Vista aérea de desmatamento no Cerrado. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

Em entrevista ao ISPN, o doutor em Sociologia, Sérgio Sauer, e o doutor em Ciências Biológicas e Molecular, Marcos Buckeridge, se mostram preocupados com o aumento do desmatamento no Brasil durante a pandemia da COVID-19 e sua relação com as crises sanitárias. Eles alertam para a urgência em se conservar a biodiversidade, pois nela podemos ter as respostas e alternativas necessárias para superar crises como a desencadeada pelo coronavírus.

Os pesquisadores ainda afirmam que para sairmos por inteiro da crise atual, precisamos olhar e planejar um futuro diferente do que vivíamos. Por fim, os cientistas falam sobre medidas que podem aprofundar ainda mais a crise que estamos passando, como a MP 910, e apontam a necessidade de haver ampla e profunda discussão, especialmente científica, sobre decisões que afetam todos os brasileiros e podem trazer consequências desastrosas.

Confira:

ISPN: Há como estabelecer uma relação entre o desmatamento e a crise sanitária que estamos passando?

Marcos Buckeridge: O desmatamento nos faz perder possibilidades de encontrar remédios que poderiam ajudar na pandemia da COVID-19. Há anos, pesquisadores em todo o Brasil vêm trabalhando na busca de substâncias úteis em nossa biodiversidade para curar doenças. Há um bom número de compostos descobertos e testados. Temos meios de testar rapidamente milhares de substâncias e mesmo de extratos de vegetais, animais e microrganismos distintos. Estamos testando vários deles contra a COVID-19. O desmatamento no Brasil, mais acelerado durante a pandemia, vai exterminando as possibilidades de combater não somente o vírus SARS-Cov-2, que provoca a COVID1-9, mas também outros vírus e bactérias que causam doenças em humanos, plantas e animais. O extermínio da biodiversidade é um crime contra a humanidade. O Brasil tem enorme responsabilidade como detentor de mais de 20% da biodiversidade mundial. Depois que a pandemia passar – e vai passar – deveríamos pensar em como usar nossas riquezas para tornar o Brasil um país justo e pujante. Se pensarmos no futuro, a biodiversidade será a maior riqueza que um país possa ter. Com o desmatamento, estamos queimando nosso maior tesouro.

Sérgio Sauer: Muito ainda precisa ser estudado e pesquisado sobre as causas e dinâmica do coronavírus. No entanto, estudos e experiências relacionadas a outras doenças já estabeleceram estreitas conexões entre a destruição da natureza e as crises sanitárias. Nos anos mais recentes, doenças têm reaparecido em consequência da contaminação da água, do desmatamento, aumento do esgoto ou falta de saneamento básico. Apesar disso, estamos assistindo um processo de cortes de recursos para os órgãos responsáveis e as orientações governamentais afrouxam a fiscalização, o que leva a um aumento no desmatamento. Os desmatadores não estão em quarentena! De acordo com dados oficiais, os índices de desmatamento na Amazônia dobraram em relação a março de 2019. Mantendo sua postura negacionista, o Ministro do Meio Ambiente relativizou os dados, enfatizando que os números seriam só indicativos. A preservação da vida em tempos de pandemia deve ser a preocupação central, mas precisamos pensar no pós: retomar planejamentos e cuidados para restabelecer processos e mecanismos de controle e fiscalização do desmatamento.

ISPN:  Como podemos pensar a importância da conservação ambiental e da proteção dos Biomas para enfrentar essa crise?

MB: Podemos olhar para a enorme biodiversidade que temos na Mata Atlântica, no Cerrado, na Amazônia e em vários outros biomas brasileiros e pensar que, se tivéssemos dado mais atenção e suporte à pesquisa e a conservação ambiental, poderíamos ter uma lista bem maior de substâncias contra a COVID-19. Temos que nos tornar uma nação que paute o futuro. O uso sustentável da biodiversidade é um dos pontos cruciais para a biotecnologia do futuro. Os países desenvolvidos entenderam seus erros do passado. O Brasil pode aproveitar essa chance e não destruir sua biodiversidade. Nossa cultura imediatista, indiferente e, mais recentemente, contrária à ciência, é a razão de não termos informações necessárias para usar nossa biodiversidade. Pagamos pela cegueira científica. Poderíamos ter mecanismos desvendados em animais que são resistentes ao coronavírus. Poderíamos ter milhares de substâncias com estrutura química determinada e, com isto, buscar quais delas seriam as mais adequadas para agora.

SS: A pandemia, situação gravíssima e nova, está acontecendo agora. É preciso, no entanto, pensar e planejar em termos futuros. Seja para evitar novas doenças, seja para repensar a vida da população em melhores condições. Nossos desejos e lutas não devem ser simplesmente para ‘voltar ao normal’, pois o ‘normal’ no Brasil é uma sociedade profundamente injusta e desigual! Não queremos voltar ao normal, queremos voltar a uma sociedade justa, menos desigual e ambientalmente mais responsável! A conservação ambiental da Amazônia e do Cerrado, portanto, tem essa perspectiva ‘de futuro’. Não só para as gerações futuras, mas para a atual geração, e em condições melhores pós-pandemia. Há muito a ser feito para cumprir a ‘promessa constitucional’ de direito a um ambiente sadio para todas as pessoas!

ISPN: O que a biodiversidade do Cerrado e de outros biomas pode oferecer dentro dessas pesquisas?

MB: Muitas plantas do Cerrado apresentam capacidade enorme de produção de compostos químicos. Muitas delas poderiam, hoje, serem usadas como fitoterápicos que amenizassem os efeitos da COVID-19 ou então como base para rapidamente desenhar novos fármacos que ajudassem a interferir mais fortemente no processo de entrada do vírus nas células. Outra questão é sobre os animais. Quando damos vacinas do tipo V10 em nosso cão, há lá uma vacina para um tipo coronavírus. Não é o mesmo que está nos atacando agora, mas é do mesmo grupo. Isto quer dizer que o mecanismo de entrada do vírus nas células caninas poderia ter similaridade com o mecanismo de entrada do SARS-Cov-2 (que provoca a COVID-19). Provavelmente, há vírus similares em animais do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia. Estes são apenas dois aspectos. Há certamente inúmeros outros que poderiam servir para ajudar na pandemia atual e novas doenças que enfrentaremos.

ISPN: Vem se comentado também sobre a questão da segurança alimentar para contribuir com a superação da pandemia. Como enxergar esse ponto? 

SS: Mencionei a relação entre doenças e desmatamento, mas devemos adicionar: desmatamento-venenos-doenças. A expansão da fronteira agrícola para Amazônia e Cerrado carrega um ‘pacote de problemas’ como o uso excessivo de venenos, com consequências sérias para nossa saúde. Conservar os biomas significa repensar as formas de produção. A pandemia levantou novamente o problema da insegurança alimentar no Brasil e no mundo. Essa insegurança não é só pela possível falta de alimentos, mas também que tipo de alimentos estamos consumindo. Há uma padronização alimentar mundial – dois ou três grãos são a base alimentar da maioria da população, o que provoca sérios questionamentos para a segurança alimentar [e nutricional] – e um aumento perigoso no uso de agrotóxicos. Estas práticas agrícolas, consequentemente alimentares, são a motivação central do desmatamento. Defender a conversação dos biomas coloca a necessidade de pensar a saúde das pessoas e do ambiente!

 ISPN: Diante do exposto, como vocês avaliam o avanço no Congresso de medidas como a Medida Provisória 910? Conhecida como MP da Grilagem?

MB: A pergunta é: O que a ciência diz? Há no Brasil uma comunidade científica muito capaz e experiente, tanto nos assuntos dos agronegócios, como ambientais. O que deveria nortear as decisões não deveriam ser opiniões, mas sim direcionamentos embasados em conhecimento científicos. Nosso parlamento quer se aproveitar da cortina de fumaça provida pelos eventos da pandemia, para votar uma lei que deveria ser discutida de outra forma. Um grande número de cientistas das duas áreas deveriam ser ouvidos. Para um tema tão importante, deveria haver um debate científico grande, produzindo relatórios de impactos e de cenários futuros. Seria sobre esta base que os políticos deveriam tomar as decisões para o país. Todos os brasileiros serão afetados por estas decisões. E a regra é: decisões ruins levam a consequências desastrosas.

SS: Desde a emissão da MP 910 [dezembro/20190], estamos sob ameaça de mais uma flexibilização das regras ambientais. A medida facilita legalizar ou titular áreas de terras ocupadas irregularmente. Entre as facilidades está o afrouxamento das chamadas ‘condicionantes’, que inclui regras de conservação ambiental. Com o isolamento, a capacidade de intervenção – seja da oposição, seja da sociedade civil – diminuiu. Ela é uma “MP da grilagem” porque ampliou a possibilidade de titular ocupações até 2.500 hectares em todo o Brasil. Também ampliou o prazo: ocupações irregulares até 2014 podem se regularizar. Portanto, é falso que “são pequenos vivendo e trabalhando na terra há décadas”, pois a MP foi feita para grandes invasões. Associado à ampliação e flexibilização, há o desmatamento, que comprova a ocupação de terras. A aprovação da MP 910 é mais um incentivo ao desmatamento, que se conecta com as crises sanitárias.

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Marcos Buckeridge é Doutor em Ciências Biológicas e Molecular, diretor do Instituto de Biociências da USP e membro do Instituto de Estudos Avançados da USP, onde criou e coordena o programa USP-Cidades Globais. Foi Presidente da Associação dos Estudantes e Pesquisadores na Grã-Bretanha (1993 e 1994) e Presidente da Sociedade Botânica de São Paulo por dois mandatos (2001 à 2005). Entre 2015 e 2019, Buckeridge foi presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.

Sérgio Sauer é Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (2002) e professor da UnB, na Faculdade da UnB de Planaltina (FUP) e nos Programas de Pós Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (PPG-Mader) e Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais. (MESPT/CDS).