirada de redes de pesca ilegal, durante o período da piracema, com apoio da Funai e da Força Nacional, em 11 de março de 2024 &#8211; Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN<span style="font-weight: 300;">Contudo, o Rio Pindaré continua dando sinais de que não está bem. </span><i><span style="font-weight: 300;">“A gente observa que há várias mudanças no Rio Pindaré, inclusive, que alguns tipos de peixes estão ausentes por conta de todo esse desmatamento no entorno [fora das Terras Indígenas] e dos empreendimentos que contribuem para a devastação ao redor e dentro do próprio rio”</span></i><span style="font-weight: 300;">, afirma Taynara Caragiu Guajajara, da Aldeia Januária, Terra Indígena Rio Pindaré, representante da Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA) no CBH &#8211; Pindaré. </span></p>
<p><span style="font-weight: 600;">O desmatamento ao longo do tempo</span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">O professor Walter Muedas alerta que esses blocos remanescentes de floresta conservada nas Terras Indígenas precisam ser reconectados ou continuarão ameaçados. Ele defende ainda a criação de corredores ecológicos na Bacia Hidrográfica para interligar o que resta da vegetação nativa. Em sua pesquisa, o professor analisou como se deu o processo de desmatamento e suas consequências para o meio ambiente e para a população da Bacia do Rio Pindaré. “</span><i><span style="font-weight: 300;">Dentro desse âmbito geográfico enorme [a Bacia do Rio Pindaré], se determina quais são as macro influências que trazem como consequência o desmatamento ao longo de 30 anos”</span></i><span style="font-weight: 300;">, explica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">A principal origem do desmatamento desde 1984, ou a principal macro influência para o desmatamento, conforme o professor Muedas, foi a abertura da Estrada de Ferro Carajás e, em seguida, a alimentação dos altos fornos das indústrias siderúrgicas de ferro gusa. Principal matéria-prima do aço, o ferro gusa é o ferro fundido que resulta do beneficiamento do minério de ferro. Para a produção do ferro gusa são necessárias grandes quantidades de carvão e ar quente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Nesse processo de desmatamento,  a madeira de lei era retirada da floresta e vendida, enquanto a mata secundária virava carvão para alimentar as guseiras. A indústria siderúrgica chegou à Bacia do Pindaré na década de 80, no município de Açailândia, para transformar o minério de ferro vindo do Pará em ferro gusa, o qual sempre foi exportado para produção de aço em outros países. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_22567" aria-describedby="caption-attachment-22567" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22567" src="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_174525-scaled-e1713366656870.jpg" alt="Rio Pindaré" width="2048" height="866" srcset="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_174525-scaled-e1713366656870.jpg 2048w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_174525-scaled-e1713366656870-300x127.jpg 300w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_174525-scaled-e1713366656870-1024x433.jpg 1024w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_174525-scaled-e1713366656870-768x325.jpg 768w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20230916_174525-scaled-e1713366656870-1536x650.jpg 1536w" sizes="(max-width: 2048px) 100vw, 2048px" /><figcaption id="caption-attachment-22567" class="wp-caption-text">Rio Pindaré, no município de Pindaré-mirim, nas proximidades do assentamento Novo Pindaré. Registro da estiagem, em setembro de 2023 &#8211; Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN <span class="creditos-imagem">(Foto: Cássio Bezerra)</span></figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 300;">Depois de devastada, parte da floresta foi substituída pelo pasto e pelo gado. Hoje, o Maranhão é grande produtor de gado, mas a substituição da vegetação amazônica pela atividade pecuária trouxe consequências desastrosas sobre as cidades e as populações ribeirinhas. Esse processo causou a lixiviação do solo, que é a retirada de nutrientes pela ação da água em áreas sem cobertura vegetal. O carreamento desse material orgânico e fértil provocou o assoreamento do Rio Pindaré, que perdeu profundidade e se tornou mais largo. Como consequência, o rio deixou de ser navegável e as cheias nas estações chuvosas passaram a provocar inundações nas cidades. