Há diversas gerações, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares conectam experiências sustentáveis à conservação ambiental, o que pode significar muito para superarmos crises, como a gerada pela pandemia da COVID-19

Foto: acervo ISPN/Peter Caton

Proteção de nascentes, plantio de árvores, cultivos sem o uso de agrotóxicos e distribuição de sementes são algumas das práticas de agricultores familiares, indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, pescadores artesanais e tantos outros povos e comunidades tradicionais que, há gerações, aprenderam a conviver de maneira harmoniosa com o meio ambiente. Desconhecidos por grande parte da população brasileira, muitos desses povos do campo contam com o apoio de iniciativas que valorizam seus modos de vida, o que contribui para que permaneçam em seus territórios e continuem atuando pela proteção da biodiversidade. E é por esse caminho que podemos encontrar respostas para superarmos crises sanitárias como a atual.

Povos, Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares: quem são?

De acordo com a Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, instituída pelo decreto 6.040 de 2007, esses são “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos por tradição”.

A agricultura familiar, por sua vez, é feita por mão de obra essencialmente formada pelo núcleo familiar. Ao conversar com um agricultor ou agricultora, você irá descobrir que, provavelmente, seus pais, tios, avós, bisavós e tataravós também praticavam esse tipo de atividade, conectando gerações. E é bonito perceber que praticamente todos os povos e comunidades tradicionais também praticam essa forma de produção que acompanha gerações.

Conhecimentos pela vida, proteção pela natureza

No Cerrado, na Caatinga, na Amazônia e em qualquer outro bioma brasileiro, estão essas pessoas que possuem modos de vida próprios, bem diferente de muitos centros urbanos, e que, por isso mesmo, têm muito o que nos ensinar. O aprendizado com seus antepassados e a relação intrínseca com a natureza fizeram com que esses grupos desenvolvessem práticas que respeitam e conservam o meio ambiente ao mesmo tempo que utilizam seus recursos para sobreviverem. Na biodiversidade, agricultores e povos e comunidades tradicionais (PCTAFs) encontram alimentação, moradia, remédios e tradições culturais.

No Cerrado goiano, a comunidade da quilombola e especialista em fitoterápicos e curas tradicionais, Lucely Morais Pio, desvenda uma verdadeira farmácia. Ela conta que a casca do ipê roxo, por exemplo, é usada para curar infecções, já a do Jatobá serve para fortalecer a imunidade, além de ser um importante expectorante no tratamento de tosses com secreção. A planta guaco, também bastante utilizada pelos quilombolas, ajuda no combate à bronquite, gripe, rouquidão, infecção na garganta e tosse; e a assa peixe, que pode ser preparada como se fosse realmente um peixe, contribui no tratamento da pneumonia, além de ser rica em ômega 3.

Lucely herdou de seus avós muitos desses conhecimentos, que por sua vez aprenderam com seu tataravô a fazer o uso da biodiversidade de maneira responsável e para o bem da comunidade. A quilombola também faz parte da Associação Pacari, rede formada por organizações comunitárias e que, por meio do uso sustentável do Cerrado, praticam a medicina tradicional. O aprendizado com seus antepassados e o fortalecimento dele junto a Pacari fazem de Lucely mais uma voz em defesa da savana brasileira. “Precisamos usar de forma sustentável o Cerrado, pois nossos remédios naturais saem de plantas endêmicas e da diversidade que o bioma traz, ele é muito importante para a vida da gente”, salienta.

Lucely é quilombola e aprendeu com seus antepassados a força das plantas medicinais do Cerrado.

Assim como a sabedoria tradicional de Lucely esclarece a importância do meio ambiente para contribuir com a saúde de sua comunidade, o doutor em Ciências Biológicas e Molecular e professor na Universidade de São Paulo (USP), Marcos Buckeridge, pontua a importância da valorização e proteção da biodiversidade para pesquisas que nos forneçam medicamentos essenciais para a saúde da população. “Muitas plantas do Cerrado apresentam capacidade enorme de produção de compostos químicos. Muitas delas poderiam, hoje, ser usadas como fitoterápicos que amenizassem os efeitos da COVID-19 ou então como base para rapidamente desenhar novos fármacos que ajudassem a interferir mais fortemente no processo de entrada do vírus nas células”, comenta.

Para Buckeridge, se pensarmos no futuro, a biodiversidade é a maior riqueza que um país poderá ter. E nas práticas do geraizeiro Samuel Caetano e sua comunidade, localizada em Minas Gerais, encontramos a proteção dessa biodiversidade. Samuel explica que aprendeu com seus antepassados como aproveitar o que o meio ambiente oferece sem prejudicar seus recursos naturais. “A gente aprendeu, através de conhecimentos seculares, a viver de forma harmoniosa com o Cerrado. Então, por exemplo, se existem áreas muito vulneráveis, como as nascentes de beira de rio, já sabemos que ali não podemos fazer intervenções, temos sim que proteger”.

Kunity Panará, do povo indígena Panará, comunga da mesma fala de Samuel, “a gente tem formas de viver que não precisam prejudicar a Amazônia e nem acabar com o nosso território, que é onde a gente vive”, conta. Segundo estudos científicos*, mesmo rodeadas por forte pressão, as terras indígenas são as que conseguem bloquear de forma mais eficiente o desmatamento, seguidas das Unidades de Conservação de Proteção Integral e as de Uso Sustentável.

Paisagens conservadas, populações fortalecidas

Por meio da estratégia do ISPN para a promoção de Paisagens Produtivas Ecossociais (PPP-ECOS), os Panará, etnia de Kunity, receberão apoio para um projeto comunitário ecossocial que potencializa o trabalho de proteção da natureza desenvolvido por eles e seus antepassados. Com a iniciativa, o grupo poderá fortalecer atividades produtivas como coleta, manejo e comercialização do fruto cumaru, assim como a produção e comercialização do artesanato feito pelas mulheres da aldeia. Além disso, o projeto prevê o plantio de roças tradicionais, com recuperação de áreas degradadas na Amazônia. “Iniciativas assim aparecem para contribuir e valorizar os modos de vida das populações do campo, contribuindo para que eles permaneçam na terra com dignidade e fazendo o que sabem de melhor: proteger o ambiente onde estão inseridos”, explica a coordenadora do Programa Cerrado e Caatinga do ISPN, Isabel Figueiredo.

Assim como os Panará, no município de Nova Guarita (MT), agricultores familiares também receberão apoio do PPP-ECOS para a organização de sua Rede de Sementes e outras atividades de conservação ambiental. As sementes cumprem importante papel para o reflorestamento de terras degradadas, como o plantio de mudas para a proteção do solo. “Nós queremos organizar nossa rede de sementes para possibilitar que os agricultores possam plantar suas agroflorestas, suas áreas de preservação ambiental ou fazer a recuperação de nascentes”, conta o agricultor Nevair Bugão.

A forma de produção também conta bastante quando o assunto é proteger o meio ambiente. Na Caatinga, no município de Solidão (PE), por meio de um projeto também apoiado pelo PPP-ECOS, agricultoras contam com um sistema para o reuso da água vinda de tarefas domésticos como lavar louça, roupa e tomar banho, conhecida como água cinza. O reaproveitamento dessa água é utilizado para aumentar a irrigação de suas plantações. A agricultora Maria Celeste conta sobre o empoderamento que o mecanismo gera. “Quero plantar bastante pé de mamão, maracujá e goiaba. Dobrar minha produção. O reuso da água vem me dando mais independência financeira, meu marido fica fora, e eu sou responsável pela roça e pela casa. Não quero depender mais do dinheiro dele”, explica Celeste.

Sistema para o tratamento e reuso da água cinza, utilizada para irrigar plantações.

Além de otimizar o uso da água, bem valioso não só no Sertão, mas para toda população, as agricultoras priorizam os adubos naturais, como o esterco das vacas, para proteger suas plantações, eliminando os agrotóxicos de sua rotina. Com isso, evitam a poluição dos solos e das águas e ainda garantem alimentos livres de veneno para suas famílias e para quem os consome nas feiras locais ou quando enviam para os centros urbanos nas feiras agroecológicas.

