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	<title>Arquivo de Em destaque - ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza</title>
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	<title>Arquivo de Em destaque - ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza</title>
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		<title>Financiamento climático a partir dos territórios: recursos,  poder e justiça socioambiental</title>
		<link>https://ispn.org.br/artigo-de-opiniao/financiamento-climatico-a-partir-dos-territorios-recursos-poder-e-justica-socioambiental/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Amanda Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Sep 2026 13:28:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo de opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[O desafio não se resume apenas a ampliar o financiamento. É preciso discutir como esses recursos circulam, quem participa das decisões e quais organizações têm condições de acessá-los]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">A crise climática tem levado governos, organismos multilaterais, empresas e instituições filantrópicas a mobilizarem volumes crescentes de recursos. Em 2024, os fluxos globais de financiamento climático ultrapassaram US$ 2 trilhões. Para 2025 foram estimados em US$ 2,1 trilhões. O valor é expressivo, mas ainda distante dos cerca de US$ 7,8 trilhões anuais que, segundo a </span><a href="https://www.climatepolicyinitiative.org/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Climate Policy Initiative,</span></a><span style="font-weight: 400;"> serão necessários até 2030 e US$ 9 trilhões anuais entre 2031 e 2035 para responder às necessidades globais de financiamento climático. [1]</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desafio, portanto, não se resume apenas a ampliar o financiamento. É preciso discutir como esses recursos circulam, quem participa das decisões e quais organizações têm condições de acessá-los.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse contexto, uma pergunta continua recebendo menos atenção do que deveria: quem já vinha construindo respostas para a crise climática antes mesmo de ela ocupar o centro da agenda internacional?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A resposta está nos territórios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, movimentos sociais e organizações locais desenvolvem, há gerações, formas de produzir, conservar e viver baseadas no conhecimento tradicional e no conhecimento dos  territórios em que vivem. Protegem florestas, recuperam nascentes, manejam a sociobiodiversidade, mantêm sistemas produtivos adaptados às condições locais e constroem alternativas econômicas que conciliam conservação e geração de renda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse conhecimento não é complementar à ação climática. Ele constitui parte essencial das respostas necessárias para proteger a biodiversidade, reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de adaptação de populações e ecossistemas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de mais de três décadas, o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), por meio do Fundo Ecos, acompanha e apoia iniciativas dessa natureza. Desde sua criação, o Fundo já destinou mais de US$ 31 milhões a mais de mil projetos conduzidos por organizações de base comunitária, especialmente no Cerrado, Amazônia e Caatinga.</span><span style="font-weight: 400;"> [2]</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa trajetória mostra que as transformações mais consistentes raramente começam com modelos concebidos à distância. Elas surgem da combinação entre conhecimento territorial, organização social, capacidade de experimentação e recursos adequados às realidades locais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é um dos principais aprendizados acumulados pelo Fundo Ecos: estar conectado aos territórios e reconhecer práticas que já existem, fortalecer as organizações que as sustentam e criar condições para que possam aperfeiçoá-las, conectá-las e ampliar seus resultados.</span></p>
<p><b>O caminho dos recursos também importa</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante décadas, prevaleceu no financiamento para o desenvolvimento a lógica de que os recursos deveriam percorrer longas cadeias institucionais antes de alcançar as organizações locais. A cada etapa, foram incorporados novos procedimentos e mecanismos de controle destinados a reduzir riscos e assegurar resultados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora esses instrumentos tenham sua importância, o acúmulo de exigências produz uma contradição: as organizações mais próximas dos problemas e das soluções são frequentemente aquelas que enfrentam maiores dificuldades para acessar o financiamento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As diretrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, sobre desenvolvimento localmente liderado reconhecem esse problema. A organização afirma que o financiamento de qualidade deve ser flexível, previsível e de longo prazo, além de recorrer, sempre que possível, a sistemas e instituições locais já existentes.[</span><span style="font-weight: 400;">3]</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A própria OCDE estima que menos de 10% dos fundos climáticos estejam dedicados ao desenvolvimento localmente liderado. Embora as diferenças de definições e metodologias ainda dificultem a comparação desses fluxos, o dado evidencia a distância entre os compromissos de localização dos recursos e sua aplicação prática.</span><span style="font-weight: 400;"> [4]</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A experiência do Fundo Ecos demonstra que essa distância não será superada apenas com formulários mais simples. É preciso rever a maneira como riscos, capacidades, responsabilidades são compreendidos e reconhecer o protagonismo das organizações e comunidades na construção das soluções.</span></p>
<p><b>Confiança não é o oposto da boa governança. É uma de suas condições.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Relações construídas ao longo do tempo permitem compreender os contextos em que os projetos são executados, fortalecer as organizações e ajustar mecanismos de acompanhamento, transparência e prestação de contas às diferentes realidades.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso não significa abandonar critérios, controles ou procedimentos de integridade, mas construir mecanismos proporcionais aos riscos e reconhecer capacidades que nem sempre aparecem em documentos formais. Nesse contexto, a responsabilidade deixa de ser apenas uma obrigação administrativa imposta por quem financia e passa a ser um compromisso compartilhado, baseado em objetivos comuns, diálogo e clareza sobre os resultados esperados.</span></p>
<p><b>Uma infraestrutura que já existe</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como as soluções para muitos dos desafios socioambientais já vêm sendo construídas nos territórios, também existe uma infraestrutura capaz de fazer os recursos chegarem a quem as desenvolve. Fundos independentes e de justiça socioambiental, em diferentes países, ao </span><span style="font-weight: 400;">conectar</span><span style="font-weight: 400;"> os recursos a organizações e iniciativas locais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses fundos conhecem os contextos locais, mantêm relações duradouras com organizações de base, identificam iniciativas que dificilmente seriam alcançadas por grandes financiadores e acompanham processos que não podem ser avaliados apenas por resultados de curto prazo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil, a Rede Comuá já reúne 20 fundos e organizações doadoras independentes que mobilizam recursos para organizações, movimentos e coletivos atuantes nos campos da justiça socioambiental, dos direitos humanos e do desenvolvimento comunitário.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um mapeamento sobre a filantropia comunitária no país reuniu dados de 31 organizações doadoras independentes. Entre as instituições pesquisadas, 74% apoiavam organizações da sociedade civil e 71% destinavam recursos a movimentos e coletivos, inclusive não formalizados. As 14 organizações da Rede Comuá incluídas no estudo haviam doado, diretamente, quase R$ 472 milhões até 2021.[</span><span style="font-weight: 400;">5]</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No âmbito internacional, a Alianza Socioambiental Fondos del Sur articula fundos socioambientais do Sul Global. Atualmente, a rede reúne 17 fundos que, ao longo de suas trajetórias, já apoiaram iniciativas em mais de 70 países. De acordo com o levantamento </span><i><span style="font-weight: 400;">Funding from the Ground Up</span></i><span style="font-weight: 400;">, somente em 2024, seus membros destinaram cerca de US$ 14 milhões em doações a atores da linha de frente, incluindo organizações de base, povos indígenas, instâncias de governança local e empreendimentos comunitários. Sua atuação parte do reconhecimento de que os grupos mais afetados pelas crises socioambientais são, muitas vezes, também os mais excluídos dos modelos tradicionais de financiamento. [</span><span style="font-weight: 400;">6]</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A participação do ISPN e do Fundo Ecos na Rede Comuá e na Alianza Socioambiental Fondos del Sur integra esse movimento mais amplo de fortalecimento dos fundos independentes de justiça socioambiental e de defesa de sistemas de financiamento mais acessíveis, diversos e próximos dos territórios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essas articulações não buscam apenas ampliar a colaboração entre seus integrantes. Elas trabalham para transformar as relações entre quem mobiliza os recursos, quem define as prioridades e quem conduz as respostas nos territórios.</span></p>