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">A salinização de mananciais de água doce é outra consequência desse processo de desmatamento da floresta e assessoramento do  Pindaré, que desemboca no Oceano Atlântico, no Golfão Maranhense. Conforme Muedas, as macro marés, típicas do Golfão, com mais de seis metros de amplitude, passaram a introduzir mais água salgada rio adentro, o que afetou, por exemplo, os lagos de Viana, onde o cultivo tradicional de arroz ficou prejudicado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">As guseiras continuaram funcionando e, onde a floresta não foi substituída por pasto e gado, foram cultivadas plantações de eucalipto para alimentar de carvão as siderúrgicas. Espécie exótica, o eucalipto também causa danos ao Bioma Amazônico por ser completamente desconhecido da fauna nativa. </span><i><span style="font-weight: 300;">“O eucalipto é uma planta originária da Austrália e ela é totalmente desconhecida pela fauna local, de maneira que, se você for visitar uma floresta de eucaliptos, existe um silêncio, um deserto; sem animais, sem pássaros, nem sequer insetos. Daí a necessidade de fazermos programas dentro do Comitê da Bacia do Pindaré para o reflorestamento dessas áreas. Sem a floresta, o rio não sobreviverá”</span></i><span style="font-weight: 300;">. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_22573" aria-describedby="caption-attachment-22573" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22573" src="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/eucalipto-scaled-e1713367823310.jpg" alt="Eucalipto - Bacia do Pindaré" width="2048" height="924" /><figcaption id="caption-attachment-22573" class="wp-caption-text">Plantação de Eucalipto no município de Buriticupu, na Região da Bacia do Rio Pindaré, em novembro de 2023 &#8211; Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 600;">Bacias independentes</span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Outra conclusão do estudo do professor Muedas é relativa à ligação da Bacia do Rio Pindaré com a Bacia do Rio Mearim, outro importante rio maranhense. No site do Núcleo Geoambiental da Universidade Estadual do Maranhão (NUGEO/UEMA),  não consta a Bacia Hidrográfica do Pindaré (</span><a href="https://www.nugeo.uema.br/?page_id=233"><span style="font-weight: 300;">https://www.nugeo.uema.br/?page_id=233</span></a><span style="font-weight: 300;">). O site do NUGEO mostra a Bacia do Rio Mearim, a maior bacia hidrográfica do Estado, e o Rio Pindaré aparece como afluente do Mearim. O professor Muedas discorda dessa configuração: </span><i><span style="font-weight: 300;">“Com esse trabalho, a gente viu que, realmente, se tratam de duas bacias independentes, que apenas se unem no seu trecho final, na saída para a Baía de São Marcos”</span></i><span style="font-weight: 300;">, afirma. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">O presidente do CBH &#8211; Pindaré, Nonato Moraes, informou que o Comitê iniciou um processo de desmembramento da Bacia do Pindaré da Bacia do Mearim, em termos burocráticos. </span><i><span style="font-weight: 300;">“Nós procuramos a UEMA e vamos à Assembleia Legislativa para conversar com a Comissão de Meio Ambiente e cumprir tudo que for necessário para que a Bacia do Pindaré seja reconhecida como independente da Bacia do Mearim”</span></i><span style="font-weight: 300;">, afirmou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Os Comitês de Bacias Hidrográficas são órgãos colegiados consultivos e deliberativos empenhados na construção de políticas públicas para os recursos hídricos e que possuem também a função de garantir a participação da sociedade civil organizada nesse processo. O ISPN integra o CBH &#8211; Pindaré. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 300;">“O acompanhamento do ISPN nas discussões da Bacia Hidrográfica do Pindaré vem ocorrendo desde 2019, quando, no planejamento estratégico, elegemos como prioridade essa temática, dada a importância dessa Bacia para o Maranhão e para os povos e comunidades tradicionais com as quais nos relacionamos. Desde então, temos acompanhado as discussões e agendas, bem como, estimulado e apoiado a participação dos povos indígenas da região do vale do Pindaré”</span></i><span style="font-weight: 300;">, explica a coordenadora do Programa Maranhão do ISPN, Ruthiane Pereira. </span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 300;">O ISPN executa o Plano Básico Ambiental do Componente Indígena Awá e Guajajara (PBA &#8211; CI) da duplicação da Estrada de Ferro Carajás (EFC), empreendimento da mineradora Vale. O cumprimento do PBA-CI é uma obrigação da Vale cujo objetivo é mitigar impactos dentre os que o professor Muedas cita em seu estudo. Isso ocorre por meio do planejamento de ações para o gerenciamento das questões ambientais relativas à EFC. A preparação e execução do PBA-CI também é condição para a emissão da licença de instalação e operação do empreendimento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">Entre os subprogramas previstos no PBA-CI da Ferrovia Carajás está o de Proteção Territorial das Terras Indígenas Alto Turiaçu, Awá, Caru e Rio Pindaré que, desde 2016, ajuda as comunidades indígenas a encontrar soluções para monitorar e preservar os limites de seus territórios. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">O subprograma atua com o protagonismo dos indígenas. Apoia, por exemplo, o grupo Guardiões da Floresta no planejamento de ações nas áreas mais pressionadas por invasores, caçadores, pescadores, fazendeiros, etc.  Nas Terras Indígenas Caru e Rio Pindaré, também apoia as Campanhas de Sensibilização do Entorno, atividade idealizada pelo grupo de mulheres Guerreiras da Floresta, similar aos Guardiões, para conscientizar comunidades situadas nos limites da Terra Indígena. As Campanhas de Sensibilização levam palestras educativas e informativas sobre os povos indígenas e a conservação do meio ambiente, o que aproxima indígenas e não indígenas, reduz conflitos e protege o território. As Campanhas de Sensibilização contam sempre com a participação de órgãos como FUNAI, ICMBio, Polícia Militar, entre outros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">O subprograma também organiza capacitações em Proteção Territorial, realiza diagnósticos ambientais e apoia o transporte para atividades dentro e fora dos territórios. Para o antropólogo Pedro Maciel, que é coordenador do subprograma de Proteção Territorial do PBA-CI e representante do ISPN no CBH &#8211; Pindaré, a participação dos indígenas no Comitê é fundamental para a preservação das águas do Rio Pindaré.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 300;">“A gente trabalha com povos indígenas que vivem, sobrevivem, cuidam e protegem o Rio Pindaré. Então, nós também fortalecemos a participação dos indígenas nas decisões e discussões sobre os recursos do rio; na tentativa de defender seus territórios e proteger a fauna e a flora, que também protegem esse rio”</span></i><span style="font-weight: 300;">, afirma Maciel. </span></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 600;">Dia Mundial da Água</span></p>
<p><span style="font-weight: 300;">O encontro do CBH &#8211; Pindaré também fez referência ao Dia Mundial da Água, 22 de março, e reuniu, além dos seus membros, estudantes de ensino médio, professores, representantes de organizações não governamentais, servidores públicos, Ministério Público Estadual e Defensoria Pública. </span></p>
<figure id="attachment_22570" aria-describedby="caption-attachment-22570" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22570" src="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240321_115631-scaled-e1713366470123.jpg" alt="Reunião do CBH do Rio Pindaré" width="2048" height="866" srcset="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240321_115631-scaled-e1713366470123.jpg 2048w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240321_115631-scaled-e1713366470123-300x127.jpg 300w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240321_115631-scaled-e1713366470123-1024x433.jpg 1024w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240321_115631-scaled-e1713366470123-768x325.jpg 768w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20240321_115631-scaled-e1713366470123-1536x650.jpg 1536w" sizes="(max-width: 2048px) 100vw, 2048px" /><figcaption id="caption-attachment-22570" class="wp-caption-text">Reunião do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pindaré no auditório do Fórum de Justiça de Viana, em 21 de março &#8211; Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN <span class="creditos-imagem">(Foto: Cássio Bezerra)</span></figcaption></figure>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 300;">“O rio atravessa diversos municípios, diversas comunidades e dentro deles a gente vê muita exploração da floresta, a exploração da pesca predatória. Seria importante, exatamente, essas reuniões com participação popular para conscientizar essas comunidades que dali sai a sobrevivência deles e de todos. Se você fizer essa exploração de forma sustentável, seria muito mais produtivo para todo o mundo. Mas não só a população ribeirinha ou a pesca. A gente sabe que no meio desse percurso há as grandes fazendas, há a exploração de alguns tipos de cultura e que muitas vezes é usada tanto para devastar, como para plantar vegetação que não é nativa, com uso de irrigação de forma inadequada”</span></i><span style="font-weight: 300;">, comentou a promotora de justiça, Lays Gabriella Pedrosa Souza. </span></p>
<p>O presidente do CBH &#8211; Pindaré, Nonato Moraes, reforçou a importância de se encontrar formas de levar políticas públicas à população da Região da Bacia do Pindaré.</p>
