Em dezembro de 2019, nos municípios de Arinos e Uruana de Minas (MG), o ISPN realizou oficinas de formação e articulação com agricultores e agricultores familiares do Projeto Algodão Sustentável no Cerrado, uma iniciativa desenvolvida pela organização com financiamento do Instituto C&A. O momento coletivo orientou e estimulou os beneficiários sobre os primeiros passos para a produção do algodão, caracterizado como agroecológico. Foram planejados onde, quando e como ele será produzido nas comunidades rurais, os processos para a comercialização do algodão e os passos necessários para que o Projeto seja sustentável e ganhe autonomia.

Ao todo, são cerca de 45 pessoas diretamente beneficiadas na região noroeste de Minas Gerais, nas cidades de Arinos, Riachinho, Uruana de Minas, Natalândia, Formoso, Bonfinópolis, Brasilândia de Minas, Santa Fé de Minas e Dom Bosco. Com a produção do algodão agroecológico, orientado também para receber o selo orgânico, agricultores e agricultoras poderão comercializá-lo com pequenas e médias empresas da moda, o que irá contribuir para um consumo sustentável e consciente na sociedade, além de garantir mais geração de renda e promover a melhoria da qualidade de vida nas comunidades alcançadas pela iniciativa.

Os próximos passos para a implementação do Projeto contam com outras atividades de formação, como oficinas de capacitação em cada etapa do desenvolvimento do algodão e para debater a certificação orgânica. Além disso, os beneficiários de Minas Gerais participarão de intercâmbio com produtores do Nordeste brasileiro que já fazem a produção do algodão agroecológico. No campo da comercialização, serão promovidas rodadas de negociação com compradores no intuito de garantir um mercado consumidor para a produção das famílias agricultoras mineiras.

Por que agroecológico?

O Projeto visa promover a produção do algodão dentro dos princípios da agroecologia, associados a diversas estratégias para a conservação ambiental e o desenvolvimento social. Uma delas, debatida durante as oficinas realizadas em Arinos e Riachinho, tem a ver com a proteção e o uso do solo: durante o ciclo produtivo do algodão, a terra recebe uma cobertura de matéria orgânica à base de leguminosas ou outras plantas já existentes na área do produtor; além disso, o algodão é cultivado simultaneamente com outras culturas já tradicionalmente cultivadas, como milho, feijão e abóbora. Ainda há a introdução do gergelim, utilizado como repelente natural, o que protege os plantios de ataques de insetos.

Com essa proteção adequada e a diversidade de cultivo, os nutrientes para o solo são preservados, o que lhe garante riqueza e fertilidade. Ademais, as famílias agricultoras produzem mais alimentos para consumo próprio e comercialização, promovendo o aumento da renda familiar. “O plantio agroecológico é uma forma de cuidar do meio ambiente e também de ensinar nossos filhos e netos a terem uma vida melhor”, comenta a agricultora familiar de Riachinho, Judite Mendes.

Você sabe a diferença entre algodão agroecológico e algodão orgânico?

Diferente do que muitos pensam, há uma grande diferença entre produtos orgânicos e agroecológicos. O primeiro considera apenas a produção feita sem o uso de produtos químicos sintéticos, como os agrotóxicos, e sem espécies geneticamente modificadas. No entanto, o produto orgânico ainda pode ser produzido dentro da lógica dos grandes monocultivos, o que desconsidera o envolvimento e as condições de trabalho dos agricultores, a compatibilidade das culturas em relação ao ecossistema local e a diversidade produtiva, dentre outros princípios que priorizam tanto o ambiental como o social.

Já os produtos agroecológicos integram um movimento que preza pela responsabilidade socioambiental. Além do não uso dos produtos químicos sintéticos, essa forma de produzir também se baseia na valorização da diversidade, nos conhecimentos locais e culturais, na produção em harmonia com o meio ambiente, na autonomia e soberania dos agricultores e agricultoras familiares e várias outras características que conferem ao produto agroecológico um teor também político para a minimização das desigualdades sociais em sintonia com a conservação ambiental.

Comercialização do algodão agroecológico

Entendemos assim que nem todo produto orgânico é agroecológico, porém, todo produto agroecológico é orgânico se considerarmos o não uso de agentes químicos na produção. No entanto, no âmbito das normas brasileiras para comercialização, o produto agroecológico precisa do selo que o certifique enquanto produto orgânico para que possa ser comercializado de maneira ampla.

Quando o agricultor obtém o cadastro para venda do produto sem certificação de orgânico, ele só pode comercializar direto para o consumidor final, como em feiras, e/ou para compras do governo, como o PAA e o PNAE. Ao certificar o produto, o agricultor amplia suas possibilidades de comercialização, ou seja, passa a poder vender para mercados, lojas, indústrias etc.

Por isso, no Projeto Algodão Sustentável no Cerrado, todo algodão produzido respeitará os princípios de responsabilidade socioambiental previstos pela agroecologia, e será orientado para obter o selo de produto orgânico, o que permitirá sua venda a pequenas e médias indústria do segmento da moda.

Saiba mais sobre a obtenção do selo de produto orgânico no site do MAPA, clique aqui.

O Projeto Algodão Sustentável faz parte do Programa Cerrado e Caatinga do ISPN, e integra a estratégia para a promoção de Paisagens Produtivas Ecossociais (PPP-ECOS) da organização.