<p><b>Mudar os fluxos para construir futuros possíveis com justiça socioambiental</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fazer mais recursos chegarem aos territórios por meio de fundos independentes e de justiça socioambiental não significa apenas ampliar a capilaridade ou a eficiência do financiamento climático. Significa também transformar a maneira como circulam recursos, decisões e poder.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando organizações próximas aos territórios participam da definição de prioridades e dispõem de recursos flexíveis para apoiar soluções construídas localmente, comunidades, povos indígenas e organizações de base deixam de ocupar apenas o lugar de executores de agendas definidas externamente. Ampliam sua capacidade de decidir, propor e sustentar suas próprias respostas aos desafios socioambientais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante da escala da crise climática, mobilizar mais recursos é indispensável. Mas a transformação necessária depende também de quem participa das decisões, de onde essas decisões são tomadas e de quanto conhecimento, capacidade institucional e autonomia permanecem nos territórios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Democratizar o financiamento climático é, nesse sentido, ampliar quem pode imaginar, propor e participar das decisões. Fazer com que recursos e poder de decisão estejam mais próximos daqueles que vivem, conhecem e cuidam dos territórios contribui para construir respostas mais justas, fortalecer a democracia e transformar em realidade aquilo que, muitas vezes, ainda parece impossível.</span></p>
<p><b>Referências </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[1] Climate Policy Initiative. </span><i><span style="font-weight: 400;">Global Landscape of Climate Finance 2026</span></i><span style="font-weight: 400;"> e painel de dados sobre os fluxos globais de financiamento climático. <a href="https://www.climatepolicyinitiative.org/resources/data-visualizations/global-landscape-of-climate-finance-data-dashboard/" target="_blank" rel="noopener">https://www.climatepolicyinitiative.org/resources/data-visualizations/global-landscape-of-climate-finance-data-dashboard/</a></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[2] Valor total em US$ corrigido até 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[3] OECD. </span><i><span style="font-weight: 400;">Practical Guidelines for Supporting Locally Led Development: Quality Financing to Local Actors</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><a href="https://www.oecd.org/en/publications/practical-guidelines-for-supporting-locally-led-development_eaecf72b-en/full-report/action-area-quality-financing-to-local-actors_70bc9dc7.html" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;"><strong>https://www.oecd.org/en/publications/practical-guidelines-for-supporting-locally-led-development_eaecf72b-en/full-report/action-area-quality-financing-to-local-actors_70bc9dc7.html</strong></span></a></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[4] OECD. </span><i><span style="font-weight: 400;">Practical Guidelines for Supporting Locally Led Development: Clarity of Intentions and Definitions</span></i><span style="font-weight: 400;">.<br />
</span><strong><a href="https://www.oecd.org/en/publications/practical-guidelines-for-supporting-locally-led-development_eaecf72b-en/full-report/action-area-clarity-of-intentions-and-definitions_306ac241.html" target="_blank" rel="noopener">https://www.oecd.org/en/publications/practical-guidelines-for-supporting-locally-led-development_eaecf72b-en/full-report/action-area-clarity-of-intentions-and-definitions_306ac241.html</a></strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[5] Rede Comuá. F</span><i><span style="font-weight: 400;">ilantropia comunitária no Brasil: princípios, práticas e prioridades</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><strong><a href="https://redecomua.org.br/wp-content/uploads/2025/02/Filantropia-comunitaria-no-Brasil-Sumario-PT.pdf" target="_blank" rel="noopener">https://redecomua.org.br/wp-content/uploads/2025/02/Filantropia-comunitaria-no-Brasil-Sumario-PT.pdf</a></strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[6] Alianza Socioambiental Fondos del Sur. </span><i><span style="font-weight: 400;">Funding from the Ground Up: A Global Study of Locally Rooted Socio-Environmental Funds</span></i><span style="font-weight: 400;">. 2025.</span><strong><a href="https://alianzafondosdelsur.org/wp-content/uploads/2025/10/Alianza_Funding_from_the_ground_up.pdf" target="_blank" rel="noopener"> https://alianzafondosdelsur.org/wp-content/uploads/2025/10/Alianza_Funding_from_the_ground_up.pdf</a></strong></p>
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