<p><i>“A nossa ideia é construir uma expedição para conhecer a real situação do Rio Pindaré, como é que estão as águas, mas também como é que está quem vive na Bacia do Pindaré; porque a Bacia do Pindaré não é só o Rio, é a população também. Então, a gente tem que saber como é que está a saúde nessa bacia, a educação, o saneamento básico – o esgoto que geralmente é jogado dentro do rio –; como é que está a cultura, essa coisa do ‘eu não tenho nada a ver com isso’, como a gente pode mudar isso”</i>.</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 300;">Nonato Moraes, que é servidor do Poder Judiciário em Viana, ressalta a necessidade de produção de mais conhecimento sobre a Bacia do Rio Pindaré e reconhece o papel fundamental dos povos indígenas.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 300;">“O estudo do professor Walter Moedas constatou que só existe floresta nas Terras Indígenas e onde não tem Terra Indígena está tudo devastado. Então, constata-se, também, a importância dos povos indígenas nessa luta pela recuperação e preservação do meio ambiente”, disse Nonato Moraes.</span></i></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22565" src="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20231006_171436-scaled-e1713366764508.jpg" alt="Rio Pindaré - Praia do Açucar" width="2048" height="856" srcset="https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20231006_171436-scaled-e1713366764508.jpg 2048w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20231006_171436-scaled-e1713366764508-300x125.jpg 300w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20231006_171436-scaled-e1713366764508-1024x428.jpg 1024w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20231006_171436-scaled-e1713366764508-768x321.jpg 768w, https://ispn.org.br/wp-content/uploads/2024/04/IMG_20231006_171436-scaled-e1713366764508-1536x642.jpg 1536w" sizes="(max-width: 2048px) 100vw, 2048px" /><div class="creditos-imagem">(Foto: Cássio Bezerra)</div><span style="font-size: 14px;">Praia do Açúcar, na cidade de Pindaré-mirim, outubro de 2023 &#8211; Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 300;">Para os indígenas, o Rio Pindaré representa muito mais do que uma fonte de sobrevivência. Venerar o rio e a floresta, dar o devido valor à natureza, é a grande lição que os não indígenas precisam aprender, se quiserem construir um futuro sustentável.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 300;">“O Rio Pindaré foi um rio em que se via fartura de peixes, que a água era de boa qualidade e hoje, infelizmente, com tantas violências contra a natureza, contra as matas ciliares, ele se encontra pedindo socorro. O rio representa história para o Povo Guajajara, representa a vida e nos fortalece espiritualmente. Falar da Terra Indígena Rio Pindaré, da Aldeia Januária, dos povos que ali habitam, é falar do Rio Pindaré”</span></i><span style="font-weight: 300;">, afirma Taynara Caragiu Guajajara.</span></p></blockquote>
<p style="text-align: left;"><em>Publicado também no <a href="https://oeco.org.br/reportagens/indigenas-conservam-floresta-que-protege-rio-de-600-km-no-maranhao/">site ((o))eco, no dia 16 de abril.</a></em></p>
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		<title>Cerrado pode perder um terço da água, aponta estudo</title>
		<link>https://ispn.org.br/noticia/cerrado-pode-perder-um-terco-da-agua-aponta-estudo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[camila@ispn.org.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Nov 2022 12:17:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícia]]></category>
		<category><![CDATA[agua]]></category>
		<category><![CDATA[Cerrado]]></category>
		<category><![CDATA[Desmatamento]]></category>
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					<description><![CDATA[Desmatamento para monocultura e pastagem é o principal responsável pela diminuição de 34% da vazão dos rios até 2050 No Cerrado, 93% das bacias podem ter redução na disponibilidade de água, é o que aponta o estudo The heavy impact of deforestation and climate change on the streamflows of the Brazilian Cerrado biome and a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4><i>Desmatamento para monocultura e pastagem é o principal responsável pela diminuição de 34% da vazão dos rios até 2050</i></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">No Cerrado, 93% das bacias podem ter redução na disponibilidade de água, é o que aponta o estudo </span><i><span style="font-weight: 400;">The heavy impact of deforestation and climate change on the streamflows of the Brazilian Cerrado biome and a worrying future</span></i><span style="font-weight: 400;">, apoiado pelo ISPN. Segundo a pesquisa, o bioma pode perder 34% da sua vazão de água nos próximos 28 anos. O estudo em fase de revisão pela revista científica </span><i><span style="font-weight: 400;">Sustainability, </span></i><span style="font-weight: 400;">concluiu que o desmatamento é a principal causa dessa diminuição, responsável por 56% do impacto. Podem ser perdidos 23.653 m³/s até 2050, só nos rios analisados no estudo, essa perda equivale à vazão de oito rios Nilo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A situação é motivo de preocupação local, nacional e global. Os recursos hídricos do bioma estão cada vez mais escassos localmente e já apresentam perda de 15,4% da vazão dos rios. Ainda assim, água segue sendo exportada para China, União Europeia e Estados Unidos em forma de “água virtual”, ou seja, água consumida na produção dos grãos e carne (</span><i><span style="font-weight: 400;">commodities</span></i><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A pesquisa analisou o comportamento de 81 bacias hidrográficas no Cerrado, em um período entre 1985 e 2022. Destas, 88% já apresentam diminuição da vazão devido às intensas mudanças do uso do solo na área de abrangência da bacia hidrográfica. O número alto indica tendência sistêmica de escassez de água e ampliação do estresse hídrico até 2050 em especial ocasionado pela ocupação agropecuária de larga escala, o agronegócio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo chama atenção para as mudanças no uso da terra pela expansão da agricultura e de pastagens, responsável por cerca de 46% da emissão de gases de efeito estufa (GEE) do país, o que é um dos fatores de impacto do agronegócio nas mudanças climáticas. Impacto esse que retorna, intensificando secas e impactando a própria agricultura e ampliando conflitos por água.</span></p>
<p><b>Mudança na governança das águas</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A principal conclusão da análise é que a expansão da agricultura para </span><i><span style="font-weight: 400;">commodities </span></i><span style="font-weight: 400;">e a escassez de água estão intrinsecamente ligadas. Yuri Salmona, geógrafo, doutor em Ciências Florestais pela Universidade de Brasília e responsável pela pesquisa, comenta que o aumento da exportação de </span><i><span style="font-weight: 400;">commodities </span></i><span style="font-weight: 400;">que consomem água mudou a governança das águas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Os controles local, regional e nacional das águas do Cerrado foram substituídos por atores que dominam a cadeia global de produtos agropecuários”, diz o especialista. Isso significa que a água do rio, em vez de beneficiar as comunidades locais ou a população brasileira, está sendo controlada por empresas do agronegócio que desviam o fluxo hídrico para irrigação e enviam água para importadores em forma de </span><i><span style="font-weight: 400;">commodities</span></i><span style="font-weight: 400;">. Salmona indica que o uso da água para produção agrícola no Brasil tem que ser monitorada e avaliada com rigor por órgãos governamentais que garantam o interesse coletivo em detrimentos a interesses particulares. </span></p>
<p><b>Mudanças climáticas</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar das mudanças no clima também interferirem na redução da vazão dos rios, a pesquisa mostra que o desmatamento é o grande fator isolado que interfere na segurança hídrica. Por meio de testes estatísticos, modelagens validadas e repetidas checagens para mapear a oscilação da vazão dos rios ao longo do tempo, Salmona e seus colegas conseguiram estabelecer projeções para as próximas décadas e analisá-las a partir do isolamento dos efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. O resultado mostrou que as mudanças climáticas contribuíram com 43% da redução da vazão, menos que o desmatamento, responsável por 56% do impacto negativo nas águas. E modelagens futuras produzidas pelo estudo indicam que o papel do uso do solo na redução da vazão dos rios do Cerrado deve ter peso ainda maior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa conclusão foi alcançada a partir da observação do aumento da evapotranspiração potencial, associado ao aumento de temperatura e de radiação. Apesar de as mudanças climáticas terem sido sentidas com mais intensidade durante o período de seca, foi possível constatar que as alterações  no regime de  chuvas, não são protagonistas na redução das vazões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Yuri Salmona comenta que o uso indevido do solo para a exploração agropecuária intensifica as consequências negativas da mudança no clima. “A gente está sobrepondo efeitos negativos às mudanças climáticas, por meio da ampliação do desmatamento e sobre uso da água para irrigar plantações em larga escala, estamos jogando contra nós mesmos. Estamos perdendo a chance de mitigar os efeitos do desequilíbrio climático e estamos aumentando  a preocupação com a disponibilidade de água ”, lamenta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo a </span><a href="https://www.snirh.gov.br/portal/centrais-de-conteudos/conjuntura-dos-recursos-hidricos/informe_conjuntura_2018.pdf"><span style="font-weight: 400;">Agência Nacional de Águas</span></a><span style="font-weight: 400;">, com base na conjuntura dos recursos hídricos no Brasil de 2018, 68% do consumo de água é feito pela agricultura. Somada à pecuária, 80% da água está comprometida ao agronegócio, que por si só, de acordo com o </span><a href="https://mapbiomas.org/desmatamento-em-2021-aumentou-20-com-crescimento-em-todos-os-biomas-1"><span style="font-weight: 400;">Mapbiomas</span></a><span style="font-weight: 400;">, é responsável por 97% do desmatamento no Cerrado, principal emissor de carbono no país. </span></p>
<p><b>Conflitos socioambientais e monopólio da água</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das bacias analisadas, três rios apresentam casos emblemáticos cuja mudança de padrão da vazão se deu a partir de 1997. São eles o Rio Arrojado (BA), Rio de Ondas (BA) e Rio Corda (MA). Este último, cuja situação é a pior de todas, pode se tornar intermitente nos próximos anos se o ritmo do desmatamento seguir o ritmo atual. Os três rios abastecem comunidades tradicionais da região, mas também, o agronegócio que ocupa imensas áreas nestes territórios do MATOPIBA, sigla que define a porção de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Por lá, o número de conflitos por água segue uma crescente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No oeste da Bahia, por exemplo, desde de 2012 a indústria do agronegócio teve acesso irrestrito à água, em uma região de aumento da escassez e piora de conflitos sociais por insegurança hídrica. Lá, o setor tem avançado sobre rios que abastecem e territórios que abrigam comunidades de fecho de pasto, geraizeiros, agricultores familiares e pescadores com o objetivo de expandir plantações, gerando revoltas e protestos da população.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo uma </span><a href="https://apublica.org/2021/12/os-privilegiados-com-a-agua-do-cerrado-baiano/"><span style="font-weight: 400;">investigação da Agência Pública</span></a><span style="font-weight: 400;">, no oeste baiano, o agronegócio capta 1,8 bilhão de litros de água por dia de maneira gratuita. Esse volume de água é o suficiente para abastecer cerca de 11,8 milhões de brasileiros, população maior que a de 22 estados brasileiros e do Distrito Federal. Parte dessa água é captada por meio de barramentos em riachos e veredas, captação direta de rios e por meio de poços que acessam água subterrânea que compõem o aquífero Urucuia.</span></p>
<p><b>Importância hídrica e energética do Cerrado</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conhecido como “berço das águas”, o bioma abriga nascentes de 8 das 12 bacias hidrográficas mais importantes do país e o segundo maior reservatório subterrâneo de água do mundo, que são os aquíferos Guarani e Urucuia. Além disso, fornece 70% da água do Rio São Francisco, que abastece a região Nordeste brasileira, e 47% da água do Rio Paraná, que abastece a hidrelétrica de Itaipu. Suas águas são importantes também para Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de saciar a sede, a ausência de água interfere diretamente na disponibilidade de energia elétrica no Brasil, cuja matriz energética é baseada nas hidroelétricas. Para Yuri Salmona, o futuro é preocupante. “Nossa análise indica que estamos abraçando um futuro de incertezas com relação à disponibilidade de água no bioma Cerrado. Os dados nos permitem prever uma diminuição crítica da disponibilidade de água e, consequentemente, aumento de conflitos por água”, afirma. Para o pesquisador, os mais prejudicados serão as comunidades tradicionais locais, mas também o próprio agronegócio e grande parte da população brasileira, que depende das águas do Cerrado.</span></p>
<p><b>Necessidade de conservação</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apoiador da pesquisa, o ISPN destaca a necessidade de implementação de políticas públicas específicas para o bioma Cerrado, que garantam a conservação ambiental e a proteção dos povos guardiões. O assessor de políticas públicas do Instituto, Guilherme Eidt, destaca que o Cerrado corre risco e precisa de atenção tanto quanto a Amazônia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Cerrado em pé é fundamental para a garantia de segurança alimentar, segurança hídrica, segurança energética, segurança climática global e manutenção da sociobiodiversidade. Os povos, as comunidades tradicionais e agricultores familiares são essenciais para a conservação do meio ambiente e equilíbrio climático”, aponta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Eidt, é preciso valorizar os biomas não florestais e estimular uma política de transparência na cadeia de </span><i><span style="font-weight: 400;">commodities</span></i><span style="font-weight: 400;">, que permita rastrear os produtos até a origem. O advogado acrescenta ainda que os países importadores e legislações internacionais são tão importantes e responsáveis quanto o Brasil nesta tarefa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“É importante que a normativa europeia garanta a inclusão de outros ecossistemas naturais no seu escopo. O Parlamento Europeu aprovou um texto ambicioso que deve ser garantido no diálogo com as demais instituições europeias. Acreditamos em um outro modelo de desenvolvimento, que gere renda com conservação ambiental”, finaliza Eidt.</span></p>
<p><em>Foto: Acervo ISPN/Thomas Bauer</em></p>
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