O Conselho Indígena de Roraima ficou entre os 20 vencedores do Prêmio Equatorial 2019 pelo trabalho desenvolvido com Feiras de Sementes.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), órgão da ONU, anunciou os 20 vencedores do Prêmio Equatorial 2019. Foram 847 candidaturas de 127 países diferentes, e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) foi um dos premiados. A homenagem celebra as boas experiências em soluções locais baseadas na conservação do meio ambiente voltadas a minimizar os impactos das mudanças climáticas e a estimular o desenvolvimento sustentável.

Com experiência na promoção de Feiras de Sementes, o CIR trabalha a troca e a disseminação de sementes crioulas e tradicionais, realiza capacitações para métodos mais sustentáveis de manejo e de plantio, sistematiza e divulga conhecimentos sobre os sistemas agrícolas tradicionais dos povos e das terras indígenas que reúnem o CIR.

As Feiras de Sementes cumprem um importante papel para fortalecer a resiliência das terras indígenas, e o próprio espaço onde são realizadas é simbólico. O Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol – CIFCRSS, escola de Ensino Médio e Técnico dos povos originários de Roraima, criada e gerenciada pelo CIR, representa a resistência e o trabalho para educar e formar politicamente a juventude e dar continuidade às práticas e saberes tradicionais, em diálogo com novas tecnologias sustentáveis. A região onde se encontra hoje a escola esteve, por anos, em meio às terras ocupadas por fazendeiros, mas reivindicadas pelos índios e, finalmente, retomada e homologada como parte da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em 2010. Enquanto espaço de conquista e resistência, a Terra Indígena Raposa Serra do Sol não só acolhe as feiras, mas, por si só, fala sobre o sentido delas.

As feiras fortalecem a discussão sobre a conservação, perpetuação e multiplicação das sementes tradicionais em um momento que as comunidades estão perdendo suas sementes para as industrializadas. Dessa forma, as feiras trabalham a perspectiva do repasse de conhecimentos entre os mais velhos e a juventude para que se fortaleça a cultura, a identidade e as práticas sustentáveis dos povos originários. “Um dos principais objetivos é evidenciar o conhecimento tradicional dos mais velhos, dialogando com a juventude e suas aspirações, conhecimentos e demandas”, ressalta a carta de candidatura à premiação do CIR.

A conexão entre as gerações e a valorização do território, da cultura e da identidade indígena se integram às diversas atividades realizadas nas Feiras de Semente. Elas reúnem vários povos de Roraima, só nesta última edição participaram 5 povos, os Macuxi, os Sapará, os Wapichana, os Yanomami e os Taurepang, momento em que celebram a agrobiodiversidade e saberes de seus territórios.

São mesas redondas, momentos de discussão, oficinas e capacitações que abordam temas como conhecimentos e práticas de manejo tradicionais, agroecologia, plantios agroflorestais, produção de mudas, entre outras temáticas. Agricultores e agricultoras familiares, instituições parcerias, professores e estudantes indígenas constroem os debates e consolidam as informações. As escolas presentes, inclusive, costumam levar os conhecimentos gerados e valorizados para suas comunidades, multiplicando os saberes.

A troca de sabedorias e a valorização de práticas milenares ainda fortalecem a atuação das mulheres cujos conhecimento se embasam e ao mesmo tempo retroalimentam o modo de vida de seus povos. Em uma das feiras realizadas, foi desenvolvida a cartilha “A origem das sementes tradicionais”, contada por uma mulher pajé e ilustrada por estudantes indígenas. O material pode ser acessado aqui.

Ao valorizar e estimular a manutenção de práticas com as sementes crioulas e tradicionais, considerando as questões geracionais e de gênero, as Feiras possibilitam também o aumento da diversidade de plantas e sementes. Só em um dos eventos, foram levadas cerca de 40 variedades de mandioca, 20 de pimenta, mais de 15 tipos de milho e feijão e muitas outras, como banana, batata, cará, arroz e algodão.

As Feiras, assim, passam a representar mais que um espaço de troca, mas de transformação pelo fortalecimento das práticas tradicionais e sustentáveis. As comunidades que participaram das feiras, hoje em dia, têm e produzem suas próprias sementes, o que vem fortalecendo o protagonismo, a soberania alimentar e a cultura dos povos indígenas. Além disso, o evento tem potencial para ser realizado em nível nacional, integrando povos e comunidades tradicionais de diferentes regiões. “Seria uma boa oportunidade para o compartilhamento de experiências bem-sucedidas com a inserção das sementes tradicionais em políticas públicas, como no nordeste brasileiro”, reforça a carta de candidatura.

Entre 2015 e 2018, as Feira de Sementes do CIR receberam apoio do, até então, Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS)*, desenvolvido pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) com recursos do  Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF). Além desses parceiros, em outras edições, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Universidade Federal de Roraima (UFRR) também chegaram junto da iniciativa

*A partir de 2019, dentro do ISPN, o PPP-ECOS deixa de ser visto como um programa para ser entendido como uma estratégia da organização para a promoção de paisagens produtivas ecossociais. Nessa estratégia, há um Fundo Independente para captação de recursos destinados ao apoio a projetos comunitários, como a experiência do CIR.

Sementes crioulas, mudanças climáticas e segurança alimentar

Quando passadas de geração em geração, as sementes tradicionais são aperfeiçoadas e evoluem com o meio ambiente. Elas se adaptam às mudanças do clima, ao solo e resistem às pragas, diferente das sementes industrializadas que não possuem a mesma diversidade genética. Além disso, a forma de se trabalhar com as sementes tradicionais é orgânica, com respeito ao meio ambiente, o que contribui para a manutenção da biodiversidade e para o equilíbrio climático.

Essa forma de produção ainda garante o valor nutritivo das sementes tradicionais, contribuindo para a segurança alimentar e nutricional das comunidades e sua sustentabilidade. Uma semente crioula gera alimento e pode ser novamente plantada. Já a industrializada, não. Ou seja, trocar o consumo das sementes tradicionais pelas industrializadas, além de diminuir a conservação ambiental e prejudicar a qualidade dos alimentos, ainda faz a comunidade perder sua autonomia, pois precisaria depender da compra ou doação de outras sementes industrializadas.

Sobre o Conselho Indígena de Roraima (CIR)

O CIR é uma organização da sociedade civil que há mais de quarenta anos luta em defesa dos direitos de povos indígenas de Roraima, atuando em 35 Terras Indígenas do estado. A organização desenvolve atividades nos campos da saúde, educação, cultura, gestão ambiental e territorial, produção sustentável e promoção social, respeitando a organização dos povos originários. E esses são um dos principais objetivos do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol – CIFCRSS, escola de Ensino Médio e Técnico dos povos indígenas de Roraima, criada e gerenciada pelo CIR desde 1996.

É simbólico que a escola funcione nessa região, um dos principais focos das disputas de terras que o CIR se envolveu em suas primeiras décadas de trabalho. Após anos de conflitos violentos com fazendeiros locais, em 2010, a Terra Indígena Raposa Serra do Sol foi homologada. A CIFCRSS cumpre, assim, papel fundamental para a proteção territorial, a resistência indígena e a perpetuação das práticas tradicionais e sustentáveis.