Por Elvis Marques – Comunicação CPT

Luiz Vila Nova. Foto: Rosilene Miliotti – Comunicação da FASE

Na capital maranhense, três obras sobre o bioma Cerrado e a vida e militância de Luiz Vila Nova foram apresentadas ao público durante atividade da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

“Dos Cerrados e de suas riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico” é um livro que traz aprendizados acumulados com a luta em defesa do bioma e dos povos e comunidades que têm suas vidas fincadas nesse chão. A publicação é de autoria de Carlos Walter Porto-Gonçalves, professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), e organizado pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) e Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Na mesma ocasião, a jornalista carioca Claudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), apresentou o seu livro sobre um importante personagem das lutas agrárias do MA: “Luiz Vila Nova – memória da vida e da luta de um militante”. Chapéu de palha, óculos e camisa vermelha, assim como na capa do livro, Vila Nova, ao contar sobre o início de sua militância, foi incisivo: “Hoje, se eu continuo na luta, é porque essa semente foi plantada na adolescência, quando eu ainda estava novinho. O momento principal de se preparar o cidadão é na adolescência, e não quando está adulto, porque aí o cidadão já tem várias culturas enraizadas. A gente vai absorvendo as realidades ao longo da vida”.

A terceira obra apresentada ao público retrata uma história de de mobilização de milhares de pessoas por água no oeste da Bahia. “Os Pivôs da Discórdia e a Digna Raiva: uma análise dos conflitos por terra, água e território em Correntina (BA)” examina os significados, interpretações e reações diante dessa revolta popular em defesa das águas no Cerrado baiano. “A luta dos ribeirinhos do oeste da Bahia, que vem de muito longe na história, não só contesta veementemente o ‘sucesso’ do agronegócio, mas também se projeta como alternativa ao modelo agrícola devastador e insustentável. O modo secular de vida dos ribeirinhos, em equilíbrio com a disponibilidade dos bens e ciclos naturais, os preservaram até aqui, a si e aos ecossistemas com os quais interagem e dos quais dependem umbilicalmente”, analisa Ruben Siqueira, da coordenação nacional da CPT.

Confira, abaixo, uma breve contextualização sobre cada uma das três obras lançadas:

“Dos Cerrados e de suas riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico”

Essa publicação, assim como diversas outras produzidas no bojo da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, tem como objetivo reunir os saberes construídos coletivamente sobre o bioma. Uma construção a muitas mãos, que envolve movimentos sociais, organizações da sociedade civil, pesquisadores/as, e, claro, povos e comunidades do Cerrado. “Não olvidemos que nenhum grupo social, povo, etnia ou comunidade habita uma área, seja ela qual for, sem produzir conhecimento. Como alguém pode viver em um lugar sem conhecê-lo? Não se come sem saber plantar, sem saber pescar, sem saber coletar ou sem saber criar animais “, pontua o professor fluminense.

“Nos cabe afirmar que não há defesa do Cerrado sem a defesa dos territórios dos povos dos Cerrados, onde suas riquezas são conservadas, nutridas e multiplicadas. Esse é o compromisso que deve guiar as lutas em defesa do Cerrado, em especial em um momento histórico marcado pelo esforço sistemático de poderes públicos e privados em promover a desterritorialização dos diversos povos indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais – tais como geraizeiros, vazanteiros, quebradeiras de coco babaçu, dentre outros -, assentados de reforma agrária e outras populações camponesas”, apresentam, assim, as organizadoras da publicação, Diana Aguiar, assessora nacional da FASE, e Valéria Santos, articuladora da CPT.

Em breve, a publicação estará disponível para download no site da FASECPT Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

“Luiz Vila Nova: memória da vida e da luta de um militante”

O educador popular e lavrador Luiz Vila Nova, prestes a completar 75 anos, nasceu no Piauí, mas se tornou maranhense, como ele próprio afirma. Começou a sua militância na Juventude Agrária Católica (JAC), e em 1964 entrou para a Ação Católica Rural (ACR). Filho de lavradores e tendo como referências em sua luta por reforma agrária, Dom Helder Câmara e Manoel da Conceição, Vila Nova participou ativamente das lutas por terra na região maranhense do Vale do Pindaré, onde sofreu perseguições, atentados, ameaças de prisão e de morte. Contribuiu na fundação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Partido dos Trabalhadores (PT), no qual foi Deputado Estadual por dois mandatos.

Sua história, como descreve Claudia Santiago, está profundamente ligada a movimentos e organizações populares, como a CPT, Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), Cáritas, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). “Ele conhece, como poucos, talvez seja quem mais conhece, a luta contra as cercas e pela reforma agrária no Maranhão. Terra coletiva é um sonho”, ressalta, sobre o militante, a autora do livro.

As memórias de Vila Nova chegaram às mãos de Claudia em 2018, durante o Curso de Comunicação Popular do NPC, através da aluna Inessa Lopes. “Eram 240 páginas iniciais, comecei a ler e achei a história fantástica. Eu buscava pelo nome dele no Google, e não aparecia nada. Mas a história dele é muito bonita e forte, uma história de luta e de muitas vitórias. Então, eu não sai do computador até organizar aquelas páginas, mas logo depois eu recebi mais 500 páginas. E ele mandou também os jornais da época para comprovar o que ele dizia”, relembra Santiago, responsável por organizar essas memórias históricas de luta.

Com uma vida inteira de militância, Luiz sempre aponta diversas problemáticas sociais que o levou a dedicar quase que os seus 75 anos em prol de justiça social. A desigualdade social, o racismo e a separação entre quem tem mais e menos riquezas são questões que sempre chamaram a atenção do lavrador. Sobre isso, ele lembra de um episódio no dia 7 de setembro, no município piauiense de Amarante, “quando os pobre e os ricos, os negros e os brancos, dançavam, na festa, em locais separados. Essas coisas vão nos chamando atenção, vão somando em nossas vidas”.

Em breve, a publicação pode ser adquirida pelo site do NPC.

Os Pivôs da Discórdia e a Digna Raiva: uma análise dos conflitos por terra, água e território em Correntina (BA)

O livro foi elaborado também por Carlos Walter e Samuel Britto das Chagas, engenheiro agrônomo e agente da CPT na Bahia. O baixo nível das águas do Rio Arrojado, devido à captação abusiva de água pelas fazendas do grupo Igarashi e ao desmatamento desenfreado, juntamente com a morosidade dos órgãos públicos e governos em resolver tais problemas, fez com que, no dia 02 de novembro de 2017, cerca de mil ribeirinhos quebrassem as instalações de irrigação agrícola da “empresa que lhes sugava o ‘sangue’, quer dizer, as águas”, destaca, no Prefácio da obra, escrito por Ruben Siqueira, da coordenação nacional da CPT.

Nove dias após esse acontecimento, aproximadamente 12 mil pessoas saíram às ruas da cidade de Correntina em apoio àquela primeira ação ocorrida anteriormente, e uma frase ganhou o protesto e é entoada até hoje: “Ninguém vai morrer de sede às margens do Arrojado”. Em sua fala durante o lançamento, Siqueira destacou ainda como a população da região se identificou com a camiseta da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, que traz o lema: “Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida”.

O livro pode ser adquirido nas sedes da CPT em Salvador e em Santa Maria da Vitória (BA).

Para saber mais, acesse o site da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado