O intercâmbio representa um momento de compartilhamento de experiências entre povos de culturas diversas e de tradição oral e tem se mostrado uma rica forma de proporcionar contatos e momentos de aprendizado. Foi com este intuito que ocorreu o Intercâmbio Intercultural entre o povo Guajajara da Terra Indígena Rio Pindaré e os quilombolas da comunidade Vila Fé em Deus, município de Santa Rita – MA, em novembro de 2018. Na ocasião, os participantes foram conhecer e participar da Festa do Tambor de Crioula em homenagem ao santo São Benedito, que é tradicionalmente homenageado como protetor das terras de preto, dos quilombos e da história ancestral. A iniciativa foi idealizada e organizada pela Associação Mainumy da Terra Indígena Pindaré e pela Associação Comunitária Remanescente de Quilombo da Vila Fé em Deus, e contou com apoio do ISPN, no âmbito do Programa Estratégico do Maranhão (Poema) e do Plano Básico Ambiental – Componente Indígena no Subprograma Etnodesenvolvimento, em parceria com a Vale.

O Tambor de Crioula é uma dança de matriz africana praticada nos quilombos do Maranhão e é perpetuada entre as gerações. Geralmente, ocorre em festas de aniversário, vitória no futebol, festa de preto velho, bumba-meu-boi ou na festa do santo padroeiro. É comumente dançado em Carnaval, festas juninas e está sempre associado ao louvor a São Benedito.

O período entre os preparativos e o dia da festa do Tambor é um grande momento de cooperação e confraternização no quilombo. Homens, mulheres e jovens ajudam na organização do espaço, na ornamentação para o altar de São Benedito, na fogueira para esquentar o couro dos tambores, e na produção da comida, que é partilhada entre todos da comunidade e os convidados. E foi assim na Vila Fé em Deus, uma grande festa e uma mostra da valorização e perpetuação das tradições culturais, animando moradores e atraindo gente das localidades vizinhas e do município sede.

A dança do Tambor de Crioula não requer ensaios, pois o modo de dançar é repassado pelas coreiras (mulheres que dançam o tambor) para as mais jovens dentro da roda. As mulheres se vestem com saias rodadas com estampas em cores vivas, anáguas largas com renda na borda e blusas rendadas e decotadas brancas ou de cor. Os homens trajam calça branca, chapéu de palha e camisa estampada.

A animação é feita com o canto puxado pelos homens e acompanhando pelas mulheres. Um homem puxa a toada de levantamento. Em seguida, o coro – que é seguido por três tambores: o tambor grande, o meião e o crivador – chama e mante a roda de tambor viva, passando esse canto a compor o refrão para os improvisos que se sucederão.

As mulheres, além de dançarem e serem o destaque da roda, ajudam a entoar os cantos. Os temas, puxados livremente em toadas, remetem à louvação aos santos protetores, sátiras, homenagem às mulheres, desafio de cantadores, fatos do cotidiano e despedidas.

O Tambor de Crioula apresenta coreografia livre e variada. Os movimentos são mais soltos, mais intensos e bem acentuados, seguindo o compasso dos tocadores. A dança apresenta uma particularidade: a punga ou umbigada. Entre as mulheres, se caracteriza como um convite para entrar na roda. Quando uma delas está no centro e quer sair, avança em direção a outra companheira, aplicando-lhe a punga, que consiste no toque com a barriga. A que estiver na roda vai para o centro para continuar a brincadeira.

“Me criei dentro do Tambor de Crioula. É uma tradição que foi deixada pelo meu avô, que aprendeu com meu bisavô. E, assim, a gente vai passando de geração em geração. É uma alegria muito grande poder levar essa cultura à frente. Ficamos mais felizes em receber os nossos irmãos indígenas, em vir aqui, e conhecer um pouco da nossa cultura”, falou orgulhoso o presidente da Associação de Tambores de Crioula do Quilombo Vila Fé em Deus, Genilton Barbosa.

Arlete Viana Guajajara, do povo Guajajara da Aldeia Januária (TI Rio Pindaré), ficou deslumbrada ao conhecer a Festa do Tambor de Crioula. “A gente observou o quanto essa manifestação é valorizada pelos quilombos. E a gente precisa disso: conhecer outras culturas para fortalecer nossa. Ficamos maravilhados em ver jovens, crianças e adultos envolvidos na festa. A partir desse momento a gente firma parcerias e laços afetivos com essa comunidade. Fiquei muito emocionada com essa valorização, lembrei muito da nossa cultura. Há mais de 500 anos, a gente continua resistindo e preservando”, enfatizou.

São Benedito – É um santo negro africano. No Brasil, a veneração se inicia fortemente no período da escravidão, dentro das senzalas. É considerado padroeiro da gastronomia, dos cozinheiros. E está relacionado também a fartura e a comida.

Tambor de Crioula é Patrimônio Cultural – Em 2007, o Tambor de Crioula ganhou o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. A Lei nº 13.248 de 12 de janeiro de 2016 estabeleceu a data de 18 de junho como o Dia do Tambor de Crioula. A Lei foi votada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Governo Federal.