Segundo o portfólio do PPP-ECOS no Cerrado e na Caatinga, somente nesses biomas, cada família beneficiada pela iniciativa evita a liberação de gás carbônico (CO2) equivalente às emissões anuais de 45 famílias (considerando três pessoas por família). Ou seja, os projetos de restauração ecológica que encontram protagonismo dos PCTAFs retornam benefícios relevantes para a mitigação das mudanças climáticas, em uma dinâmica de ações locais para impactos globais. Encontramos assim paisagens conservadas ao mesmo tempo que temos o fortalecimento de quem mais atua para essa proteção: os modos de vida de povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares.

Paisagens conservadas por PCTAFs com o uso sustentável conectam as Áreas Protegidas, formando corredores de biodiversidade.

Conservação ambiental e o enfrentamento às crises sanitárias

Diante da pandemia do novo coronavírus, é recorrente a questão de como a proteção ambiental pode ser aliada ao enfrentamento de crises sanitárias. A saúde humana e a saúde do planeta estão fortemente ligadas. Segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente, existem cerca de oito milhões de formas de vida no mundo, e os humanos são apenas uma. “Isso inclui cerca de 1,7 milhão de vírus não identificados. Vírus e outros patógenos podem se espalhar facilmente entre os animais que são mantidos juntos ou para os seres humanos que os manuseiam, transportam, comercializam ou os consomem, principalmente quando práticas sanitárias e de proteção não são seguidas”, pontua em suas plataformas na internet.

Para o professor e doutor Marcos Buckeridge, o desmatamento e a degradação ambiental são inimigas da saúde do meio ambiente e humana. “O desmatamento no Brasil, mais acelerado durante a pandemia, vai exterminando as possibilidades de combater não somente o vírus SARS-Cov-2, que provoca a COVID-19, mas também outros vírus e bactérias que causam doenças em humanos, plantas e animais. O extermínio da biodiversidade é um crime contra a humanidade”.

Buckeridge defende que é preciso valorizar a biodiversidade para pensarmos em um futuro no qual crises como a atual possam ser mais facilmente evitadas e combatidas. “Poderíamos ter mecanismos desvendados em animais que são resistentes ao coronavírus. Poderíamos ter milhares de substâncias com estrutura química determinada e, com isto, buscar quais delas seriam as mais adequadas para agora. Deveríamos pensar em como usar nossas riquezas para tornar o Brasil um país justo e pujante”, conta.

Ecossistemas saudáveis ​​e biodiversos são resilientes, adaptáveis ​​e ajudam a regular doenças. Diante das histórias contadas aqui, protagonizadas por pessoas que encontram no respeito ambiental seus modos de vida, é fácil deduzir quem são os grandes agentes de proteção desses ecossistemas, não é mesmo? Os povos do campo são peças fundamentais na construção de um planeta sustentável, justo e preparado para enfrentar desequilíbrios sanitários.

A sabedoria desses grupos nos traz conhecimentos que podem ser introduzidos no nosso cotidiano, em nossas políticas públicas e na forma como lidamos com o ambiente que nos cerca. A crise sanitária vem trazendo graves consequências, mas ela vai passar, e quando passar, lembremos de recomeçarmos por meio da valorização do conhecimento de quem garante produção e diversidade há gerações: nossos protetores e protetoras do meio ambiente.

Paisagens conservadas contam com a presença de PCTAFs. Proteger o meio ambiente é proteger seus direitos.

As iniciativas apoiadas pelo PPP-ECOS citadas aqui contam ou contaram com o financiamento do Fundo Amazônia e do Fundo Global para o Meio Ambiente. Saiba mais sobre a iniciativa, clique aqui.

 Governance regime and location influence avoided deforestation success of protected areas in the Brazilian Amazon 

Análise da inibição do desmatamento pelas áreas protegidas na parte sudoeste do Arco de desmatamento