Para valorizar o diálogo intercultural entre as medicinas Awá e ocidental, foi realizada a Oficina de Saúde Awá Guajá, na Aldeia Awá (Terra Indígena Caru) no Maranhão, no início de setembro. A atividade foi desenvolvida pelo ISPN, no âmbito do Plano Básico Ambiental Componente Indígena (PBA-CI), em parceria com a Vale, Frente de Proteção Etnoambiental da Fundação Nacional do Índio (Funai) e Distrito Sanitário Especial Indígena/MA (Dsei/MA) – Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

O objetivo do evento foi discutir sobre os cuidados com a gestação e o resguardo. A atividade contou com aproximadamente 20 pessoas, entre parteiras experientes e aprendizes, agentes indígenas de saúde, professores, lideranças, mães, pai, avós, técnicos e enfermeiros do Posto de Saúde da Aldeia Awá/DSEI-MA, assessores do ISPN e representantes da Funai.

As discussões se pautaram nas perspectivas da medicina Awá e ocidental para o pré-natal e os cuidados com a saúde da mulher. Ficou evidente que para os Awá uma das principais formas de cuidado em todas as passagens entre as diferentes fases da vida e, de forma mais específica, entre a gestação e pós-parto, está na alimentação cabendo aos pais do recém-nascido a restrição alimentar e, inclusive, a interdição ao pai no que é especialidade dos Awá: a caça.

“Quando vivíamos no mato se comia coisas da floresta. O esposo cuidava da mulher grávida e não dava comida remosa para a mulher. A esposa e o marido só podiam comer a caça que lhes dessem, como o jabuti, capelão e cutia. Comiam também o babaçu e mel doce”, explicou a parteira Imuín Awá.

Como um dos resultados da atividade, foi sugerida uma caderneta intercultural da gestante Awá Guajá. A ideia desse instrumento é promover um acompanhamento gestacional e de pós-parto em conjunto, entre parteiras, familiares e o Posto de Saúde Awá Guajá/Dsei-MA.

Durante a oficina, a enfermeira do Posto de Saúde Awá Guajá, Renata Cruz, ressaltou aos Awá sobre a importância do exame papanicolau para a prevenção do câncer uterino e detecção de demais doenças. Bem como o acompanhamento da gestante (pré-natal) para a prevenção de possíveis problemas gestacionais.

Foi um momento fundamental também para as parteiras demonstrarem suas práticas e saberes no pré-natal tradicional Awá Guajá, como o conselho desde o início da gestação, avaliações entre as diferentes fases da lua e importantes manobras para ajeitar a criança na posição cefálica.

A parteira Takwari Awá Guajá relatou que acompanha o crescimento da barriga através das fases da lua, contando a partir da lua crescente (Jahã Wehenamua). “Se a barriga não cresce de acordo com as fases da lua, procuro saber se há algo de errado”, informou Takwari.

Awá Guajá – Povo de língua tupi-guarani presente em quatro terras indígenas no estado do Maranhão: Caru, Awá, Alto Turiaçu e Araribóia, com uma população de mais de 400 pessoas, de recém contato.

O PBACI é parte integrante do processo de licenciamento ambiental referente ao empreendimento Estrada de Ferro Carajás (EFC) – Componente Índígena em operação pela Vale S.A. voltado aos povos Awá e Guajajara das Terras Índígenas Caru e Rio Pindaré no Maranhão. Está estruturado a partir de dois componentes (Awá e Guajajara), em execução pelo ISPN, e que estão organizados em cinco subprogramas: Proteção Territorial; Fortalecimento Cultural; Fortalecimento Institucional; Etnodesenvolvimento; e Saúde.