Cartaz do dia da luta dos povos indígenas com mulher

A mulher indígena sempre cumpriu um papel fundamental na proteção dos seus territórios, na sustentabilidade e na promoção da biodiversidade, na preservação das suas culturas e na manutenção dos seus modos de vida. Esse protagonismo se dá de diversas formas nas suas aldeias conforme a particularidade cultural de cada povo, como Guardiãs ou Guerreiras da floresta, parteiras, responsáveis pelo cuidado com as crianças e com a terra, artesãs, presidentas de associações, artistas e tantas outras funções fundamentais à existência e resistência dos povos indígenas no Brasil.

Neste 19 de abril, Dia Nacional da Luta dos Povos Indígenas, o ISPN conversou Djuena Tikuna – indígena, jornalista, cantora, atriz e mãe. O nome Djuena significa “a onça que pula no rio”. Nasceu na Aldeia Umariaçu II, do povo Tikuna, no município de Tabatinga (AM). Ela, acima de tudo com a sua arte, tem sido uma das representantes das manifestações culturais dos parentes e de luta do movimento indígena. Sua trajetória reúne alguns álbuns, participação em grandes eventos e mostras internacionais, e importantes premiações na área musical. Com seu trabalho e talento, Djuena tem dado visibilidade às questões e aos povos indígenas deste país.

ISPN: Ao seu ver, qual o papel da mulher indígena para o território e para a preservação dos modos de vida de cada povo?

Djuena: Todos nós temos um papel importante para a proteção dos territórios e para preservar nossos modos de vida. Homens e mulheres, jovens e idosos, todos têm um papel de fundamental importância nesse processo. Porém, a mulher indígena talvez seja a maior representação do território, pois somos a expressão da própria mãe terra que alimenta seus filhos e gera a vida. A nossa ligação com a territorialidade é nosso local de sabedoria e ensinamento, é onde nos percebemos protagonistas de nossa realidade, sem a opressão de outros espaços. É nossa saúde, nosso bem viver. É garantindo o território que podemos manifestar nossa sabedoria ancestral, e isso está ligado diretamente com a manutenção de nossos costumes, dos nossos rituais, de nossa forma de ver o mundo. O segredo de tudo é repassado para as moças novas, a cada geração.

ISPN: Diante deste contexto político atual de negação e exclusão de direitos, nos fale um pouco sobre como a mulher indígena pode ter uma relevância nesse processo de articulação e mobilização em torno do movimento de resistência em todo o Brasil?

Djuena: O movimento de resistência não está iniciando agora. Pelo menos há 519 anos estamos resistindo a um projeto de extermínio do colonizador. E nós, mulheres indígenas, temos a consciência que essa luta também é nossa, sempre foi. Pois, fomos nós as violentadas e foram os nossos filhos que foram assassinados pelos invasores. Especificamente, dentro do movimento indígena, dentro de uma perspectiva contemporânea, temos ocupado espaços cada vez mais importantes de articulação e mobilização do nosso povo. Tiramos como o exemplo a parenta Sônia Guajajara que fez história sendo a primeira candidata indígena à presidência do país. Podemos falar também da Deputada Federal Joênia Wapichana. São mulheres que nos representam e são legítimas expressões da nossa resistência.

ISPN: Como sua música, seu canto, pode contribuir para inspirar, articular e apoiar na luta e na resistência em favor das indígenas Brasil a fora?

Djuena: Meu canto traz a verdade do meu povo. Nele, carrego os ensinamentos da ancestralidade, da origem, dos meus encantados. Isso por si, já seria o suficiente para inspirar a resistência, pois é verdadeiro; assim como as nossas pautas de lutas. Entretanto, tem outro caminho da troca, pois é a resistência quem alimenta a minha canção. É inspirada na trajetória das lutas dos povos indígenas que eu componho minha música como expressão de nossa resistência, tendo a clareza que a minha arte está a serviço dos povos indígenas e fazemos parte de um caminho que outros seguirão para manter a cultura viva, sagrada e imortal.

Fique por dentro: Entre 24 e 26 de abril, acontece o Acampamento Terra Livre (ATL), quando indígenas de todo Brasil se reunirão em Brasília para denunciar ataques e reafirmar resistências.